Mundo Está a Arábia Saudita a mudar demasiado rápido?

Está a Arábia Saudita a mudar demasiado rápido?

Na última semana a Arábia Saudita marcou várias vezes presença nas notícias. Há mudanças que parecem estar a caminho num dos países mais tradicionais do mundo. O príncipe Mohammed bin Salman parece ser o rosto dessa mudança.
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Ana Laranjeiro 09 de janeiro de 2016 às 15:30

Passaram-se nove dias desde o início de 2016. E nestes nove dias, foram várias as ocasiões em que a Arábia Saudita esteve nos holofotes da imprensa internacional. Riade mandou executar 47 pessoas por terrorismo, incluindo o dignitário xiita Nimr Baqir al-Nim, considerado como um opositor da casa de Al-Saud. Estas execuções levaram a um corte de relações entre o reino saudita e o Irão. Mas não é apenas a escalada das tensões geopolíticas no Médio Oriente que coloca a Arábia Saudita nas notícias.

Esta semana o príncipe Mohammed bin Salman deu uma entrevista à revista Economist, onde indicava que a petrolífera estatal Aramco estava a estudar a possibilidade de vir a lançar uma oferta pública inicial (IPO, na sigla inglesa). Operação que estará integrada num pacote de reformas económicas a implementar pelo reino saudita. Essa possibilidade foi já, entretanto, confirmada pela petrolífera.

Mohammed bin Salman tem 30 anos de idade, é vice príncipe herdeiro e ministro da Defesa. É tido como o filho favorito do actual rei, Salman bin Abdul Aziz Al-Saud. E não teve uma educação ocidental, de acordo com a Economist. Num artigo de Novembro de 2015, o jornal inglês The Telegraph escrevia que "a ascensão do filho mais novo e favorito do rei, de 30 anos, para tornar-se o líder mais assertivo e visível da Arábia Saudita chocou as pessoas dentro e fora do reino". "Não é apenas a juventude do príncipe Mohammed bin Salman, ou o facto de até este ano [2015] ele ser pouco conhecido", apontava a publicação. "É a primeira vez desde que o fundador moderno do país, o rei Abdulaziz, morreu, que o poder está concentrado nas mãos de apenas um ramo da família". Já naquela altura, e de acordo com relato do jornal, que citava diplomatas, o príncipe falava da sua visão para o país daqui a décadas "como se pretendesse estar" no poder nessa altura.

Será pois Mohammed bin Salman "o motor" que estará a fazer com que a Arábia Saudita, "um dos países mais tradicionais do mundo onde a estrutura familiar e o patriarcado tribal diferem pouco desde há um século, esteja subitamente com pressa", refere a Bloomberg. "Foi feito mais na última semana que em muitos anos", acrescenta a agência de informação. 

Apesar de, aparentemente, ter pouca experiência no poder, os títulos que este príncipe saudita tem conferem-lhe poderes sobre o exército, a indústria petrolífera e outras áreas da economia. Para Allison Wood, analista da Control Risks, no Dubai, para o Médio Oriente e Norte de África, citada pela Bloomberg, "assistimos a uma consolidação quase sem precedentes do poder nas mãos de príncipe jovem". 

E qual é a razão de tantas movimentações num curto espaço de tempo? O primeiro motivo estará relacionado com a queda dos preços do petróleo, a principal fonte de rendimento do Reino Saudita (e que já levou inclusivamente a que tenham surgido notícias que davam conta que Riade estava a atrasar pagamentos a empresas internacionais). Além disso, os Estados Unidos podem ter alterado a sua percepção sobre a região e a agitação regional que atravessa o Médio Oriente está a fazer com a Arábia Saudita queira introduzir alterações nomeadamente económicas.

A Economist escreve que o príncipe "parece estar determinado em usar a queda dos preços do petróleo (…) para decretar reformas económicas radicais". "Isto começa na contenção orçamental", pode ler-se na revista. Neste sentido, o Orçamento apresentado em Dezembro apresenta cortes nos subsídios para a água, electricidade e combustíveis. A redução destes benefícios aplica-se aos grandes consumidores, incluindo a membros da família real, segundo a mesma fonte.

Os ministros têm de travar os gastos com carros, mobiliário e em outros projectos. Além disso, o Governo está a analisar as ajudas de custo com vista a poupar dinheiro. "Em breve, os sauditas vão pagar pela primeira vez um imposto de valor acrescentado de 5% sobre os [bens] não essenciais, um movimento coordenado com outros membros do Conselho de Cooperação do Golfo", escreve a publicação, acrescentado que o príncipe Mohammad acredita que será possível equilibrar o orçamento num prazo de cinco anos.

O responsável desenvolveu um plano de transformação, que será publicado no final de Janeiro, que mostrará a sua vontade em desenvolver alternativas aos petróleo e cortar drasticamente o montante que representa a massa salarial pública.

A ascensão do filho mais novo e favorito do rei, de 30 anos, para tornar-se o líder mais assertivo e visível da Arábia Saudita chocou as pessoas dentro e fora do reino.
The Telegraph, Novembro 2015



Perante este cenário de aparentes alterações, Eckart Woertz, investigador do Centro de Relações Internacionais, em Barcelona, citado pela Bloomberg, aponta que os "sauditas têm reputação de ser cautelosos, secretos". "Agora há alguns receios sobre decisões precipitadas", acrescentou.

Por sua vez, Mohammed al-Sabban, economista saudita e antigo conselheiro do ministério do Petróleo, refere que o filho mais novo do rei é "visto como a força motriz por trás das recentes decisões". O novo processo de decisão do reino, em que poderes foram retirados ao ministro das Finanças, que anteriormente atrasava ou bloqueava reformas, está mais afinado com as necessidades do país, defendeu ainda.

Estas alterações económicas, impulsionadas por um jovem príncipe, num país considerado tradicional, podem não ser bem acolhidas por todos. Crispin Hawes, director da Teneo Intelligence, citado pela agência de informação, defende que "as pessoas costumavam expressar a sua frustração sobre como as coisas não estavam a acontecer suficientemente rápido mas, ao mesmo tempo, estas mudanças radicais desconcertam as pessoas".

"Há uma atitude mais agressiva deste Governo sobre certas questões, o que criou muito mal-estar entre as pessoas que estavam habituadas a uma certa forma de fazer as coisas". 




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comentários mais recentes
Anónimo 10.01.2016

Pena serem desumanistas.

Anónimo 09.01.2016

guerra santa?

o islão tem que ser limpo dessa porcaria.

Isso e o fanatismo, têm que aprender a conviver com outros pontos de vista.

Anónimo 09.01.2016

Quando os paises desgracados como o nosso tinha de pagar o barril de petroleo a mais de100$,eles la compravam tudo ate as guerras para nao abalar o bom andamento do gasoso,hoje ele esta reduzido a mais de metade com tendencia de baixar mais,tem de prevalecer a lei do mais forte.

Anónimo 09.01.2016

ALÉM DISSO VÁRIOS ESPECIALISTAS DIZEM QUE CONTINUAM A APOIAR GRUPOS TERRORISTAS TIPO DAESH E AL QUAEDA.

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