Tecnologias A história da tecnológica que ganha mais em bolsa do que Facebook e Netflix

A história da tecnológica que ganha mais em bolsa do que Facebook e Netflix

A tese da Shopify é relativamente simples: há gente em todo o mundo com capacidade e energia para montar bons negócios online, mas que não tem as ferramentas necessárias. A Shopify permite que essas pessoas testem lojas online pagando uma mensalidade inicial de 29 dólares.
A história da tecnológica que ganha mais em bolsa do que Facebook e Netflix
Bloomberg 02 de setembro de 2017 às 11:00

Nos EUA, é comum os estudantes trabalharem como empregados de mesa ou a cortar relva para pagar a faculdade. Jack McCarthy passeava pelas ruas à procura das camisas com adereços natalícios o mais horríveis possíveis. Aos 22 anos, comprava tudo o que encontrava — geralmente por poucos dólares — e vendia pela internet por mais de 20 dólares cada peça. McCarthy chegou a facturar 100 mil dólares e foi assim que se diplomou pela Babson College sem necessidade de se endividar.

 

Para conseguir este feito, contou com a Shopify, empresa do Canadá que entrou em Bolsa há menos de três anos. A companhia fornece websites, processamento de pagamentos e remessas para mais de 500.000 vendedores que actuam online. Agora, o seu valor de mercado chega a 10 mil milhões de dólares - praticamente igual ao do Twitter e da Square.

 

A tese da Shopify é relativamente simples: há gente no mundo todo com capacidade e energia para montar bons negócios online, mas que não tem as ferramentas necessárias. A Shopify permite que essas pessoas testem lojas online pagando uma mensalidade inicial de 29 dólares, sendo que as duas primeiras semanas são gratuitas. Muitas não vão em frente, mas quem encontra um mercado, cresce. E quanto mais cresce, mais a Shopify ganha dinheiro através de taxas de transacção e assinaturas mais caras.

"A barreira de entrada mínima é uma das razões para o enorme crescimento da Shopify", disse McCarthy em entrevista por telefone da Holanda, país onde passa férias e presta serviços esporádicos de consultoria em e-commerce.

 

Entre as empresas de tecnologia com valor de mercado superior a mil milhões de dólares, a Shopify é a acção listada nos EUA com melhor desempenho este ano. O título deu retorno de mais de 500% nos 27 meses desde o IPO (initial public offering). O Facebook e o Netflix proporcionaram retornos de aproximadamente 100% no mesmo período após a entrada em Bolsa.

 

A Shopify ainda não dá lucro, mas tem superado consistentemente as estimativas de receitas dos analistas e também aumenta regularmente as suas próprias projecções.

 

Aparentemente, a companhia lida bem com a concorrência, mas a dimensão do sucesso pode torná-la um alvo de aquisição por parte da Google ou da Amazon.com, ou até fazer com que essas gigantes tentem "roubar" o negócio da Shopify.

 

Quem fundou a companhia em 2004 foi o programador de software Tobi Lutke, um alemão que se mudou para Ottawa depois de ter conhecido uma namorada desta cidade. Lutke tinha tentado montar uma loja online de pranchas de snowboard e percebeu que não existiam ferramentas fáceis de usar. Captou dinheiro junto da Bessemer Venture Partners e da Felicis Ventures, comprou um estúdio de design para melhorar os websites disponíveis para os utilizadores e começou a criar recursos como aplicações para uso no ponto de venda e um sistema de pagamentos.

 

Desde que levantou 150,5 milhões de dólares no IPO, o número de clientes da Shopify passou de 165.000 para meio milhão, deixando para trás concorrentes como a Bigcommerce, sediada em Austin, no Texas.

 

Ao longo dos anos, formou-se um enorme ecossistema em torno da Shopify, como ocorreu com a Amazon. Há grupos e fóruns de discussão no Facebook e no Reddit dedicados à optimização de buscas e taxas de conversão. Programadores do mundo inteiro construíram centenas de aplicações que os utilizadores podem acrescentar às suas lojas — de conversores internacionais de números de calçado a ferramentas de gestão da cadeia de fornecimentos.

 

Obviamente também surgiram os consultores que ajudam os principiantes a vender online. Em 2013, Ross Beyeler, dono da agência de web design Growth Spark, de Boston, decidiu focar-se quase exclusivamente nos retalhistas presentes na Shopify. Desde então, o seu quadro de funcionários aumentou de quatro para 12 pessoas e conquistou grandes clientes, como a fabricante de equipamentos de som Bose. Na visão de Beyeler, o universo actual de 500.000 clientes potenciais vai continuar a aumentar. "A procura relacionada com a Shopify é enorme", disse.

 

Os escritórios da Shopify em Toronto.
Os escritórios da Shopify em Toronto.
Kevin Van Paassen/Bloomberg

A Shopify ainda não dá lucro, mas tem superado consistentemente as estimativas de receitas dos analistas e também aumenta regularmente as suas próprias projecções.

 

Aparentemente, a companhia lida bem com a concorrência, mas a dimensão do sucesso pode torná-la um alvo de aquisição por parte da Google ou da Amazon.com, ou até fazer com que essas gigantes tentem "roubar" o negócio da Shopify.

 

Quem fundou a companhia em 2004 foi o programador de software Tobi Lutke, um alemão que se mudou para Ottawa depois de ter conhecido uma namorada desta cidade. Lutke tinha tentado montar uma loja online de pranchas de snowboard e percebeu que não existiam ferramentas fáceis de usar. Captou dinheiro junto da Bessemer Venture Partners e da Felicis Ventures, comprou um estúdio de design para melhorar os websites disponíveis para os utilizadores e começou a criar recursos como aplicações para uso no ponto de venda e um sistema de pagamentos.

 

Desde que levantou 150,5 milhões de dólares no IPO, o número de clientes da Shopify passou de 165.000 para meio milhão, deixando para trás concorrentes como a Bigcommerce, sediada em Austin, no Texas.

 

Ao longo dos anos, formou-se um enorme ecossistema em torno da Shopify, como ocorreu com a Amazon. Há grupos e fóruns de discussão no Facebook e no Reddit dedicados à optimização de buscas e taxas de conversão. Programadores do mundo inteiro construíram centenas de aplicações que os utilizadores podem acrescentar às suas lojas — de conversores internacionais de números de calçado a ferramentas de gestão da cadeia de fornecimentos.

 

Obviamente também surgiram os consultores que ajudam os principiantes a vender online. Em 2013, Ross Beyeler, dono da agência de web design Growth Spark, de Boston, decidiu focar-se quase exclusivamente nos retalhistas presentes na Shopify. Desde então, o seu quadro de funcionários aumentou de quatro para 12 pessoas e conquistou grandes clientes, como a fabricante de equipamentos de som Bose. Na visão de Beyeler, o universo actual de 500.000 clientes potenciais vai continuar a aumentar. "A procura relacionada com a Shopify é enorme", disse.

 

A Shopify é actualmente a empresa do momento no sector tecnológico do Canadá, encarnando o orgulho do país, mas também a paranóia. Ninguém ainda se esqueceu como a Nortel e a BlackBerry chegaram bem alto, para depois avaliarem mal o mercado, sendo superadas por rivais norte-americanas. Actualmente a Shopify está a roubar clientes aos poucos rivais que tem. Há alguns anos, a Amazon fechou a divisão de construção de lojas online e enviou os seus clientes para aquela plataforma.

 

Mas, à medida que a empresa amadurece, vai ser mais difícil sustentar taxas de crescimento homólogas superiores a 70%, tal como a Shopify conseguiu nos últimos cinco anos. Os analistas começaram a recomendar aos investidores que mantenham a acção em carteira, em vez de reforçar/comprar. Jesse Hulsing, do Goldman Sachs, alertou em Junho que "vai ser mais difícil a partir daqui obter valorizações expressivas", pois a cotada já está entre as mais caras no sector das fabricantes de "software" (actualmente acima dos 100 dólares).

 

Os investidores podem sofrer se a empresa não cumprir a meta de fechar o ano com lucros. O próprio CEO admite que as taxas de crescimento têm de ser mais brandas.

 

"Isto tem corrido incrivelmente bem, as pessoas estão a vender muitos milhões de dólares todos os meses na nossa plataforma, o que é uma loucura", afirmou Lucke numa entrevista este mês. "Não sabemos quanto mais tempo conseguimos continuar assim".

 

Estes receios não preocupam quem ganha a vida na plataforma da empresa. Em 2014, Ira Woods arrancou com uma loja online para vender jóias. Estima fechar o ano com receitas de 2 milhões de dólares e dez empregados. "Somos ambiciosos. Queremos chegar aos 10 milhões", afirmou.

 

Este artigo foi originalmente publicado na Bloomberg a 28 de Agosto




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alfa Há 2 semanas

Noticia muito interessante... e como se compara com o EBAY?

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