Américas Próximo presidente pode colocar Brasil no caminho certo ou aprofundar a crise

Próximo presidente pode colocar Brasil no caminho certo ou aprofundar a crise

Se nada for feito, o orçamento do Brasil vai estourar no próximo ano, quebrando a regra constitucional que limita o crescimento da despesa pública.
Bloomberg 29 de agosto de 2018 às 19:27

Para sobreviver à crise, os brasileiros tiveram de adaptar a sua alimentação. Um restaurante tradicional de rodízio da capital federal passou a oferecer desconto para os clientes que escolhem apenas um tipo de carne na refeição, enquanto um restaurante italiano de luxo começou a permitir o pagamento das refeições em prestações.

 

Perante a necessidade de se reinventar, os restaurantes estão a reduzir os preços pela primeira vez em 13 anos. "Os brasileiros tiveram que mudar os seus hábitos e ir a restaurantes mais baratos", disse Paulo Solmucci Júnior, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes. "Restaurantes tradicionais e importantes fecharam e muitos estão em risco. Estávamos optimistas este ano. Mas a economia decepcionou-nos."

 

Como as finanças públicas estão deterioradas devido à crise económica, o aperto de cinto é inevitável, independentemente de quem vença as eleições de Outubro, diz Raul Velloso, consultor económico e especialista em finanças públicas. "O próximo presidente estará sob pressão e, se não acertar, cai", disse Velloso numa entrevista. "Todos os candidatos sabem disso", afirmou.

 

Se nada for feito, o orçamento do país vai estourar no próximo ano, quebrando a regra constitucional que limita o crescimento da despesa pública, de acordo com projecções do governo preparadas para a Bloomberg News. Está em jogo o futuro da segunda maior economia da América e a credibilidade de 3,7 biliões de reais em dívidas do governo federal.

 

Como a maioria dos países, o Brasil não conseguiu equilibrar o seu orçamento, mas a recente crise expôs problemas estruturais perigosos que provocam gastos cada vez maiores e défices crescentes. Com mais de 90% de todo o orçamento composto por despesas obrigatórias, o governo não tem quase nenhum espaço de manobra.

 

Entre as medidas de austeridade contempladas está o congelamento dos aumentos do salário mínimo e o corte nas pensões de reforma que equivalem a 8,4% do PIB. Se o próximo governo não abordar o problema no primeiro semestre de 2019, corre o risco de perder a confiança do investidor desde o início, disse Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro e economista-chefe do Banco Safra. "Os mercados estão actualmente em compasso de espera, mas podem piorar, piorar muito."

 

Milhões de brasileiros já estão a lutar para sobreviver. Ticia Goes, de 25 anos, formada em biomedicina e comunicação, passou três anos a estudar no Chile. Agora, trabalha em part time num café de Brasília, porque os 1.100 reais por mês que receberia para trabalhar num laboratório não são suficientes para viver. "Temos que tentar melhorar o cenário económico e político", disse Goes. "Eu quero monitorizar os candidatos e escolher bem - aqueles que têm boas propostas".

 

Enquanto todos os principais candidatos reconhecem o desafio financeiro do país, poucos oferecem soluções realistas, de acordo com dois funcionários do Ministério da Fazenda que encontraram todos os seus assessores económicos em reuniões à porta fechada, projectadas para facilitar a transição após as eleições de Outubro.

 

Se um esquerdista como Ciro Gomes ou Fernando Haddad vencer, a moeda vai enfraquecer mais de 10% nos três meses seguintes, segundo quase três de quatro clientes inquiridos ??pelo Grupo Nomura. Quase metade espera mais do que um aumento de 300 pontos-base da taxa básica de juros até o final de 2019.

 

O PT de Haddad, que governou o país de 2003 a 2016, propõe revitalizar os bancos estatais e oferecer mais empréstimos baratos, o tipo de políticas que levaram a um alto endividamento e ao aumento dos défices. O partido também quer introduzir controlos de capital para reduzir as flutuações da moeda estrangeira.

 

Dilma Rousseff mudou de rumo para implementar austeridade após a sua reeleição como presidente em 2014 e sofreu um "impeachment" dois anos depois. O seu sucessor, o presidente Michel Temer, viu serem bloqueadas as reformas que enviou ao Congresso e que eram favoráveis ??ao mercado, depois de usar o seu capital político para salvar-se do seu próprio escândalo de corrupção.

 

No entanto, mesmo que os brasileiros escolham um líder austero que consiga lidar rapidamente com os excessos do Estado, o país não retomará o tipo de crescimento que desfrutou no auge do boom das matérias-primas há quase uma década. Os impostos, a burocracia e a falta de investimento pressionaram o potencial de crescimento da economia para apenas 2% ao ano, segundo Tony Volpon, ex-director do Banco Central do Brasil e actual economista-chefe do UBS Brasil.

 

"Não é o mesmo Brasil, e consertar o orçamento não é suficiente", disse Volpon. "Outras reformas são necessárias, mas duvido que o próximo governo tenha esse tipo de capital político."

 




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