Zona Euro Draghi: “Excedente corrente da Alemanha beneficia todos os países europeus”

Draghi: “Excedente corrente da Alemanha beneficia todos os países europeus”

“Não se pode fazer o débil mais forte debilitando o mais forte”, argumenta o presidente do BCE, Mário Draghi, ao defender as virtudes do excedente corrente alemão.
Draghi: “Excedente corrente da Alemanha beneficia todos os países europeus”
Bloomberg
Eva Gaspar 21 de novembro de 2013 às 18:37

O presidente do Banco Central Europeu (BCE) defendeu esta quinta-feira o elevado excedente corrente da Alemanha, que tem suscitado várias críticas, tendo sido sinalizado pela Comissão Europeia que, até à Primavera, terá de concluir se um indicador equivalente a 7% do PIB (acima do máximo de 6% prescrito pelas regras europeias) representa ou não um foco de desequilíbrio macroeconómico grave para o conjunto da Zona Euro.

 

"Nestas discussões sobre o que a Alemanha deveria ou não fazer, uma coisa ficou clara: não se pode fazer o débil mais forte debilitando o mais forte", argumentou. Na sua opinião, a economia alemã "tem seguido uma orientação que beneficia todos os países europeus" ao apostar num sector externo competitivo e de qualidade.

 

A sua opinião coincide com a do ministro da Economia de Espanha. Luís de Guindos 

considera que a forte indústria exportadora alemã representa uma boa notícia para a economia espanhola, que tem tirado partido desta aposta forte da maior economia europeia. “Para Espanha, a maior ajuda que podemos receber da Alemanha nesta altura é que o ritmo das suas exportações continue”, disse Luis de Guindos, citado pelo “Financial Times”.

 

A Alemanha tem excedentes correntes elevados desde 2004, mas o debate foi consideravelmente ampliado depois de um relatório do Tesouro norte-americano, segundo o qual “o ritmo anémico do crescimento da procura doméstica alemã e a sua dependência das exportações prejudicou o reequilíbrio numa altura em que outros países do euro estão sob enorme pressão para reduzir a procura e contrair as importações".

Nestas discussões sobre o que a Alemanha deveria ou não fazer, uma coisa ficou clara: não se pode fazer o débil mais forte debilitando o mais forte 
Mário Drahi

Na argumentação de Washington, a Alemanha podia e devia ter feito mais para expandir a sua

procura interna e criar condições para um aumento das exportações dos países da periferia. Não o tendo feito, o “Ministério das Finanças” dos Estados Unidos considera que o ajustamento realizado no seio da Zona Euro, no sentido de reduzir as disparidades entre os países que são cronicamente excedentários e os que são tradicionalmente deficitários na sua relação com o mundo, tem sido “de forma desproporcionada” suportado pelos países da periferia. Em 2008, 11 dos 17 membros da moeda única tinham défices externos. No final deste ano serão apenas quatro. Em três anos, Portugal passou do segundo maior défice externo do euro para um excedente de 0,9% do PIB.

 

O saldo da balança corrente integra o da balança comercial (mercadorias) e a de serviços – exportações menos importações de ambos –, o da balança de rendimentos (de trabalho e capital) e outras transferências unilaterais (onde se encaixam remessas de emigrantes). Um saldo corrente negativo (défice externo) significa que o país é devedor face ao resto do mundo; se for positivo (excedente) é credor.

 

"Reduzir o excedente alemão é tão importante para corrigir os desequilíbrios, como os programas de austeridade na periferia", concorda o economista Paul De Grauwe. "Se a Alemanha estivesse disposta a reduzir o excedente, gastando mais, aliviaria a pressão em países como Portugal e tornaria os programas de austeridade menos dolorosos”, considera o economista belga, numa linha de argumentação que tem sido partilhada por muitos outros de famílias de pensamento distintas, como é o caso de Vítor Bento.

 

Já Melvyn Krauss, professor de Economia nas Universidade de Nova Iorque e de Stanford, acha que todo o debate sobre os deméritos de a Alemanha ter uma relação excedentária com o resto do mundo foi empolado pelo Governo norte-americano numa manobra de "Bruxa proteccionista disfarçada de Branca de Neve". "Como seria conveniente para o Tesouro norte-americano e para a falida Detroit – que vende carros em competição directa com a Mercedes-Benz de Sindelfingen e a Volkswagen em Wolfsburg – apontar o dedo da culpa dos problemas do mundo para as exportações alemãs. Se [Jack] Lew quer resgatar Detroit, deve fazê-lo directamente, em vez de fazer proteccionismo disfarçado".

 

Num artigo publicado na Bloomberg, o economista lembra que a Alemanha reduziu o excedente face à Zona Euro e subiu face a países terceiros, designadamente os EUA, e tenta desmontar um dos argumentos centrais de quem considera excessivos e, nessa medida, nefastos os excedentes alemães. Em sua opinião, uma economia exportadora, como a alemã, pode ajudar mais as economias em crise da periferia do euro se continuar a exportar do que se reorientar os seus recursos para consumir e investir mais. "Se derem mais dinheiro aos alemães [ por via de salários mais altos e/ou impostos mais baixos] será que vão gastar ou poupar? Vão comprar as casas [que muitas vezes arrendam] ou produtos importados? E se quiserem mais importações, serão gregas ou chinesas? Ninguém sabe", escreve. Já o efeito das exportações, diz, é mais antecipável dada a integração das cadeias de valor nas indústrias.

 

Segundo dados do Governo alemão, apenas  37% das exportações alemãs se destinam à Zona Euro, sendo que cerca de 40% do que o país exporta é comprado a outros parceiros do euro.

 

João Rodrigues, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, considera, no entanto, que a "acumulação de excedentes elevados prejudica a economia mundial e faz valorizar o euro, o que é prejudicial" designadamente para os exportadores da periferia. Esse é, aliás, o argumento central da Comissão Europeia quando aponta o dedo à Alemanha. Segundo o comissário europeu dos Assuntos Económicos e Monetários, Olli Rehn, um aumento da procura na Alemanha, por via de salários e/ou investimento público mais elevados, pode não levar a uma subida das exportações dos países do Sul da Europa, mas “pode ajudar a reduzir a pressão sobre a taxa de câmbio do euro, facilitando o acesso aos mercados globais para os exportadores na periferia”.




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mais votado Anónimo Há 23 horas

Podemos culpar a Alemanha em alguma coisa sim pudemos!!
Nao podemos e culpala das desicoes dos nossos politicos com um (p pequeno)!
Quem deside dar ordenados elevados em Portugal eles dizem somos um Pais pequeno e pobre ! Um exemplo como se justifica o Presidente do Banco de Portugal ganhar mais do que o Presidente do Banco Federal dos Estados Unidos. E apenas um reparo no meu de tantos outros!
Mais um para acabar quando os politicos decediram na altura dar o decimo terceiro e o decimo quarto mes eles fizeram-no pensando em sim
e nao no Povo como se justifica por exemplo o Vitor Constancio na altura Presidente do Banco de Portugal a ganhar mais ou menos 20,000.00 Euros por mes depois de pago o decimo terceiro mes vai receber 40,000.00 Euros e um desgracado ao receber o ordenado minimo depois do decimo terceiro recebe menos de 1,000.00 Euros .A justificacao no meu ver nao! Como eu disse e um pequeno exemplo no meu de tantos outros por isso nao se poe a culpa nos outros a nao ser em nos mesmos!!!!







comentários mais recentes
Anónimo Há 3 horas

D'aquiD'álemanha..........
O povo alemão está unido com todos aqueles que - onde quer que seja na Europa - exigem a saída da Alemanha da UE e do Euro.
As medidas necessárias para isso não virão a ser tomadas pelo governo covarde de Frau Merkel, tanto como não teriam sido tomadas pelo de Helmut Kohl.
A nossa esperança continuará a residir nos governos do Reino Unido, Austria e Holanda - países aonde a democracia tem um outro valor que não o do existente na Alemanha.
O povos dos países acima mencionados, são vítimas desta comunidade europea e desta moeda única. É só o grande capital destes países, que tira proveito disso.
Exija-se uma moeda única, exclusivamente para os países : França, Italia, Espanha, Portugal e Grécia.

Anónimo Há 9 horas

Mas pode exportar-se a crise para a periferia para impedir que atinja o centro! Esse é o papel da deficiente arquitectura do Euro. A sua criação foi premeditada pelos países do centro e os da periferia (como sempre) fizeram o papel de idiotas úteis. A Alemanha está a escapar ilesa à crise à custa da periferia! Sair da UE e do Euro parece cada vez mais o caminho mais lógico!!

Anónimo Há 10 horas

Especialmente os alemães................

Manolo Há 11 horas

Cada problematica, desde a mais simples à mais complexa, tem sempre pelo menos dois pontos de vista.
Quando virmos alguem defender um sem falar no outro, está a tentar enganar alguem.

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