Justiça Lula e Lava Jato cruzam-se com Sócrates e Passos

Lula e Lava Jato cruzam-se com Sócrates e Passos

O Correio da Manhã noticia este domingo que a justiça brasileira pediu a colaboração de Portugal no âmbito da Operação Lava Jato. Já o jornal O Globo avança que Lula terá pedido a Passos Coelho, para dar atenção aos interesses da Odebrecht na privatização da EGF.
Lula e Lava Jato cruzam-se com Sócrates e Passos
Miguel Baltazar/Negócios

O Ministério Público do Paraná, onde está sediada a investigação da Operação Lava Jato, confirmou ao Correio da Manhã que a justiça brasileira fez um pedido de colaboração a Portugal, sem revelar a razão que está na origem deste pedido.

O jornal recorda, porém, que há seis viagens do antigo presidente Lula da Silva que estão sob suspeita, por terem sido pagas pela construtora Odebrecht, entre elas a realizada a Portugal em 2013 para a apresentação do livro de José Sócrates.

A construtora brasileira confirmou na passada sexta-feira, 17 de Julho, ao Expresso que pagou a viagem de Lula da Silva a Portugal mas que esta nada teve a ver com a apresentação do livro do antigo primeiro-ministro. "Nós trouxemos o presidente Lula a Portugal, sim, mas foi para as comemorações dos 25 anos da Odebrecht em Portugal. Não teve nada a ver com o livro de Sócrates", garantiu ao Expresso Fábio Januário, presidente da Odebrecht Portugal.

Segundo Fábio Januário, o antigo presidente do Brasil foi convidado "para uma cerimónia pública da Odebrecht, onde aliás estavam muitos jornalistas portugueses, para falar das relações entre Portugal e Brasil".

No entanto, segundo a edição deste domingo, 19 de Julho, do jornal brasileiro O Globo, que cita telegramas diplomáticos trocados entre chefes de postos brasileiros no exterior e o Ministério das Relações Exteriores, entre 2011 e 2014, "as actividades do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor do grupo Odebrecht no exterior foram além da contratação para proferir palestras, contrariando o que o petista [do Partido dos Trabalhadores] e a construtora têm sustentado".

A movimentação do ex-presidente brasileiro em Portugal é relatada em dois telegramas: a 25 de Outubro de 2013, o embaixador brasileiro em Lisboa, Mario Vilalva, enviou um comunicado sobre a visita de Lula a Portugal, no qual o diplomata deixa claro que a visita do ex-presidente resultava do convite da Odebrecht, por ocasião dos 25 anos de presença da construtora brasileira em Portugal.

Menos de sete meses depois, num outro telegrama, numa análise sobre a privatização da Empresa Geral de Fomento (EGF), Vilalva notava que as empresas brasileiras Odebrecht e Solvi, em parceria com o grupo português Visabeira, demonstraram interesse no negócio, o que gerou simpatia dos formadores de opinião em Portugal, referindo "a acção directa de Lula em favor da Odebrecht".

"O ex-presidente também reforçou o interesse da Odebrecht pela EGF ao primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que reagiu positivamente ao pleito brasileiro", informou o diplomata, citado pelo jornal O Globo, que refere que o contacto a favor da construtora foi feito em privado.

Segundo o site do Instituto Lula, o ex-presidente encontrou-se com Passos Coelho no dia 24 de Abril, e teriam falado apenas da situação económica mundial e da Copa no Brasil.

 

Lula da Silva deu uma entrevista à televisão portuguesa, a propósito dos 40 anos da Revolução dos Cravos, onde defendeu uma maior participação de empresas brasileiras nas privatizações conduzidas em Portugal, sem citar nenhuma empresa.

Na ocasião do telegrama, a construtora brasileira era uma das sete que tinham manifestado oficialmente interesse na privatização da EGF, mas dois meses depois a Odebrecht acabou por não formalizar uma proposta.

Em resposta ao jornal O Globo, o Instituto Lula afirmou que "o ex-presidente não actuou em favor da Odebrecht, nem fez gestão a favor da empresa", referindo que Lula da Silva se limitou a comentar "o interesse da empresa brasileira pela empresa portuguesa (...) que, aliás, era público há muito tempo". 

Lula da Silva formalmente investigado por relações com Odebrecht

Desde 8 de Julho que o Ministério Público Federal está a investigar o ex-presidente brasileiro Lula da Silva, para aferir se houve tráfico de influência junto de políticos de outros países para que fossem atribuídos contratos à construtora Odebrecht.

De acordo com os jornais brasileiros, as obras investigadas teriam financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), o banco de fomento brasileiro. Os contratos em investigação foram formalizados entre 2011 e 2014 - já depois de Lula da Silva ter terminado o seu mandato de presidente - em particular no Panamá e Venezuela.

O Globo noticiou em Abril que a Odebrecht pagou uma viagem de Lula da Silva a três países: Cuba, República Dominicana e Estados Unidos da América. Esta viagem, realizada em 2013, foi confirmada pela Odebrecht que disse, então, não haver nada de ilegal nisso. Nessa viagem, Lula da Silva viajou com Alexandrino Alencar, director de relações institucionais da Odebrecht, detido no âmbito da operação Lava Jato, que investiga os contratos da Petrobras com grandes construtoras. Também detido nesse âmbito foi o presidente da própria construtora, Marcelo Odebrecht.

Já a Veja noticiou em Fevereiro deste ano que o sobrinho de Lula da Silva, Taiguara Rodrigues dos Santos, foi contratado pela Odebrecht para trabalhar na obra de ampliação e modernização da hidroeléctrica de Cambambe, em Angola. No mesmo ano, em 2012, a construtora conseguiu no BNDES um financiamento para realizar esse projecto em Angola. A Veja questiona: coincidência?




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