Política Cavaco Silva condecora Sousa Lara, o ex-governante que vetou livro de Saramago

Cavaco Silva condecora Sousa Lara, o ex-governante que vetou livro de Saramago

O Presidente da República vai condecorar esta quinta-feira Sousa Lara, o ex-subsecretário de Estado da Cultura que vetou o livro de José Saramago. Sousa Lara será agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique.
Cavaco Silva condecora Sousa Lara, o ex-governante que vetou livro de Saramago
Bruno Simão
David Santiago 18 de fevereiro de 2016 às 14:45

António de Albuquerque de Sousa Lara vai ser condecorado esta quinta-feira, 18 de Fevereiro, pelo Presidente da República, Cavaco Silva. O professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) será agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique, destinada a "quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no país e no estrangeiro".

 

Sousa Lara foi governante do terceiro Executivo chefiado por Cavaco Silva, tendo sido subsecretário de Estado da Cultura do XI Governo Constitucional, entre 1991 e 1992. Nessa altura era Pedro Santana Lopes, actual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o secretário de Estado da Cultura.

 

Todavia, o período enquanto governante Sousa Lara ficou marcado pela polémica em torno do veto ao livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo", de José Saramago. Em 1992, o agora professor do ISCSP impediu a candidatura desta obra de Saramago ao Prémio Literário Europeu considerando que o livro "não representa Portugal".

 

Durante um acalorado debate na Assembleia da República, em Abril de 1992, Sousa Lara defenderia a sua posição sustentando que "a obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os".

 

Nessa altura, aquele que viria a ser consagrado, em 1998, com o Prémio Nobel da Literatura acusou Sousa Lara e o então primeiro-ministro, Cavaco Silva, de "censura". Considerando que houvera um boicote à sua obra, Saramago decide viver permanentemente, com a sua mulher Pilar del Río, na ilha espanhola de Lanzarote.

 

Em entrevista ao Público publicada a 10 de Maio de 1992, Saramago dizia estar "triste e indignado" com a decisão do Governo, dizendo-se também "estupefacto" e acusando Sousa Lara de o ter censurado pela "terceira vez".

 

António de Sousa Lara não foi o único a fazer uma leitura crítica de "O Evangelho segundo Jesus Cristo". Também o arcebispo de Braga de então, D. Eurico Dias Nogueira, referia-se a um livro que retrata "uma vida delirante de Cristo". Mas apesar do respaldo do Governo e de alguns sectores mais conservadores da sociedade portuguesa, Sousa Lara viria a demitir-se na sequência desta polémica.

 

Já em Abril de 2004, o Estado português e José Saramago fariam as "pazes" na sequência de um almoço, em São Bento, entre o primeiro-ministro Durão Barroso e o já vencedor do Nobel da Literatura. Dias antes do repasto, Barroso havia mesmo condenado o processo político levado a cabo pelo Governo de que fazia parte, criticando a discriminação feita a Saramago devido às suas escolhas e opiniões pessoais.

 

Tréguas que não foram bem recebidas por Sousa Lara que em declarações à TSF insistiu na crítica a uma obra que desconsiderou os valores tradicionais cristãos. "Se tivesse escrito bem sobre Cristo, ficava-lhes bem, agora aquela obra sobre Jesus Cristo não lhes fica bem, com certeza", explicou à TSF numa crítica à decisão do Executivo liderado por Barroso.

 

"Se o senhor Saramago fica contente e isto ajuda a enterrar os machados de guerra ou se é útil para alguma coisa, por mim não se passa nada. Não sou a favor do pântano", afirmou Sousa Lara que garantia não haver motivos para Durão Barroso, que fazia parte do Governo enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, "se sentir mal por uma decisão com a qual nada teve que ver".

Com um longo percurso académico e várias obras publicadas, Sousa Lara foi também deputado. Primeiro como parlamentar da Aliança Democrática na II legislatura, enquanto membro do Partido Popular Monárquico (PPM), e já depois de aderir ao PSD, foi deputado social-democrata a partir de 1987.

Em final de mandato, com Marcelo Rebelo de Sousa a assumir funções presidenciais a 9 de Março, Cavaco Silva tem concentrado parte da sua acção na atribuição de condecorações. Ainda na semana passada foram agraciados oito ex-ministros pelos serviços prestados ao país. Entre eles estava também Luís Campos e Cunha, que foi durante quatro meses ministro das Finanças no primeiro Executivo liderado por José Sócrates.

(Notícia corrigida às 16:35, onde constava "2014" passou a estar "2004")




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mais votado Rekorbp Há 1 semana

Esperemos que este Sousa Lara não ande a recrutar homens bomba ou a preparar uma grande queima de livros no qual incluirá toda a obra do Saramago nessa fogueira. E temos mais um funcionário público a receber mais uma medalha de outro funcionário público por um trabalho pelo qual foi muito bem pago mas muito mal feito.Gostaria de saber de onde virá o dinheiro que irá pagar as medalhas e toda essa festa de luxo completamente despropositada.

comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

O Saramago ficará na história de Portugal como tende recebido o mais alto prémio internacional
Quem proibe o acesso à palavra escrita é fascista e fascizante e é o que estes sr.es são.
estes tipos para bem da humanidade convém que desapareçam...

asdf Há 1 semana

Estão todos muito enganados: então não foi Cavaco que nomeou o Costa PM? Afinal, Cavaco é um perigoso esquerdista.

Anónimo Há 1 semana


Aguentemos firme já só faltam 20 dias para este senhor passar para o arquivo do esquecimento. Foi muito difícil mas finalmente chegaremos lá.

Desanimado Há 1 semana

Penso que as finanças em vez de sortearem um Audi pelos contribuintes deviam sortear uma condecoração dada pelo presidente Cavaco, o estado poupava dinheiro e o critério para a atribuição das condecorações era o mesmo. Será que Cavaco compra as medalhas em saldo?

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