Empresas 2013: As últimas grandes privatizações da era da troika

2013: As últimas grandes privatizações da era da troika

A privatização mais valiosa do tempo da troika ficou fechada há quatro anos, com a francesa Vinci a ficar com a ANA-Aeroportos. A saída do Estado da EDP também aconteceu em 2013.
2013: As últimas grandes privatizações da era da troika
As privatizações concluídas em 2013 geraram mais de seis mil milhões de euros para os cofres do Estado português.
Bruno Colaço
O ano de 2013 ficou marcado pela conclusão das duas maiores privatizações do tempo da troika no país.

A privatização da ANA - Aeroportos de Portugal, vendida à francesa Vinci, foi decidida em finais de 2012, mas só ficou fechada em 2013, com o pagamento da totalidade dos 3.080 milhões de euros ao Estado. O valor do negócio superou o da venda da fatia estatal de 25,5% na EDP que ficou fechada por um montante total de 3.056 milhões de euros no ano de 2013, altura em que a Parpública alienou os últimos 4,144% da eléctrica. Nessa altura já a China Three Gorges tinha assegurado 21,35%.

No processo de venda da ANA, as quatro propostas recebidas pela gestora dos aeroportos nacionais permitiram que o encaixe final superasse as estimativas do Governo. E o sucesso conseguido atenuou então o fracasso da privatização da TAP, que tinha apenas recebido uma única proposta de Germán Efromovich.

Com a alienação da ANA à Vinci ficaram definidas as condições em que o país avançaria para a construção de um novo aeroporto de Lisboa, que passavam por se atingir na Portela um conjunto de metas de capacidade, entre os quais 22 milhões de passageiros. A barreira foi ultrapassada em 2016 e este ano as perspectivas são para que se chegue aos 25 milhões. Se o grupo francês já vinha pressionando o Executivo para avançar com uma solução para o reforço da capacidade aeroportuária na capital, o processo só teve desenvolvimentos este ano com a assinatura, em Fevereiro, de um memorando de entendimento para o futuro aeroporto complementar do Montijo.

Ao contrário da ANA, a privatização da TAP teve de esperar. Cancelada a venda da companhia aérea ao empresário colombiano, que adquiriu a nacionalidade polaca e concorria sozinho, o Executivo de Passos Coelho desencadeou contactos para conseguir vender a transportadora, assumindo em 2013 vontade de reiniciar o processo nesse ano. O que não aconteceu.

A privatização da TAP acabou por ser relançada apenas em 2015, cabendo a vitória à Atlantic Gateway, consórcio que reunia o português Humberto Pedrosa e o norte-americano David Neeleman. Um processo que ainda não chegou ao fim. O resultado das eleições de 2015, com a chegada de António Costa ao Governo, ditou mudanças na operação. O Executivo quis renegociar uma reversão parcial com os privados, que tinham ganho a privatização de 61% da empresa em 2015, pagando 10 milhões pelas acções e injectando imediatamente dinheiro na companhia. Todos os passos para a conclusão deste acordo, que vai permitir ao Estado ficar com 50% da TAP, já foram dados, faltando apenas o fecho da operação, que se prevê para Junho.

Fechada em 2013 ficou a venda da fatia estatal de 25,5% da EDP que, no tempo da troika em Portugal, teve lugar em duas fases. Primeiro, com a venda de 21,35% à China Three Gorges, que no final de 2011 apresentou a oferta mais elevada num total de 2.700 milhões (3,45 euros por acção), superando as propostas dos brasileiros da Electrobras (3,28 euros) e dos alemães da E.on (3,25 euros). Além do valor de aquisição, a oferta também previa dois mil milhões de investimentos em activos da EDP, até quatro mil milhões de financiamentos de bancos chineses e um valor não quantificado de outros apoios à economia portuguesa. Entre os investimentos previstos estava uma fábrica de turbinas eólicas da companhia chinesa em Portugal. Mas a fábrica acabou por nunca sair do papel.

Em 2013 a Parpública vendeu os restantes 4,144% da eléctrica que ainda estavam nas mãos do Estado português. A colocação foi feita através de uma operação dirigida a institucionais que teve lugar em Fevereiro e rendeu 356 milhões de euros aos cofres públicos.

Mudanças estratégicas e grandes negócios

Em que empresa é que a EDP se tornou desde que a China Three Gorges entrou no capital da eléctrica? O EBITDA manteve-se estável desde então: 3.759 milhões de euros em 2016, mais três milhões face ao registado em 2011. A produção de electricidade a partir de fontes renováveis passou a ter mais relevância. Entre 2011 e 2016, o peso das energias alternativas cresceu 10 pontos percentuais, gerando 31% do EBITDA. Por outro lado, a companhia também tem vindo a reduzir o endividamento. Desde 2011 que a dívida líquida da EDP recuou mil milhões, para 15.923 milhões no final de 2016.

O ano de 2017 tem sido marcado por grandes negócios e mudanças estratégicas para o grupo EDP. Depois de meses de especulação, a companhia fechou a venda da Naturgas, companhia espanhola de distribuição de gás natural. O negócio representou em encaixe de 2.500 milhões de euros para a EDP que, com dinheiro vivo na mão, decidiu lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) sobre a fatia da EDP Renováveis que não controla (22,5% do capital).

A companhia vendeu entretanto a Portgas, empresa de distribuição de gás natural por 532 milhões de euros à REN, que também saiu totalmente das mãos do Estado no tempo da troika, em 2012.

Foi nesse ano que o Estado português vendeu 40% da empresa que gere as redes nacionais de transporte de electricidade e de gás natural por um valor total de 592 milhões de euros. A chinesa State Grid passou a ser a maior accionista com 25% do capital. Já os restantes 15% da REN foram vendidos à Oman Oil, petrolífera estatal de Omã. Só mais tarde, em Junho de 2014, o Estado alienou em bolsa os restantes 11% que detinha na REN, por 157 milhões de euros.

Devido à natureza do seu negócio ser completamente regulado, com receitas previsíveis e estáveis, e com a taxa de energia a pesar nos seus lucros, a companhia liderada por Rodrigo Costa reajustou o rumo da sua navegação com o objectivo de gerar mais lucros. Por isso avançou no final de 2016 para a compra de 42,5% da chilena Electrogas por um total de 172 milhões de euros. E já este ano para a aquisição da EDP Gás, num negócio avaliado em 532 milhões de euros. Esta empresa detém a segunda maior rede de distribuição de gás natural em Portugal e conta com 340 mil clientes em 29 municípios nos distritos do Porto, Braga e Viana do Castelo.

Os anos de troika em Portugal foram marcados por outras privatizações relevantes, mas cujos encaixes ficaram abaixo dos obtidos com a ANA - Aeroportos de Portugal e EDP. Entre as mais relevantes, concluídas já em 2014, conta-se a compra pelos chineses da Fosun de 80% da Caixa Seguros por mil milhões de euros. Também os CTT passaram nesse ano a ser uma empresa 100% privada, numa operação que gerou mais de 900 milhões de euros para os cofres do Estado. Nesse mesmo ano, o grupo Mota-Engil aceitou pagar quase 150 milhões para ficar com a EGF.





A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
ahah 31.05.2017

Só de privatizações o governo PAf encaixou quase 9 mil milhões, a que se somou o enorme aumento de impostos diretos e indiretos. Tendo em conta este enorme aumento de receitas só podemos concluir que os resultados do défice público obtidos pelo Passos e Cª foram Medíocres.

pub
pub
pub
pub