Política Monetária O que dizem os analistas dos novos estímulos do BCE?

O que dizem os analistas dos novos estímulos do BCE?

Os analistas acreditam que o pacote de estímulos vai beneficiar o sector da banca, com o corte dos juros a compensar a penalização extra sobre o dinheiro parqueado em Frankfurt.
Rita Faria 11 de Março de 2016 às 19:39

Depois de ter desiludido em Dezembro, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, surpreendeu os mercados na quinta-feira, com o anúncio de um pacote de estímulos que superou todas as expectativas: um corte da taxa directora para 0%, da taxa de depósitos para -0,4% e um reforço do programa de compra de activos, que subiu de 60 para 80 mil milhões de euros mensais.

A reacção dos mercados foi imediata: as bolsas europeias subiram e o euro chegou a afundar 1,61%. No entanto, a tendência inverteu-se rapidamente, com os investidores a focarem-se na indicação de Draghi de que o BCE não deverá ir mais longe no corte dos juros. O resultado? As bolsas europeias encerraram com quedas superiores a 1%.

Esta sexta-feira, após digerirem os anúncios de Draghi, os índices europeus voltaram a "aplaudir" os novos estímulos com valorizações superiores a 2%. A banca foi o sector mais animado, com o índice que reúne as maiores instituições financeiras da Europa a escalar quase 5%.

A maioria dos analistas considera que este sector é um dos mais beneficiados com o novo pacote de medidas do BCE.

Goldman Sachs: Medidas do BCE terão impacto positivo nas acções europeias

Os analistas do Goldman Sachs acreditam que as medidas de estímulo anunciadas por Mario Draghi esta quinta-feira terão um impacto positivo nos activos mais arriscados, em geral, e nas acções europeias, em particular. "Ainda que as taxas negativas sejam um desafio para os bancos, acreditamos que o que é bom para a economia é bom para o sector financeiro", refere o banco de investimento numa nota de análise.

"O BCE mostrou que está determinado a canalizar as baixas taxas de juro para a economia real, e ao mesmo tempo a proteger a rentabilidade do sector bancário, pagando aos bancos para emprestarem", concretiza Alexis Deladerrière, gestor de portefólio do Goldman Sachs.

Por outro lado, os analistas consideram que os anúncios foram "importantes" porque sinalizam que o crescimento do crédito é o novo mecanismo de transmissão para a economia. "Estamos cépticos em relação ao seu impacto sobre a inflação, embora pensemos que o crescimento poderá beneficiar de um melhor fluxo de crédito", sublinha a nota de análise.

Berenberg: Novos estímulos "são boas notícias para os bancos"

Holger Schmielding, economista-chefe do banco alemão Berenberg, considera que o BCE superou as expectativas com o seu pacote abrangente de estímulos, projectados para aliviar as preocupações "muito exageradas" em torno do sistema bancário.

O economista-chefe do Berenberg defende que a autoridade "mais do que compensou" o aumento da penalização sobre os bancos relativamente ao dinheiro parqueado em Frankfurt – um aspecto que "irritou" os mercados durante um bocado.

"Foram boas notícias para os bancos. O BCE mais do que compensou a pequena penalização extra sobre os depósitos através do corte da taxa de referência, do aumento das compras mensais de activos e das muito generosas injecções de liquidez de longo prazo", refere Holger Schmielding. "O BCE mostrou que está disponível para fazer tudo o que for necessário para prevenir uma nova crise bancária e para pôr a economia a crescer novamente". 

Deutsche Bank: Uma volta de autocaravana que se tornou numa viagem à Disneyworld

"Suponho que, se estivesse a tentar explicar a uma criança a reunião do BCE de ontem, seria algo assim. Imagina que estavas a contar fazer uma viagem de autocaravana pelo país, durante as férias escolares. Mas em vez disso, voas em primeira classe para a Disneyworld, visitas o cockpit durante o caminho e ficas num hotel feito de chocolate", resume Jim Reid, director do departamento de estratégia de crédito do Deutsche Bank. "Se o mercado fosse essa mesma criança, a sua reacção de ontem foi: não recebo dinheiro ilimitado? E onde vamos nas nossas férias de verão?".

"Dado que Draghi superou as expectativas em muitas das medidas, é difícil imaginar qual seria a reacção do mercado se ele tivesse ficado aquém, e agarrado à viagem de caravana", conclui.

Saxo Bank: BCE está a injectar uma grande quantidade de dinheiro no sistema

 

Para o Saxo Bank, apesar de Draghi ter cometido o erro de sugerir que o BCE não poderá ir muito mais longe em matéria de estímulos, "os movimentos de ontem foram muito extremados".

 

"Mas, na verdade, o BCE superou as expectativas e está a injectar uma grande quantidade de dinheiro no sistema. Há alguns anos, este anúncio teria marcado o início de uma recuperação significativa, mas agora parece haver uma fadiga generalizada em relação à política monetária", constata Teis Knuthsen, director de investimento da unidade de banca privada do Saxo Bank, na Dinamarca.  

Haitong: Anúncios de Draghi são positivos para os bancos no mercado ibérico

Os analistas do Haitong consideram que Mario Draghi apresentou um conjunto de estímulos mais robusto do que o previsto e que, apesar do novo corte na taxa de depósitos, os empréstimos com taxas negativas são positivos para a banca.

As medidas são "positivas para os bancos ibéricos", diz o Haitong numa nota publicada esta sexta-feira, 11 de Março. "As decisões do BCE excederam as nossas perspectivas e o consenso dos mercados, onde era esperado apenas um corte na taxa de depósitos e novas medidas qualitativas para ajudar o programa de compra de activos".

Mas Carlos Cobo e Juan Carlos Calvo explicam que o benefício para os bancos está noutra medida. "Apesar de ter cortado a taxa de depósitos em 10 pontos base para -0,40%, o BCE surpreendeu com taxas de juro potencialmente negativas nos novos TLTRO [empréstimos de longo prazo à banca condicionados ao financiamento da economia]", defendem os especialistas. É que, explicam, "isto deverá contrabalançar parte do efeito que as taxas de mercado negativas têm nos ganhos dos bancos com juros".

O Haitong defende que, se os bancos do mercado ibérico utilizarem os novos TLTRO para refinanciar os antigos, "isso poderá representar um impacto positivo de 2,5% no ganho líquido com juros". Além disso, apontam Carlos Cobo e Juan Carlos Calvo, "os bancos poderão também beneficiar de uma queda generalizada nos próprios custos de financiamento, resultante das novas medidas de estímulo".




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comentários mais recentes
FDP 12.03.2016

"pacote de estímulos vai beneficiar o sector da banca"é sempre para os mesmos rotos ! o Constancio está a fazer mais do mesmo !

Criador de Touros 12.03.2016

Bem, quanto a pessimismos, de facto um dia todos iremos morrer e ninguém escapará...Se este governo de esquerda não estragar, isto aos poucos poderá ir...

Anónimo 12.03.2016

As medidas de draghi estao a originar entre outras isto:portugal vai chegar ao ponto de estar mais terrivelmente incapacitado de pagar a divida sem juros do que o momento actual.O draghi nao esta a criar alternativas aos grandes devedores,pelo contrario vicia-os mais.

Criador de Touros 11.03.2016

Estas medidas do BCE são boas, pois permitem aos bancos maior flexibilidade nas relações com os clientes, sendo que essa flexibilidade se reflectirá positivamente na carteira dos clientes e nas contas dos bancos. A capacidade de manobra que os bancos passarão a ter será muito maior e tal reflectir-se-á não só no consumo, velocidade de circulação de moeda e preços, assunto caro ao BCE, mas também no relançar do investimento e na consolidação das contas dos bancos. Assistiremos a partir de agora na UE a uma recuperação idêntica à que aconteceu nos EUA a seguir às medidas da Reserva Federal em 2008.

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