Europa Guerra comercial: Moeda de troca de Juncker a Trump também passa por Portugal

Guerra comercial: Moeda de troca de Juncker a Trump também passa por Portugal

A moeda de troca que a União Europeia está a dar aos Estado Unidos para que não avancem com mais tarifas aduaneiras também passa pelo porto de Sines.
Tiago Varzim 09 de agosto de 2018 às 13:42
Quando foi a Washington em Julho, Jean-Claude Juncker trouxe na bagagem uma série de contrapartidas que a União Europeia terá de dar aos Estados Unidos para não ser alvo das tarifas aduaneiras como tem sido a China. Um desses compromissos foi o aumento da importação de soja norte-americana que mais do que triplicou. Mas esse acordo também passa por importar mais gás natural liquefeito dos EUA, cuja entrada na Europa passa actualmente pelo porto de Sines, em Portugal.

Sines passou a ser um ponto de entrada de gás natural liquefeito (LNG, na sigla inglesa) em Abril de 2016. Desde esse momento até agora, a União Europeia já importou 2,8 mil milhões de metros cúbicos, "um valor que está a crescer", argumenta Bruxelas num comunicado divulgado esta quinta-feira, dia 9 de Agosto. A importância do porto português poderá aumentar ainda mais no futuro, face aos planos europeus, também como tinha antecipado o embaixador norte-americano em Portugal.

Ao todo já chegaram a território europeu 40 cargas de gás natural liquefeito vindo dos Estados Unidos e o compromisso que saiu do encontro entre Juncker e Trump é que esse valor tem de continuar a aumentar. Em 2017, a Europa representou mais de 10% do total das exportações deste gás norte-americano, o dobro dos 5% que representava em 2016. Em 2018, esta quota deverá subir. 

Este é uma das prioridades de Donald Trump não só por causa do défice comercial que os EUA têm com a UE, mas também porque o presidente norte-americano já acusou a Alemanha de estar "refém" da Rússia quanto ao gás natural uma vez que é o principal sistema de abastecimento que serve o norte da Europa. Actualmente, segundo a Comissão Europeia, 39% do gás consumido na UE tem origem russa. Esta aproximação de Bruxelas a Washington neste ponto acaba por resolver dois problemas simultaneamente.

Além de importar mais gás natural liquefeito vindo dos EUA, a União Europeia comprometeu-se a co-financiar com 638 milhões de euros projectos de infraestruturas de gás natural liquefeito que aumentem a capacidade actual de 150 mil milhões de metros cúbicos. Foi esta prioridade que trouxe recentemente Pedro Sánchez, primeiro-ministro espanhol, e Emmanuel Macron, presidente de França, a Portugal para discutirem com o primeiro-ministro António Costa o futuro do mercado comum de energia. A ideia é aumentar o potencial de Sines nos próximos anos, criando ligações com o resto da Europa.

Desta forma, a UE distancia-se da dependência que tem com a Rússia e satisfaz as pretensões de Donald Trump. Além disso, os EUA pretendem aumentar a sua capacidade de produção até 2021 de 28 para 108 mil milhões de metros cúbicos, expandindo ao mesmo tempo os seus terminais de exportação para outros mercados. Isto ao mesmo tempo que as necessidades europeias deverão subir 20% até 2040.

Contudo, há um alerta que Bruxelas deixa aos norte-americanos: as condições de mercado têm de ser as correctas e os preços competitivos. Quer isto dizer, por exemplo, que os Estados Unidos têm de levantar as restrições regulamentares que actualmente existem, que a Comissão diz tornarem difícil a importação do gás para a Europa.

No comunicado, Juncker garante que "a União Europeia está preparada para tornar mais fáceis as importações de gás vindas dos EUA, algo que já está a acontecer", argumentando que "ambos os lados têm muito a ganhar ao trabalharem em conjunto no campo da energia". Já o comissário europeu para a energia, Miguel Arias Cañete, diz que a "diversificação é um elemento importante para assegurar a segurança do fornecimento do gás na UE".

No próximo dia 20 de Agosto, o conselheiro para o comércio de Juncker e um responsável oficial por esta pasta na UE irão até Washington para reunir-se com os seus pares norte-americanos. Em causa está o trabalho do Executive Working Group, um grupo bilateral, que tem como objectivo amenizar as tensões comerciais entre os dois países.



pub