Justiça Acusado de manipular dívida portuguesa processa Estado

Acusado de manipular dívida portuguesa processa Estado

Um artigo num blogue do jornal New Yorque Times rendeu uma acusação de manipulação de mercado a Peter Boone. A justiça portuguesa concluiu que não havia motivos para levar o economista a tribunal. Mas o caso não fica por aqui.
Acusado de manipular dívida portuguesa processa Estado
Diogo Cavaleiro 17 de julho de 2017 às 00:01
O economista Peter Boone pretende processar o Estado português pela forma como foi acusado de manipular o mercado de dívida portuguesa. A decisão do doutorado de Harvard foi tomada depois de ter transitado em julgado, e portanto não passível de recurso, a sentença do Tribunal da Relação de Lisboa que o inocenta daquele crime, imputado pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.

"O Dr. Boone prepara-se agora para processar o Estado Português por investigação grosseiramente incompetente e negligente conduzida pela CMVM e pelo Ministério Público", indica um comunicado de Peter Boone. A defesa, assegurada por Francisco Proença de Carvalho, pondera ainda actuar judicialmente contra os autores dos relatórios da CMVM que sustentaram a acusação. A acção judicial ainda não tem um valor, mas Peter Boone diz ao Negócios que irá doar o valor acima dos custos legais a "causas de caridade".

O caso tem já sete anos. "O próximo no radar é Portugal". Esta era a ideia central de um artigo publicado por Peter Boone e Simon Johnson no blogue Economix do New York Times, em Abril de 2010, em que era defendido que, após a Grécia a solicitar um resgate financeiro, seguir-se-ia Portugal. Nesse mesmo dia, o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, decidiu enviar uma nota às redacções, referindo-se a "disparates sem fundamentação sólida, reveladores de ignorância". Um ano depois, Portugal acabou mesmo por solicitar assistência financeira internacional.

A CMVM abriu uma investigação por considerar que o artigo poderia ter como objectivo desvalorizar o preço das obrigações portuguesas. E Peter Boone estava ligado à Salute Capital Management, que prestava serviços de aconselhamento de investimento em dívida pública. A ideia da investigação era que tinha havido um ganho de 820 mil euros com o investimento na queda da dívida pública portuguesa.

"O Ministério Público requereu o julgamento de um arguido de nacionalidade canadiana e residente em Londres, pela prática do crime de manipulação de mercado", indicava a Procuradoria-Geral da República em Outubro de 2015. Peter Boone contestou e pediu a abertura da instrução do caso, para ir contra a acusação e evitar o julgamento.

Outubro de 2016: o Tribunal de Instrução Criminal decidiu que não haveria pronúncia de Peter Boone, que defende que o caso é uma "caça às bruxas". O Ministério Público recorreu, mas o Tribunal da Relação de Lisboa considerou que não havia razão para levá-lo a julgamento. Segundo a defesa, esta última decisão transitou em julgado a 12 de Julho. "Eu e o professor Johnson nunca escrevemos recomendações de investimento", refere Boone, que se diz aliviado.

Estou muito feliz e aliviado que o Tribunal da Relação tenha chegado a esta conclusão.
Este processo nunca deveria ter existido. Foi uma caça às bruxas. 
Peter Boone
Comunicado enviado ao Negócios



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mais votado Anónimo Há 6 dias

É uma janela de oportunidade que se abre para especuladores treinados na arte de especular nas suas salas de trading especulativo ganharem muitos milhões. Com a saída da troika e a chegada do PS ao governo, começou a formar-se um mercado nicho para a nova grande hipoteca da República Portuguesa. O irresponsável e marcadamente eleitoralista governo em funções em tudo ajudou a criar esse mercado da ruína e dependência futura dos portugueses. A oferta de dívida excessiva e não reprodutiva tem procura que irá gerar enormes retornos sobre o investimento a quem quiser ganhar com a auto-infligida destruição de Portugal. Não garante absolutamente nada em termos de sustentabilidade da dívida lusa, sustentabilidade futura do Estado ou em termos de um futuro bom para a economia portuguesa e a sua população, para as quais de resto estes especuladores se estão literalmente a marimbar. O dinheiro não dorme. Que durmam então os portugueses que não percebem isto nem irão ver isto chegar outra vez.

comentários mais recentes
Anónimo Há 6 dias

Se os juros estão a baixar, uma vez que os títulos de dívida estão a apreciar no seu preço (a famosa relação inversa entre taxa de juro da dívida e o preço dos títulos no mercado secundário), é porque existe mais confiança por parte dos credores/investidores. Assim, eles compram mais dívida e mais facilmente essa dívida é colocada pela República Portuguesa. O recurso ao sobreendividamento por parte da República fica muito facilitado. Se as políticas são marcadamente despesistas, inclusivamente de índole anarco-sindicalista, assentes na defesa inalienável do excedentarismo de carreira, quer o Estado invista ou não invista em capital com grande incorporação de tecnologia económica e eficiente que poupa grandemente em factor trabalho, esse sobreendividamento vai ser desbaratado e essencialmente mal usado para única e exclusivamente originar um novo pedido de resgate ao FMI e à UE, que mais uma vez irão sugerir reformas económicas e outras medidas que Portugal se mostra relutante em fazer.

Anónimo Há 6 dias

Portugal nas notícias pelo pior exemplo de falta de sensatez, fazendo se vítima das suas próprias asneiras e, assim caminhando novamente para a desgraça. Este povo nem de porrada é farto.

Anónimo Há 6 dias

Sr Anónimo registado como Anónimo... as taxas de juro e as yields em 2011 eram o triplo das que são hoje. Será que consegue escrever 6 linhas de texto e não consegue escrever dois números? Não percebo o que defende, fique com o url: https://pt.investing.com/rates-bonds/portugal-10-year-bond-yield

Anónimo Há 6 dias

Em organizações públicas e privadas do mundo mais desenvolvido, no âmbito da gestão das organizações faz-se gestão de recursos humanos (GRH). Sem GRH, nem criação de valor ocorre nem elevação dos rendimentos de colaboradores não excedentários se dá, uma vez que os excedentários, por definição, limitam-se a extrair valor. Economias com GRH enriquecem e desenvolvem-se de forma sustentável. Ser excedentário não significa por si só que se seja criminoso ou mesmo incompetente. Ser excedentário é como estar na condição de desempregado mas a ser suportado por uma organização que emprega o desempregado. O desempregado e o excedentário são apenas uma oferta sem procura, e isso não é crime, crime é não fazer GRH. O desempregado, sem procura no mercado laboral onde oferece trabalho. O excedentário, sem procura numa dada organização empregadora que tem que o suportar prejudicando a persecução da sua missão, visão e propósito. Ambos são um problema do Estado de Bem-Estar Social e não do empregador.

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