Europa Agricultores britânicos divididos quanto à permanência do Reino Unido na União Europeia

Agricultores britânicos divididos quanto à permanência do Reino Unido na União Europeia

O sector é tradicionalmente favorável à integração europeia, mas a crescente burocracia e os constrangimentos impostos por Bruxelas estão a dividir os agricultores. O referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE deverá ter lugar ainda este ano.
Agricultores britânicos divididos quanto à permanência do Reino Unido na União Europeia
Inês F. Alves 12 de Janeiro de 2016 às 21:44

Os agricultores britânicos – tradicionalmente favoráveis à ligação entre o Reino Unido e a União Europeia – começam a ponderar que será mais favorável ao sector se o país sair do bloco europeu.

A questão é especialmente relevante quando a expectativa é de que o Reino Unido leve a cabo ainda este ano um referendo sobre a permanência do país na União Europeia.

Depois de décadas a receber subsídios de Bruxelas, alguns agricultores britânicos começam a pensar o impensável: que estão melhor fora da União Europeia, noticia esta terça-feira, 12 de Janeiro, a Reuters.

Explica a agência que os agricultores, fortes apoiantes da associação do Reino Unido à União Europeia na última vez que o país foi a votos sobre esta matéria - em 1975 -, e que durante anos beneficiaram dos fundos europeus para o sector, consideram hoje que as mais-valias de pertencer ao bloco europeu são muito menos estimulantes do que há uma geração atrás.

Estes ponderam se a saída do Reino Unido da União Europeia – um Brexit – os poderá libertar para inovar em áreas como a dos alimentos geneticamente modificados, e soltá-los dos constrangimentos impostos por Bruxelas.

"Estamos a ser martelados como uma espécie de fonte de emprego para os inspectores", lamenta Charlie Flindt, um agricultor de Hampshire, no sul de Inglaterra, acrescentando que até as coisas mais simples de fazer se tornaram muito burocráticas.

"Não podes simplesmente levantar uma cerca hoje em dia, e as imposições que temos de respeitar para receber os subsídios europeus aumentam de ano para ano. E muitos de nós escolheram este trabalho para fugir da papelada", diz.

Nem todos consideram, todavia, que sair a União Europeia lhes irá facilitar a vida. Alguns temem que os subsídios sejam cortados e que se perca o acesso a importantes mercados europeus caso o Reino Unido rompa a sua relação com o clube de Bruxelas e com a sua Política Agrícola Comum (PAC).

"O comércio é um tema fundamental e ninguém pode prever qual será o contexto na sequência de um Brexit", salienta Sean Rickard, ex-economista chefe do Sindicato Nacional de Agricultores, citado pela Reuters.

"No passado, os principais partidos políticos argumentaram a favor de uma retirada faseada dos subsídios até 2020. Acredito que se um sistema de subsídios se mantiver, estes serão inferiores aos que hoje recebemos através da PAC", diz Lucia Zitti, economista do Sindicato Nacional dos Agricultores.

A responsável adiantou à Reuters que os membros do sindicato estão "bastante divididos" e que "querem perceber melhor as implicações de um possível Brexit e também saber como a União Europeia pode trabalhar melhor para ajudar os agricultores".

O agricultor Matt Naylor disse à Reuters que votaria a favor da permanência do Reino Unido no bloco europeu, já que depende largamente de mão-de-obra estrangeira.

"Há muitas pessoas preparadas para se sentar num trator, mas quando chega a hora de tosquiar uma ovelha ou lidar com uma vaca leiteira, é mais difícil conseguir trabalhadores locais", explicou.

Na discussão sobre a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia, Owen Paterson, ex-agricultor e ministro do Ambiente, defende que "a agricultura britânica, com grande potencial, está a ser travada pelos preconceitos contra tecnologia e ciência avançadas". "A recusa obstinada de adoptar tecnologia avançada significa que a Europa se tornou no museu mundial da Agricultura", sustenta.

Em causa está a renitência europeia em abraçar os alimentos geneticamente modificados - sendo o governo britânico mais favorável a esta inovação do que a maioria nas nações europeias -, o excesso de cautela e a morosidade na aprovação de processos químicos que visam proteger as plantações.

Escreve a Reuters que enquanto o orçamento agrícola encolhe com a reforma da PAC, a pressão de grupos ambientais tem levado à imposição de maior regulação sobre o uso de pesticidas e no tratamento do lixo.

Por outro lado, os agricultores têm sido incentivados a apostar em diferentes plantações para continuar a receber os apoios europeus.

"É muito mais difícil de aceder ao dinheiro e a regulação aumentou drasticamente", argumenta Stuart Agnew, um agricultor de Norfolk favorável a uma saída do Reino Unido da União Europeia.

Os economistas alertam que, ainda assim, os agricultores teriam de se sujeitar aos padrões europeus caso quisessem exportar para os países do bloco, mas que deixariam de ter voz na União Europeia, caso viesse a ter lugar um Brexit.

"Se sais porque queres fazer as tuas próprias regras sobre pesticidas, ou ter determinadas indicações nutricionais nos rótulos e por aí fora, isso iria aumentar os custos para aqueles que na indústria estão orientados para a exportação, porque terão de continuar a respeitar o padrão europeu", alerta Alan  Matthews, professor do Trinity College, em Dublin, citado pela agência.

A eventual saída do Reino Unido da União Europeia – Brexit – deverá ser referendada ainda este ano, sendo que antes de levar o tema a consulta pública, Cameron deseja discutir com a União Europeia uma série de alterações que beneficiem o Reino Unido. Chegar ou não a acordo determinará a posição oficial do Governo britânico neste referendo, isto é, se faz campanha a favor da permanência na União Europeia ou não.

Entre as exigências do Reino Unido para permanecer na União Europeia – algumas das quais implicam a alteração de Tratados - está um reforço da soberania nacional, a garantia de que o Reino Unido não tem de suportar os custos de novos resgates, uma declaração de que o euro não é a moeda oficial da União Europeia, blindar o país contra o turismo social e focar a actuação da União Europeia na competitividade.

 




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