Saúde Leal da Costa: Portugal deve investir no envelhecimento com qualidade de vida

Leal da Costa: Portugal deve investir no envelhecimento com qualidade de vida

O antigo secretário de Estado da Saúde alerta que é preciso parar de evitar a discussão em torno do financiamento do sector. Além disso, Portugal deve investir no aumento da qualidade a par com o crescimento da esperança média de vida.
Leal da Costa: Portugal deve investir no envelhecimento com qualidade de vida
Bruno Simão/Negócios
Liliana Borges 19 de fevereiro de 2016 às 00:11

Portugal deve investir no envelhecimento com qualidade de vida e repensar o sistema de financiamento da Saúde. Esta foi uma das análises do antigo secretário de Estado da Saúde, Fernando Leal da Costa [na foto], esta quinta-feira, 18 de Fevereiro, no ciclo de conferências "Economia Viva", num painel que contou com a presença da pediatra Maria do Céu Machado, de Jorge Simões, presidente da Entidade Reguladora de Saúde, e do economista Pedro Pita Barros. O encerramento do ciclo de conferências contou com a presença do ministro das Finanças, Mário Centeno.

Leal da Costa, que se descreveu como "o ministro com o período mais curto em exercício, tendo porventura sido o secretário de Estado com o período mais longo" [foi ministro da Saúde entre 30 de Outubro de 2015 e 26 de Novembro de 2015, até à queda do Governo PSD/CDS], defende a gratuidade dos cuidados de saúde, excepto dos serviços de urgência, recordando, no entanto, que em 2011 defendeu que o aumento das taxas moderadoras "deveria ter sido maior".

"Felizmente para nós, portugueses, ao contrário do que se passa em muitos outros países do Ocidente, existe um consenso generalizado, quer entre cidadãos, quer em partidos políticos, acerca da aceitação sem discussão do que está escrito no artigo 64º da Constituição", notou o antigo governante.

De acordo com o antigo secretário de Estado, os grandes desafios no futuro da economia da Saúde correspondem a "saber como vamos ou não estar preparados para responder aos novos desígnios tecnológicos e aos preços crescentes da tecnologia, que são hoje o ‘drive’ de crescimento da despesa na saúde", bem como ao número "cada vez mais crescente de pessoas a precisarem de cuidados de saúde".

No entanto, apesar do registo do aumento da esperança média de vida, Fernando Leal da Costa alertou: "não temos uma esperança média de vida com qualidade". "É uma área que temos de trabalhar", acrescentou.

"Há uma discussão que vai ter de ser feita, quer queiramos quer não: saber se o nosso modelo de financiamento, estritamente baseado em impostos é ou não sustentável em função dos investimentos necessários. Acho que em Portugal se tem evitado muito esta discussão", analisou o médico.

Para Pedro Pita Barros "o desafio de envelhecimento é de organização do Serviço Nacional de Saúde e não de despesa do mesmo". "O nosso problema não vai ser financeiro, mas organizacional", considera o economista.

Também Jorge Simões, antigo administrador hospitalar, destacou que os problemas "não são portugueses" e apontou a dificuldade de "lidar com a inovação tecnológica". O presidente da Entidade Reguladora de Saúde lamenta que a prevenção tenha poucos aliados. Pelo contrário, "a doença tem muitos, a indústria farmacêutica, o poder politico, que consegue abrir hospitais".

Já Maria do Céu Machado sublinhou a importância dos cuidados de saúde primários enquanto filtro, uma vez que "os cuidados hospitalares são mais caros e como vemos situações mais complexas em hospitais temos tendência a pedir mais exames". "As situações mais simples saem mais caras", conclui, considerando que o dever de cuidar da saúde depende da literacia da população".

Além disso,"há um grupo que tem saúde muito boa e há outro grupo que não tem praticamente acesso nos cuidados à saúde", afirmou. A pediatra e antiga alta comissária para a Saúde sublinhou as vantagens económicas da melhoria dos cuidados de saúde. "Quando a esperança média de vida à nascença aumenta em cinco anos o PIB aumenta 0,7%."

Leal da Costa questionou a eficácia de resposta da Linha de Saúde 24 face a um possível aumento do fluxo de chamadas, prevendo um "maior atraso na procura de cuidados e desigualdade entre os que conseguiram a chamada e os que não conseguiram", comentando as medidas previstas no Orçamento do Estado que garantem um diminuição generalizada das taxas moderadoras e isenção do pagamento de serviços aos utentes referenciados pela Linha de Saúde.


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