Política 2005: Sócrates quebra o “mito” político – e outros inéditos

2005: Sócrates quebra o “mito” político – e outros inéditos

A 20 de Fevereiro, o “Tony Blair português” dava ao PS o que nem Mário Soares nem António Guterres tinham conseguido: uma maioria absoluta. O legado político acabou aprisionado pela troika e pela justiça.
2005: Sócrates quebra o “mito” político – e outros inéditos
Miguel Baltazar
António Larguesa 30 de maio de 2017 às 21:00
O Tony Blair português. Na noite em que José Sócrates chegou a São Bento, Eduardo Catroga esperava que, "tal como o líder socialista inglês foi o seguidor das reformas da senhora Thatcher, Sócrates [fosse] o continuador reformista da obra de Cavaco, que foi interrompida e [precisava] de ser reatada". Doze anos depois, o ex-ministro das Finanças justifica ao Negócios que essa esperança assentava no facto de ser encarado como "um socialista dos tempos modernos, que percebia as exigências da globalização, da economia competitiva e do euro".

O ano de 2005 arrancou com o governo PSD/CDS demissionário, um Parlamento com maioria de direita em dissolução e o país à espera de eleições antecipadas. Na mensagem de Ano Novo, o Presidente da República dizia ser "preciso restaurar a estabilidade política" depois de uma "sucessão imprevista de crises governamentais" durante o atribulado mandato de Santana Lopes, que Jorge Sampaio decidiu encurtar. E dessa ida às urnas a 20 de Fevereiro resultou não só uma completa mudança de cores e protagonistas no poder, como uma vitória histórica para o PS.

Sem o "carisma" de Mário Soares, o "prestígio internacional" de António Vitorino ou a "experiência" de António Guterres, como adjectivava então o jornal espanhol "El País", José Sócrates angariou a maior vitória de sempre para os socialistas, com 45% dos votos e um número de deputados que ainda hoje é recorde no partido. E cumpriu o adágio de que à terceira é mesmo de vez, como gritou das janelas do Largo do Rato na noite da apoteose: "Caiu o mito de que só a direita poderia ambicionar uma maioria absoluta".

Só as regiões de Leiria e da Madeira não ficaram coloridas de rosa no mapa desta esmagadora vitória, que só encontra comparação nas de Cavaco Silva em 1987 e 1991. O PSD teve quase menos um milhão de votos do que o PS e a direita somou, também de forma inédita, menos de 36%. Santana ainda atrasou a saída, Paulo Portas demitiu-se naquela noite ao anunciar (ir)revogavelmente que "terminou o ciclo político" na presidência do CDS-PP.

O recém-eleito primeiro-ministro falava numa "nova maioria e nova esperança". Manuel Pinho, que coordenara o programa eleitoral e acabaria ministro, antecipava que "a maioria absoluta [iria] facilitar a tomada de decisões na área económica" e prometia "um discurso pela positiva". No entanto, a comissão independente criada para apurar o valor do défice, liderada pelo então governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, antecipou um desequilíbrio de 6,8% no final desse ano e  justificou a quebra da primeira grande promessa eleitoral: não aumentar os impostos. A subida do IVA de 19% para 21% foi uma das medidas para travar a derrapagem nas contas públicas, adoptadas pelo ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, que não durou mais de quatro meses no cargo e foi substituído logo em Julho por Fernando Teixeira dos Santos.

Do brilho à bancarrota
Com maioria absoluta e António Costa como número dois, o  arranque do Executivo ficou marcado pelo desafio a vários lóbis e corporações. Por exemplo, alguns medicamentos passaram a ser vendidos fora das farmácias, reduziu as férias judiciais e alterou o modelo de avaliação dos professores. Entre as marcas associadas ao primeiro mandato de Sócrates ficaram a reforma da Segurança Social, o Simplex, o computador Magalhães, o Parque Escolar, o investimento na ciência, o complemento solidário para idosos, a assinatura do Tratado de Lisboa, as energias renováveis, o plano de privatizações ou as grandes obras públicas, como o TGV e o novo aeroporto.

O rebentamento das crises financeira e das dívidas soberanas ajudou a substituir o brilho pelo descalabro na governação. Ainda consegue a reeleição em 2009 (maioria relativa), mas o défice dispara para os dois dígitos, os juros tornam-se insustentáveis e acaba engolido pela austeridade. Ao quarto plano (PEC IV), é travado pela oposição, demite-se e pede finalmente ajuda externa. "Olhando para trás, o primeiro mandato foi relativamente positivo, mas depois entrou numa deriva despesista que foi um desastre completo. Bastava ter levado o país à falência para o legado ser altamente negativo", resume Catroga, que acabou a negociar com a troika em nome do PSD, em 2011.

O rótulo de "menino de ouro do PS", colado pela biógrafa Eduarda Maio, rapidamente deu lugar ao de "animal feroz", que o país já conhecia e Cavaco eterniza no livro "Quinta-feira e outros dias", ao descrever as repetidas exaltações do governante nas 188 reuniões que tiveram – sobretudo visando "personalidades da oposição, jornalismo, sindicatos ou justiça". Envolvido em inúmeros casos políticos e judiciais – da licenciatura e do fim do telejornal incómodo da TVI, ao Freeport, Face Oculta, Taguspark ou Monte Branco –, algumas das suspeitas avançaram na investigação e envolveram Sócrates noutro evento inédito: a prisão de um ex-primeiro-ministro, no final de 2014.



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