Ásia Dinheiro dos mortos representa um novo desafio para os bancos japoneses

Dinheiro dos mortos representa um novo desafio para os bancos japoneses

Se há um desejo, há um caminho. É com isto que os bancos japoneses estão a contar enquanto tentam manter os 460 mil milhões de dólares deixados anualmente por clientes falecidos.
Dinheiro dos mortos representa um novo desafio para os bancos japoneses
reuters
Bloomberg 19 de maio de 2018 às 18:00

Mais de um milhão de pessoas morre todos os anos no Japão. Com isto, os bancos mis pequenos não perdem apenas clientes, mas também depósitos, uma vez que os herdeiros costumam levar o dinheiro para cidades maiores, onde os grandes bancos são mais fortes.

Os bancos regionais perdem aproximadamente 60% dos fundos que são deixados em herança, segundo uma estimativa do Instituto Fidelity Investor Education.

Cerca de um quarto da população japonesa tem mais de 65 anos. Instituições financeiras locais como o Mie Bank tentam conquistar a próxima geração de clientes e os seus depósitos, oferecendo o chamado fundo substituto testamental — um produto de herança que facilita a liberação de recursos quando o seu dono morre. A sua estruturação permite que o banco estabeleça um relacionamento com os herdeiros.

"Quando a sucessão ocorre através de falecimento de um cliente idoso, geralmente os filhos e filhas vivem em Tóquio ou ali perto, e tínhamos o problema da migração dos depósitos para a grande cidade", conta Kazuhito Wakiuchi, gerente do Mie Bank na parte oeste do país. O plano da instituição é vender estes fundos a partir de Julho, em parceria com o Mizuho Financial Group, o terceiro maior grupo bancário do Japão.

Os bancos começaram a vender estes fundos há uma década e mais de 150.000 estavam vigentes em Dezembro, de acordo com dados da associação japonesa do sector. A popularidade destes produtos aumentou porque ajudam os herdeiros a cobrir despesas imediatas, como o funeral. Os donos podem escolher entre deixar grandes montantes ou libertar os recursos gradualmente.

A actuação na área de heranças também ajuda os bancos a diminuir a dependência em relação a empréstimos, que estão com margens muito apertadas por causa dos juros baixíssimos, de acordo com a Fitch Ratings. Com a maior concorrência nos empréstimos, o órgão regulador do sector financeiro tem incentivado os bancos a procurar outras formas de manter um modelo de negócio sustentável.

"O negócio de sucessão é essencial para garantir a sobrevivência dos bancos regionais", afirmou Kaori Nishizawa, directora da Fitch em Tóquio.

O Instituto Fidelity Investor Education calcula que, anualmente, 50 biliões de ienes (cerca de 460 mil milhões de dólares) em activos financeiros são transferidos para sucessores no Japão. A expectativa é que a quantia aumente com o crescimento do número anual de mortes nas próximas duas décadas. Há grandes fortunas envolvidas, uma vez que o Japão é um dos países com mais milionários no mundo, com activos acumulados na ordem dos sete biliões de dólares, segundo a Capgemini.

Embora o trabalho de sucessão viabilize relacionamentos entre os bancos locais e os herdeiros dos clientes, não há garantia que os activos ficarão onde estão. Isto porque apenas um quinto dos bancos regionais tem licença para gerir estes fundos e muitos precisam de vender produtos de bancos maiores, que exigem que os beneficiários abram contas com eles.

O movimento de sucessão das próximas duas décadas deve retirar de regiões que não incluem Tóquio ou Osaka um total líquido de 40 biliões de ienes em activos financeiros de particulares, de acordo com a Sumitomo Mitsui Trust Holdings.

(Texto original: Japan’s Banks Want to Keep Hold of Dead Customers’ Savings)