Europa Joseph Stiglitz defende reestruturação "profunda" da dívida portuguesa

Joseph Stiglitz defende reestruturação "profunda" da dívida portuguesa

Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia em 2001, defendeu esta quinta-feira, em Macau, uma reestruturação "profunda" da dívida de Portugal e teceu duras críticas às políticas de austeridade impostas pela troika na Europa.
Joseph Stiglitz defende reestruturação "profunda" da dívida portuguesa
Bloomberg
Lusa 27 de março de 2014 às 16:57

"É preciso fazer uma reestruturação e quando a fizerem devem fazer uma reestruturação profunda. Se não for suficiente, vão voltar a ter problemas daqui a três anos, tal como a Grécia teve", disse Joseph Stiglitz, aos jornalistas, à margem do Fórum e Exposição Internacional de Cooperação Ambiental de Macau (MIECF, na sigla inglesa), que arrancou hoje e se prolonga até sábado.

 

A Grécia precisava de uma reestruturação, observou, defendendo que "não havia outra saída". Porém, apontou, cometeram um erro: "Não a fizeram, de uma forma tão profunda como deveriam ter feito. E, por isso, tiveram uma segunda reestruturação e estão a discutir agora uma terceira. E hoje o produto interno bruto da Grécia é cerca de 25% inferior ao que era antes da crise".

 

Os países, tal como as empresas, quando ficam sobre endividados precisam de um 'recomeço' e isso significa reestruturar, sustentou Joseph Stiglitz, indicando não conhecer o conteúdo do

As políticas que têm sido impostas pela troika são contrárias às políticas sustentáveis. São políticas que farão com que o crescimento seja mais difícil no futuro. (...) O preço que estes países estão a pagar, particularmente os jovens, é enorme.
 
Joseph Stiglitz
Economista

Manifesto dos 70 - que apela à reestruturação da dívida pública e que já recebeu o apoio de dezenas de economistas de renome internacional -, quando questionado se o assinaria.

 

Neste contexto, recordou que apoiou a reestruturação da dívida da Argentina - que, há uns anos, se encontrava na mesma situação -, mas também "profunda".

 

"Tem de se ter cuidado: Quando se faz uma reestruturação superficial, cinco anos depois vai ter de se fazer de novo", alertou.

 

Com efeito, "a Argentina teve uma reestruturação muito profunda e o resultado que obteve - durante o período desde 2003 até à crise financeira global [em 2008] - foi um crescimento de 8%, o mais rápido crescimento em qualquer país do mundo à excepção da China", sublinhou.

 

Um crescimento que em países europeus como Portugal pode figurar como ilusão, segundo Joseph Stiglitz: "Quando falo com pessoas de governos de países como Espanha ou Portugal eles dizem: "As coisas estão a melhorar. A crise acabou. E, em certo sentido [estão]: Eles estavam a cair de um precipício e deixaram de cair e começaram a crescer".

 

Contudo, sustentou o Nobel da Economia, "o crescimento é tão lento que, a este ritmo, nunca mais vão voltar à normalidade. Mas, mesmo que começassem a crescer rapidamente ia demorar anos e anos".

 

"As políticas que têm sido impostas pela troika são contrárias às políticas sustentáveis. São políticas que farão com que o crescimento seja mais difícil no futuro", defendeu. "O preço que estes países estão a pagar, particularmente os jovens, é enorme", defendeu o economista que, na intervenção que proferiu na abertura do MIECF, já tinha estabelecido um paralelismo entre a actual crise na Europa e a Grande Depressão.




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mais votado Manolo 28.03.2014

Para quem não saiba, e parece que são muitos ...
Reestruturar uma dívida, é renegociar prazos de pagamento, longevidade, renegociar júros, possivelmente estabelecer condições crescimento/pagamento ...
O deixar de pagar, chama-se 'entrar em incumprimento', situação em que nos sujeitamos a incorrer, caso não façamos uma reestruturação da nossa dívida em condições.

comentários mais recentes
Anónimo 29.03.2014

Há já vários anos que Joseph Stiglitz previu que " as políticas que têm sido impostas pela TroiKa sao contrárias às políticas sustentáveis. Sao políticas que farao com que o crescimento seja mais dificil no futuro. ". Ora, se reflectirmos bem nas suas palavras, nao esquecermos a própria autocrítica feita pelo FMI há uns meses atrás e olharmos atentamente para a situaçao Portuguesa,veremos que assim tem acontecido.
Dada a enormidade da dívida, que avizinha os 140% do PIB,os juros usurários dos financiadores e a ausência de uma autêntica reestrutura
çao política e industrial que se nao fez quando Portugal começou a receber os fundos europeus, chegou-se à actual situaçao.Criaram-se auto-estradas sem infra-estructura que as justifique, destruiu-se a agricul
tura, pelo que tivemos de começar a importar o que comíamos,destruiram
-se os têxteis, cujas exportaçoes nos forneciam devisas, o mesmo suce
dendo com as pescas. Nao produzindo, tivemos de importar. Acrescentando a tudo isto o nosso delírio das grandezas com a constru
çao de estádios que nada produzem, ponte Vasco da Gama para estran
geiro ver, a grande exposiçao de Lisboa, adicionando a corrupçao que se instalou com os dinheiros vindos da Europa para o desenvolvimento das infra-estructuras de que carecíamos mas em parte aplicados em bens imóveis, carros de luxo e outros, a falência do País era de prever.
Para pagar a dívida começou-se por vender o que de melhor havia no
País, fecharam-se fábricas porque ultrapassadas pelas novas técnicas,
despediram-se milhares de pessoas, aumentaram-se os impostos e tudo
o mais onde o Estado pode ir buscar dinheiro, nao havendo dinheiro nem
trabalho as pessoas nao consomem, nao pagam a prestaçao da casa, o
crédito largamente fomentado pela Banca em tempos nao muito longíncu
os, alimentam-se mal, caem doentes, têm uma assistência deficiente, morrem. Os jovens recém-formados sao convidados a emigrar para envia
rem devisas para o País, enquanto idosos estrangeiros sao convidados a vir passar a sua reforma em Portugal com a promessa de nao pagarem impostos durante dez anos, este afunda-se tanto mais rápido quanto a dívida cresce, baixam-se salários e reformas, roubam-se os reformados,
em suma, miséria sobre miséria.
Face à falência a que nos conduziram e que pretendem transferir para os
cidadaos, que fazer ? Para desenvolver o País é preciso dinheiro, de contrário continuaremos a afundar criando dívida para pagar a dívida, até
ao dia do grande estouro em que os financiadores perderao tudo e eles
sabem-no muito bem.
A menos que desejemos uma enorme convulsao social com a miséria que nos tem sido imposta por políticos incompetentes, nao se me afigura uma outra saída que nao seja a da reestructuraçao da dívida por um prazo mais dilatado, com juros mais decentes e, sobretudo, com uma justiça soberana e políticos competentes.
Artigo escrito em desacordo com o acordo ortográfico.




Sergio Paradiz 28.03.2014

Diz Stiglitz:
"Os países, tal como as empresas, quando ficam sobre endividados precisam de um 'recomeço' e isso significa reestruturar", sustentou Joseph Stiglitz, indicando não conhecer o conteúdo do documento dos 70.
É estranho ou nem por isso que se esqueça de desenvolver a proposta. Reestruturar significa negociar com o credor. Stiglitz e os que defendem a politica do " tem que ser" ja experimentou ir ao banco e dizer: "quero reestrutura a minha divida e estes sao os meus termos". ?
Se o fez alguma vez, pode por favor partilhar connosco como é que conseguiu que o credor aceitasse a reestruturacao e last but not least " qual foi de facto o custo ?
Stiglitz sabe trabalhar com cenarios. Era util que ele e os que defendem tao acerrimamento a reestruturacao, o fizesse apresentando pelo menos os dois cenarios.
A gravidade da situaçao é tal - eu vivo ca - que nao ha espaço para estas discussoes a preto e branco. E nao sao serias nem honestas.
SP

Vai uma aposta? 28.03.2014

Até ao fim do ano, Portugal vai iniciar o processo de re-estruturação da dívida!!!

Anónimo 28.03.2014

ESTE QUANDO BEBE UNS COPOS DESENROLA A LINGUA E SÓ DIZ DISPARATES

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