Finanças Públicas Vital e Porfírio: Opiniões (quase) opostas sobre governo Costa

Vital e Porfírio: Opiniões (quase) opostas sobre governo Costa

Vital Moreira e Porfírio Silva são dois homens da área do PS muito activos na vida política – e mediática. Leia aqui como pensam – e como pensam diferente – sobre a governação Costa.
Vital e Porfírio: Opiniões (quase) opostas sobre governo Costa
Miguel Baltazar
Eva Gaspar 04 de fevereiro de 2016 às 08:28

"Não vale evitar as palavras: é perfeitamente possível que Bruxelas esteja a tentar tramar o governo português. Vamos ver como prossegue o jogo, mas não é de agora que o barrosismo sobrevivente na Comissão Europeia é um derivado do PPE, o partido da direita europeia que luta pela hegemonia absoluta na UE. Estejamos atentos". A mensagem foi escrita na semana passada por Porfírio Silva no seu Facebook na quarta-feira, 27 de Janeiro, dia em que foi divulgada da carta em que Bruxelas levantava sérias reservas ao "draft" do Orçamento do Estado.

Essa mensagem foi repetida esta segunda-feira, 1 de Fevereiro, em entrevista ao jornal i.

Nela, o conselheiro de António Costa, defensor da aliança à esquerda, responsável pelas relações internacionais do Partido Socialista afirma, ainda a propósito das divergências em torno do Orçamento do Estado preparado pelo governo socialista, que "corremos o risco de que a União Europeia se transforme numa União Soviética sem KGB". Porquê? Porque "a direita europeia, organizada no PPE, acaba por controlar governos, acaba por ter uma força desmesurada na Comissão Europeia", argumenta, referindo-se ao Executivo comunitário cujo presidente e comissário do euro são membros do PPE (Jean-Claude Juncker e Valdis Dombrosvkis, respectivamente), sendo que o primeiro vice-presidente (Frans Timmermans) e o comissário responsável pelos Assuntos Económicos (Pierre Moscovici) pertencem ambos à família socialista.


O conselheiro de António Costa afirma ainda que "há responsáveis em Bruxelas que têm andado a chamar jornalistas para, em off, envenenar a comunicação social contra Portugal, mostrando documentos que deviam ser reservados e dando pretensas explicações que são afinal falsidades". "Funcionários públicos europeus, pagos para servir o bem comum europeu, não deveriam deixar-se instrumentalizar, não deveriam deixar-se transformar em armas de arremesso da direita europeia", queixa-se.

Já Vital Moreira (na foto), constitucionalista e ex-eurodeputado independente eleito pelas listas do PS, pensa muito diferente sobre as razões que explicarão o actual braço-de-ferro com Bruxelas. "Não vale a pena desvalorizar. As observações de Bruxelas ao esboço de orçamento para 2016 suscitam obviamente dois problemas: primeiro, a consolidação orçamental proposta fica longe das metas do Tratado Orçamental quanto à redução do "défice estrutural"; segundo, a Comissão Europeia não acredita muito (e nisso não está sozinha...) nas projecções económicas que fundamentam as metas orçamentais, nomeadamente quanto ao crescimento do PIB. Parece-me claro que o segundo problema é mais grave do que o primeiro. Urge afastar qualquer suspeita séria de que o novo orçamento assenta em pressupostos pouco sólidos", escreveu logo no dia seguinte à divulgação da carta de Bruxelas, no blogue Causa Nostra que anima a meias com Ana Gomes. Pouco depois, acrescentava uma adenda ao "post" datado de 28 de Janeiro: "Este relatório da UTAO põe directamente em causa os critérios do esboço orçamental. Acumulam-se as nuvens no horizonte deste orçamento..."

Vital Moreira tem disparado várias críticas ferozes à orientação do executivo. "Há quem pense que o "fim da austeridade" pode aliviar a pressão sobre o crédito ao consumo, dado que as pessoas passam a ter mais rendimento disponível. Penso o contrário: o aumento do rendimento pode trazer mais margem para endividamento. Esperemos o pior se não houver um travão ao crédito ao consumo", adverte, lamentando que se tenha deixado criar no estrangeiro uma percepção de hostilidade aos investidores estrangeiros , que é "o que o país menos precisa". "Face à baixa poupança interna e à escassez de capital doméstico para investimento privado e face aos constrangimentos orçamentais ao investimento público, Portugal precisa de investimento estrangeiro como de pão para a boca. Sem investimento não há crescimento nem emprego", argumenta.


Vital Moreira é também contra a redução do IVA nos restaurantes – "enquanto se mantiver a necessidade de consolidação orçamental (…) é uma enorme imprudência ", e mostra-se  muito céptico em relação ao ritmo previsto para o aumento dos salários. "Infelizmente, o esboço orçamental para 2016 apresentado pelo Governo prevê uma subida dos custos laborais superior ao crescimento da produtividade, o que não pode deixar de degradar a competitividade externa da economia portuguesa, como sucedeu na década que precedeu a crise".


Vital Moreira contesta ainda o "esbulho" e aqueles que "ingenuamente pensaram que a reversão da concessão dos transportes públicos de Lisboa e do Porto não ia custar nada ao Estado", escrevendo que ficou  a saber-se, pelo esboço de Orçamento para 2016, que só a Carris de Lisboa e os STCP vão custar ao Orçamento do Estado mais 223 milhões de euros. " Ou seja, os contribuintes de todo o país vão continuar a suportar os défices dos transportes colectivos de Lisboa e do Porto. E ninguém protesta contra este escândalo?", interroga-se.


Vital Moreira e Porfírio Silva acabam por apenas coincidir por serem dois homens da área do PS muito activos na vida política – e mediática – sendo ambos casados com integrantes do governo Costa. Porfírio é marido de Margarida Marques, actual secretária de Estado dos Assuntos Europeus e antiga chefe da representação da Comissão Europeia em Portugal; Vital Moreira é casado com Maria Leitão Marques, ministra da Presidência e da Modernização Administrativa.




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comentários mais recentes
. 06.02.2016

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UM CONSELHO, VITAL MOREIRA, INSCREVE-TE NO PSD 06.02.2016

E pensar que este VITAL MOREIRA, que, recordemo-nos, veio do PCP, se transformou num abjecto direitolas ... hein.
Há pessoas que são, de facto, exímias em cambalhotas, que têm muito a ver com a falta de estrutura de carácter.

Anónimo 05.02.2016

Par o anónimo senão sabes , não digas asneiras, no contrato de concessão , as indemnizações compensatórias não existiam . o estado que somos nós todos, não metiam lá um tostão, era dinheiro que se poupava,percebestes .ok?

josé 05.02.2016

a mamar em bruxelas à anos também o que queriam que dissesse?

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