Zona Euro Costa: "Numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido"

Costa: "Numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido"

O primeiro-ministro condenou esta quarta-feira as declarações de Jeroen Dijsselbloem, que numa entrevista disse que os povos do Sul da Europa pediram ajuda depois de gastarem dinheiro em "álcool e mulheres."
Costa: "Numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido"
Pedro Simões
Paulo Zacarias Gomes 22 de março de 2017 às 11:16

O primeiro-ministro defendeu o afastamento imediato de Jeroen Dijsselbloem da presidência do Eurogrupo, depois de o holandês ter dito que os países do sul não podem gastar "o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda."

"Numa Europa a sério, o senhor Dijsselbloem já estava demitido neste momento. Não é possível que quem tem uma visão xenófoba, racista e sexista possa exercer funções de presidência de um organismo como o Eurogrupo," afirmou António Costa esta quarta-feira, 22 de Março, em declarações aos jornalistas em Lisboa.

O chefe de Governo diz que Portugal "não tem lições a receber do senhor Dijsselbloem em coisa nenhuma", tanto mais que "cumpriu escrupulosamente os seus compromissos com a União Europeia" e argumenta que a "estas ameaças não se deve responder estigmatizando, mas pelo contrário respeitando."

As palavras de Costa surgem depois de uma entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, publicada no domingo, na qual Jeroen Djisselbloem afirmou: "Tornamo-nos previsíveis quando nos comportamos de forma consequente e o Pacto (de Estabilidade) da Zona euro baseia-se em confiança. Na crise do euro, os países do norte da zona euro mostraram-se solidários para com os países em crise. Como social-democrata, considero a solidariedade da maior importância". Porém, acrescentou, "quem a exige também tem obrigações. Eu não posso gastar o meu dinheiro todo em aguardente e mulheres e pedir-lhe de seguida a sua ajuda. Este princípio é válido a nível pessoal, local, nacional e até a nível europeu". 

Questionado sobre a possibilidade da continuidade do holandês à frente do grupo dos ministros das Finanças do euro, o primeiro-ministro disse ser "absolutamente inaceitável que continue a exercer funções".

"Espero que caia, está no governo a representar um partido que foi esmagado nas eleições da Holanda. Consideramos que a Europa não se faz com 'Dijssebloems'. Faz-se com os que acreditam na igualdade, se respeitam uns aos outros."

Costa não poupou nas palavras: "O senhor Dijsselbloem deve desaparecer, mas pior que o sr. Djsselbloem temos de fazer desaparecer o racismo, o sexismo, valores que não são exclusivos do sr. Wilders [candidato da extrema-direita holandesa], que se aparece como lobo, mas são partilhados infelizmente por alguns lobos que se disfarçam de cordeiros."

"A Europa faz-se com aqueles que acreditam na igualdade dos povos, aqueles que se respeitam uns aos outros, aqueles que admiram um esforço extraordinário de países do norte da Europa que tiveram depois da guerra e que também respeitam o esforço dos países do sul da Europa, que têm feito nos últimos anos para conseguirem corrigir as situações das suas finanças públicas", acrescentou.

Esta terça-feira, Dijsselbloem rejeitou pedir desculpa pela acusação, depois de o assunto ter sido suscitado no Parlamento Europeu pelos eurodeputados.

"Não, não, eu sei o que disse porque saiu da minha própria boca", afirmou o político holandês, citado pela Lusa, em resposta a um pedido do eurodeputado espanhol dos Verdes, Ernest Urtasun, para que se desculpasse.

Ontem já o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, tinha pedido a partir de Washington, onde se encontrava, o afastamento do presidente do Eurogrupo.

"Hoje, no Parlamento Europeu, muita gente entende que o presidente do Eurogrupo não tem condições para permanecer à frente do Eurogrupo e o governo português partilha dessa opinião", disse o ministro, igualmente citado pela Lusa.

O Presidente da República também já reagiu, respaldando a posição deixada por Santos Silva:"Já foi tudo dito pelo senhor ministro dos Negócios Estrangeiros. Quando ele falou, falou em nome do Wstado português. Como Presidente da República Portuguesa, eu não posso senão subscrever o que ele disse. Já está dito por Portugal. Portugal tomou posição e está tomada".




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