Mundo Qual o impacto do fim das sanções ao Irão?

Qual o impacto do fim das sanções ao Irão?

O Irão está confiante com o fim das sanções. O mundo ocidental também. Mas há cautela à mistura. E uma queda nas bolsas do Médio Oriente e a descida dos preços do petróleo para valores de 2003.
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Alexandra Machado 18 de Janeiro de 2016 às 00:17

O levantamento das sanções ao Irão já é efectivo. O anúncio, no sábado, por parte da Agência Internacional de Energia Atómica de que Teerão cumprira o acordo assinado em Julho passado no que respeita ao desenvolvimento do seu programa nuclear abriu o país aos Estados Unidos e à União Europeia. Já este domingo, o aplauso nestas regiões foi unânime.

Mas se o aplauso é extensível a muitos países, são, no entanto, os mercados que penalizam o fim destas sanções. O petróleo atingiu, sexta-feira, o seu valor mais baixo em 12 anos, com as preocupações de que o Irão vá aumentar as exportações do "ouro negro" colocando mais pressão no que já é o excesso de oferta desta matéria-prima. Uma queda no mercado das "commodities" que se estenderam às acções, também impactadas pelo abrandamento da economia chinesa e depois da praça de Xangai ter entrado naquilo a que se designa de mercado urso, após dez sessões de grande volatilidade nas negociações bolsistas.


Um receio que já este fim-de-semana se estendeu às praças do Médio Oriente
. Com excepção da praça de Teerão, que na negociação de domingo subiu 0,9%, atingindo o valor mais elevado desde Agosto, depois de uma valorização de 2,1% no sábado.  Se em Teerão o momento é visto com optimismo, nos vizinhos o ambiente não foi tão favorável. A bolsa da Arábia Saudita caiu 5,4%, para o nível mais baixo desde Março de 2011. E em Abu Dhabi também o principal índice caiu para níveis de mercado urso. O GCC 200, um índice da Bloomberg que segue 200 das maiores companhias de seis nações do Golfo, está ao nível mais baixo de sete anos.

"O petróleo iraniano chegará ao mercado entre hoje [domingo] e amanhã [segunda]", explica à Bloomberg Nayal Khan, gestor do fundo Saudi Fransi Capital, da Arábia Saudita, acrescentando que "a recuperação do mercado vai depender se conseguimos que o petróleo regresse acima dos 30 dólares por barril".


O Irão é responsável por 10% das reservas mundiais de petróleo, a quarta maior e sendo o quinto membro mais relevante dos membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), e prepara-se para aumentar as suas exportações. O país tem como objectivo aumentar os seus fornecimentos em 500 mil barris por dia, declarou Amir Hossein Zamaninia, vice-ministro do petróleo responsável pelo comércio e relações internacionais, em entrevista, citada pela Bloomberg.

Teerão espera aumentar para mais meio milhão de barris nos próximos meses, atingindo 3,2 milhões de barris/dia. Actualmente a nação utiliza 1,8 milhões de barris de petróleo nas suas refinarias e durante o período de sanções as exportações de crude iraniano seguiam para a China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Turquia e Taiwan.

O que está, por isso, a levar à expectativa de que este impulso iraniano está a puxar o preço do petróleo para baixo. O ministro saudita do petróleo, Ali al-Naimi, acredita, no entanto, que os preços do crude vão subir. "Estou optimista quanto ao futuro, ao regresso da normalidade nos mercados petrolíferos, à melhoria dos preços e à cooperação entre os maiores produtores", declarou, citado pela Bloomberg. A Árabia Saudita é o principal país produtor da OPE, fornecendo 40% do petróleo a nível mundial. O país produziu 10,25 milhões de barris/dia em Dezembro.


Se hoje é o quinto maior na OPEP, outrora já ocupou a segunda posição. As exportações de petróleo iranianas caíram para 1,4 milhões de barris por dia em 2014, face a um valor de 2,6 milhões em 2011, um ano antes dos Estados Unidos e da União Europeia terem intensificados as sanções. Ainda assim não há certezas de quanto crude poderá o Irão trazer para o mercado internacional. Certo é que os países são hoje já livres de comprarem a quantidade que quiserem ao Irão. Há mesmo quem estime que o país poderá aumentar em 600 mil barris por dia nos próximos seis meses até atingir mais 800 mil barris dentro de um ano. Mas 12 analistas contactados pela Bloomberg apontam para um aumento médio de 400 mil barris/dia em seis meses.

Se o preço do petróleo está a infligir danos a algumas economias muito dependentes do petróleo, será, no entanto, precisamente essa matéria-prima que poderá levar a um crescimento da economia iraniana. Enquanto o Irão esteve sob o regime de sanções, outras nações do Golfo aproveitaram a matéria-prima, e os preços elevados que atingiram há poucos anos, para reforçarem as suas reservas e criarem fundos soberanos que foram comprando posições accionistas significativas em companhias como o Barclays ou a General Electric.

Mas até isso está a mudar. Os activos estrangeiros detidos pelo banco central da Arábia Saudita caíram 96 mil milhões de dólares nos primeiros 11 meses de 2015 para 628 mil milhões de dólares e o governo saudita viu-se, mesmo, obrigado a emitir obrigações pela primeira vez desde 2007 para financiar um défice orçamental de 15%. O país já admitiu vender parte da sua petrolífera Saudi Aramco.

Mais dinheiro para o Irão

O Irão pode mesmo, segundo a Bloomberg, garantir cinco vezes mais o valor arrecadado com as vendas de petróleo. Até porque poderá ter acesso a essas mesmas receitas, já que no âmbito do acordo alcançado só estava a receber parte desses montantes: 700 milhões de dólares por mês, ficando o resto congelado em bancos internacionais. Só que agora vai conseguir receber 2,35 mil milhões de dólares mensalmente, de acordo com os cálculos da Bloomberg. E também terá acesso aos 100 mil milhões de dólares que estavam congelados.

É o que justifica a declaração do presidente iraniano, Hassan Rouhani, este domingo de que os recursos financeiros do Irão vão "aumentar significativamente", acrescentando ser agora da responsabilidade do Irão "aproveitar a oportunidade para um salto económico". E até traçou como objectivo a obtenção de 30 mil milhões de dólares de investimento directo estrangeiro nos próximos cinco anos. A Charlemangne Capital aponta para a possibilidade de a economia iraniana crescer entre 6 a 8% ao ano no futuro próximo.

Já Rouhani estimou um crescimento de 5% no ano fiscal que se inicia em Março.

O presidente iraniano, Hassan Rouhani, garantiu que cerca de mil linhas de crédito foram abertas para os bancos depois de levantamento de sanções.
O presidente iraniano, Hassan Rouhani, garantiu que cerca de mil linhas de crédito foram abertas para os bancos depois de levantamento de sanções.
Reuters



A Europa aplaude. A indústria alemã, por exemplo, espera duplicar as exportações para o Irão. O ministro da Economia, Sigmar Gabriel, até já marcou uma ida a Teerão para o próximo mês de Maio. Antes da imposição das sanções, a Alemanha era o maior parceiro comercial do Irão, tendo os seus fornecimentos sido preenchidos por chineses, coreanos e vizinhos do Médio oriente. Mas agora a Câmara do Comércio e Indústria alemã já antecipa uma duplicação das vendas para o Irão para 5 mil milhões de euros.


Teerão já anunciou, aliás, planos para comprar 114 aviões à franco-alemã Airbus, num negócio avaliado, a preços de catálogo, em 10 mil milhões de euros. Também na semana passada a Siemens assinou acordos para trabalhar no projecto de infra-estruturas ferroviárias iranianas enquanto a Daimler já fez saber que a sua divisão comercial de veículos comerciais vai regressar ao Irão.


E em Portugal, logo em Julho, quando foi assinado o acordo histórico, muitas empresas pediram informação a organizações de como explorar aquele mercado.

 

Se poderá ser uma bonança para as empresas europeias, ainda faltará para chegar às norte-americanas.

EUA continuam com sanções

O levantamento de sanções conhecido no sábado não abrange todas as restrições. Os Estados Unidos não apenas mantêm algumas em vigor, como acabaram por anunciar este domingo novas sanções abrangendo 11 entidades e cidadãos, que estão ligados ao programa militar iraniano. Os Estados Unidos impedem que estas entidades utilizem o sistema bancário norte-americano. O que aconteceu no mesmo dia que Barack Obama fez uma declaração, apelidando de vitória o que se tinha conseguido. Uma vitória, acrescentou, que não põe de lado as diferenças entre as duas nações, que desde a revolução iraniana em 1979 jogavam em campos opostos.

Barack Obama quis demonstrar que a força ainda está do seu lado. Ainda que tenha alcançado um acordo – à parte daquele conseguido em Julho - que abrangeu, por outro lado, a libertação de quatro  norte-americanos que estavam em Teerão prisioneiros, entre eles o jornalista do Washington Post, Jason Rezaian, que Obama descreveu como "corajoso". No domingo três chegaram à Suíça.


Do mesmo modo, os Estados Unidos comprometeram-se a retirar as queixas ou a perdoar sete iranianos acusados ou considerados culpados de violação às sanções. A isto Obama chamou de "gesto humanitário recíproco", na declaração ao país que ineditamente proferiu a um domingo.

O Irão prometeu, ainda, cooperar com os Estados Unidos na localização de Robert Levinson, um ex-agente  da CIA que desapareceu no Irão em 2007. E os Estados Unidos vão retirar os pedidos de detecção internacional a mais 14 iranianos em fuga. Foi ainda colocado ponto final numa disputa em Haia entre os dois países, o que permitiu ao Irão receber 400 milhões de dólares de fundos que estavam congelados desde 1981 e mais 1,3 mil milhões de dólares em juros.

Um acordo ainda com muitas sanções à mistura. E sanções que penalizam a indústria norte-americana. Ainda que a Boeing esteja autorizada a fazer negócios com Teerão. Mas a Airbus parece ir à frente nesta corrida.

Certo é que se abriu uma economia de 406 mil milhões de dólares e 77 milhões de pessoas. Um "novo capítulo" ou uma "página de ouro" apelidou o presidente iraniano este domingo. Obama apelidou de "um bom dia" e instou os iranianos a laçarem novas ligações com o mundo. Mas apontou o dedo ao que chamou de comportamento desestabilizador do Irão na região, citando as violações dos direitos humanos ou o programa balístico de Teerão, que mantém sob embargo a venda de armas convencionais e mísseis até 2020 e 2030, respectivamente. Travou o desenvolvimento da bomba atómica, mas mantém o conhecimento… lembram os analistas internacionais.

Para quando um McDonald’s


Dada a manutenção, e o recente reforço até, de algumas sanções comerciais dos Estados Unidos, para as empresas deste país o fim do embargo poderá mudar muito pouco.

Em Teerão, segundo conta a Reuters, o dia foi de ambiguidade. Enquanto os políticos empolavam o contentamento, os cidadãos mantinham cautelas sobre o impacto deste levantamento. "Este problema tem tantos problemas que vai demorar anos a resolvê-los", declarou à Reuters, um aposentado de 63 anos, Mohammad-Reza Hosseini. É um país que vive com as sanções há muitos anos. E que se interroga agora: o McDonald’s vai entrar no Irão? Segundo a BBC, a candidatura para ser o franchisado da cadeia no Irão está disponível. Mas no site internacional revela-se que não há um calendário previsto para a entrada no país. Mas deixa a porta aberta para haver "M" espelhados também pelo Irão.

Mas os desejos por marcas e parceiros norte-americanos não se ficam por aqui. Em Setembro, a Bloomberg entrevistou o empreendedor multimilionário e maior empresário na área dos centros comerciais, Masoud Sarrami, que para o seu projecto do centro Isfahan acreditava poder contar com parceria americana para a construção de um hotel.

 

E também, numa outra reportagem da Bloomberg, revelava-se a importância do levantamento das sanções para a indústria de tapetes persa. Sem poder exportar para os principais países compradores, como Itália ou França, a indústria definhava.

 

Poderá isso, agora, mudar? As palavras de optimismo e confiança não são, no entanto, seguida por todos. Há quem prefira a cautela. "As grandes instituições financeiras, as grandes companhias de energia e as grandes industriais têm de ter muita, muita cautela", garante Mark Dubowitz, director executivo da Fundação para a Defesa das Democracias, sediada em Washington, deixando a nota mais sombria: "terão de se questionar: vale a pena o risco?".

Uma coisa parece certa nas análises internacionais: esta aproximação com os Estados Unidos e o fim das sanções europeias colocam o Irão como potência regional, um estatuto que estava com a Arábia Saudita. Não é, pois, de estranhar o intensificar das tensões entre os dois países, liderados por ramos distintos do islamismo: o Irão é governado por xiitas, a Arábia por sunitas. E enquanto a confiança iraniana parece estar a crescer – e Rouhani ganha pontos até ao nível interno - , em Riade o poder parece na defensiva e até, diz a Reuters, imprevisível.





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