Justiça Boone: "Foi uma caça às bruxas iniciada por uma declaração de Teixeira dos Santos"

Boone: "Foi uma caça às bruxas iniciada por uma declaração de Teixeira dos Santos"

O economista acusado do crime de manipulação de mercado, entretanto já ilibado e que pretende processar o Estado português, defende ao Negócios que não fez nada de errado, comparando as suas práticas com as de Warren Buffett.
Boone: "Foi uma caça às bruxas iniciada por uma declaração de Teixeira dos Santos"
Diogo Cavaleiro 17 de julho de 2017 às 09:07

Peter Boone, o investidor que foi acusado de manipular dívida pública portuguesa e que foi entretanto ilibado, acredita que foi alvo de uma caça às bruxas por ter atacado o país em 2010. O economista formado em Harvard diz ter práticas idênticas aos de grandes nomes dos mercados, como Warren Buffett e Ben Bernanke, quando escreve sobre investimentos financeiros e política económica. 

 

"Foi uma caça às bruxas iniciada por uma declaração pública do antigo ministro das Finanças, professor Fernando Teixeira dos Santos, que se sentiu ofendido por eu ter questionado alguma das más decisões económicas que ele e os seus pares estavam a prosseguir", indica Boone, citado numa nota enviada às redacções a dar conta da intenção de processar o Estado português.

 

"O próximo no radar é Portugal". Esta era a ideia central de um artigo publicado por Peter Boone e Simon Johnson no blogue Economix do New York Times, em Abril de 2010, em que era defendido que, após a Grécia a solicitar um resgate financeiro, seguir-se-ia Portugal. Nesse mesmo dia, o ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, decidiu enviar uma nota às redacções, referindo-se a "disparates sem fundamentação sólida, reveladores de ignorância". Um ano depois, Portugal acabou mesmo por solicitar assistência financeira internacional.

 

A CMVM investigou e concluiu que Boone escreveu artigos para depreciar a dívida pública portuguesa e depois obter mais-valias, devido à sua ligação à gestora de fundos Salute Capital Management. O Ministério Público acusou-o, e só em 2017 foi ilibado pelo tribunal, que optou por não levá-lo a julgamento.

 

Seguir as práticas de Buffett

 

"Eu segui exactamente as melhores práticas no que diz respeito a ‘disclaimers’ que são exigidos aos profissionais de investimento", responde ao Negócios, por escrito, Peter Boone, acrescentando que dizia nos seus artigos de opinião que trabalhava para a Salute.

 

"É este mesmo ‘disclamer’ que é usado por Warren Buffett, um dos mais famosos investidores do mundo, que diz nessas notas que trabalha para a Berkshire Capital, e torna assim óbvio que é um elemento activo nos mercados financeiros. Buffett nunca elenca os títulos específicos que a Berkshire detém", argumenta Peter Boone, na mesma resposta ao Negócios, quando questionado se este caso que viveu em Portugal não o fará repensar nos eventuais conflitos de interesse entre quem investe e quem escreve sobre investimentos.

 

Peter Boone refere que Buffett não é o único: "Mohammed El-Erian (Alliance), Bill Gross (Pimco), Stephanie Flanders (JP Morgan), Ben Bernanke (assessor de vários fundos), e Howard Davies (antigo líder do regulador britânico e agora presidente do Royal Bank of Scotland) usam todos ‘disclaimers’ semelhantes quando escrevem sobre questões de política económica ou tópicos gerais de investimento".

Ou seja: indicam qual a entidade a que estão ligados, mas não o que negoceia essa entidade. 

 

Boone defende também que a Salute não beneficiava com a queda do preço das obrigações portuguesas, que estavam sob pressão em Abril de 2010, altura em que a Grécia estava sob os holofotes com a intensificação da crise da dívida: "os clientes da Salute Capital detinham inúmeros activos que perderiam dinheiro com a dívida portuguesa desvalorizada".

 

O economista ataca, por várias vezes, a postura da CMVM e do Ministério Público ao longo deste processo, motivo pelo qual avança para o processo contra o Estado.




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mais votado Anónimo Há 4 dias

Se os juros estão a baixar, uma vez que os títulos de dívida estão a apreciar no seu preço (a famosa relação inversa entre taxa de juro da dívida e o preço dos títulos no mercado secundário), é porque existe mais confiança por parte dos credores/investidores. Assim, eles compram mais dívida e mais facilmente essa dívida é colocada pela República Portuguesa. O recurso ao sobreendividamento por parte da República fica muito facilitado. Se as políticas são marcadamente despesistas, inclusivamente de índole anarco-sindicalista, assentes na defesa inalienável do excedentarismo de carreira, quer o Estado invista ou não invista em capital com grande incorporação de tecnologia económica e eficiente que poupa grandemente em factor trabalho, esse sobreendividamento vai ser desbaratado e essencialmente mal usado para única e exclusivamente originar um novo pedido de resgate ao FMI e à UE, que mais uma vez irão sugerir reformas económicas e outras medidas que Portugal se mostra relutante em fazer.

comentários mais recentes
CaTu Há 4 dias

O guarda-costas do José Sócrates devia ser responsabilizado.

Anónimo Há 4 dias

Para entender a crise de equidade e sustentabilidade que tem afectado as economias desenvolvidas e posto territórios como os de Portugal e Grécia nas más bocas do mundo, é fundamental perceber que para uns serem excedentários ou pagos acima do preço de mercado, outros têm que pagar mais caro quando consomem bens e serviços, pagar mais taxa de imposto quando são tributados, obter menor retorno sobre o investimento quando investem, poupar menos quando aforram, ser pior remunerados, abaixo do seu preço de mercado, quando oferecem trabalho com real procura, ficar à espera que cheguem os meios aéreos de combate a incêndios que não existem quando tudo está a arder, atravessar estradas nacionais por limpar, cheias de combustível, nesses dias fatídicos, oferecer a criminosos e terroristas o material de guerra das Forças Armadas depositado nos paióis e paolins, e ir de liteira para o hospital à noite porque as ambulâncias do INEM estão paradas...

Anónimo Há 4 dias

Se os juros estão a baixar, uma vez que os títulos de dívida estão a apreciar no seu preço (a famosa relação inversa entre taxa de juro da dívida e o preço dos títulos no mercado secundário), é porque existe mais confiança por parte dos credores/investidores. Assim, eles compram mais dívida e mais facilmente essa dívida é colocada pela República Portuguesa. O recurso ao sobreendividamento por parte da República fica muito facilitado. Se as políticas são marcadamente despesistas, inclusivamente de índole anarco-sindicalista, assentes na defesa inalienável do excedentarismo de carreira, quer o Estado invista ou não invista em capital com grande incorporação de tecnologia económica e eficiente que poupa grandemente em factor trabalho, esse sobreendividamento vai ser desbaratado e essencialmente mal usado para única e exclusivamente originar um novo pedido de resgate ao FMI e à UE, que mais uma vez irão sugerir reformas económicas e outras medidas que Portugal se mostra relutante em fazer.

surpreso Há 4 dias

O que ele disse ontem ,pode dizê-.lo hoje.Portugal é um país que vive graças ao crédito.Falido

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