Empresas Acesso grátis às notícias “foi um suicídio quase colectivo”

Acesso grátis às notícias “foi um suicídio quase colectivo”

O impacto do digital e a precariedade dos jornalistas foram alguns dos temas debatidos por 19 directores das principais publicações de informação nacional no segundo dia do Congresso dos Jornalistas.
Acesso grátis às notícias “foi um suicídio quase colectivo”
Sara Ribeiro 13 de janeiro de 2017 às 20:23

A revolução do digital abriu uma nova janela aos órgãos de Comunicação Social ao alargar o potencial de audiência. Mas também trouxe novos desafios relacionados com a quebra da venda de jornais e com a entrada em campo de novos (e poderosos) concorrentes dos media no campo da publicidade online: o Google e o Facebook. Esta foi uma das conclusões da mesa redonda que reuniu 19 directores de publicações durante o segundo dia do 4.º Congresso dos Jornalistas.

Como Ricardo Costa apontou, os media "nunca tiveram hipótese de trabalhar para tanta gente". O problema? "Existe, cada vez mais, uma degradação de valor pela comunidade do que fazemos", disse o director-geral de informação da SIC.

Para o jornalista "a comunicação social ficará para a história da economia como o sector que decidiu oferecer o que faz de borla", relembrando que os primeiros passos desta estratégia, seguidos pelos restantes meios um pouco por todo o mundo, foi o The Guardian.

Por estas razões, considera que "os culpados", da actual situação financeira que os media estão a passar, "estão dentro do sector". "Foi um suicídio quase colectivo", comentou, relembrando que no campo digital o sector enfrenta concorrentes de peso como o Facebook e o Google que têm 75% do total da publicidade online em Portugal.

Arsénio Reis, director da TSF, partilhou da mesma opinião: "Um dos problemas do sector é a viabilidade financeira dos projectos", mas considera que esta situação não se deve só ao facto de "dar os nossos conteúdos". Para o jornalista um dos principais desafios está relacionado com o emagrecimento das redacções: "Quando o tempo acelera e os recursos são menos, obviamente que se reflecte", disse.

Aliás, o impacto da velocidade do digital na qualidade das notícias foi outro dos temas debatidos pelos directores presentes no painel. Com o online, por vezes, "ter tempo para pensar é difícil. E às vezes temos a tentação do "já", comentou Graça Franco, da Rádio Renascença. Uma opinião partilhada pela maioria dos directores presentes.

"É mais barato fazer notícias do que novelas"

A relação e o peso da informação no mar do entretenimento e da guerra de "shares" foi outro dos temas abordados. Em resposta, o director de informação da TVI, Sérgio Figueiredo, começou por destacar que um terço da grelha da TVI é preenchido com informação.

Para o jornalista o que está em causa não é o espaço disponível para a informação, até porque "nunca a televisão teve tanto espaço" e "é mais barato fazer notícias do que novelas". "A questão é o que se coloca nesse tempo", acrescentou, comentando que a guerra do nosso tempo é captar a atenção das pessoas.

A precariedade dos jornalistas e o tempo despendido pelos directores em questões em questões editoriais foram outros dos temas debatidos na mesa redonda que contou com 19 directores. Deste total, duas mulheres. Um cenário que foi destacado pela directora da Visão, Mafalda Anjos: "É uma overdose de testosterona", disse, em tom de brincadeira. Lamentando, porém, que o posicionamento dos cargos de chefia ocupados por mulheres nas outras empresas, do PSI20 por exemplo, "não é muito diferente.

Questionados sobre o número de trabalhadores precários que os respectivos órgãos somavam, um dos temas que tem dominado o congresso, os directores começaram por explicar que a precariedade "é uma reflexão do país", como explicou David Dinis. E que o termo "precário" pode ser subjectivo.

O director da Antena1 disse que a rádio com uma dúzia de trabalhadores nesta situação, a Visão tem "quatro pessoas como prestador de serviços regulares, o Jornal de Notícias "seis pessoas a recibos verdes na rede", a Rádio Renascença quatro e o Jogo cerca de 3 colaboradores nesta situação, "mas no último ano metemos quatro pessoas nesta situação nos quadros", revelou o director do jornal, José Manuel Ribeiro.

Os restantes disseram que não tinham colaboradores nesta situação enquanto o director da Lusa, Pedro Camacho, explicou que têm várias pessoas a receber à peça ou com uma avança mas porque têm uma rede de correspondentes quer a nível nacional quer internacional.

Já o director do Público comentou que o jornal tem três jornalistas nesta situação "mas estes casos estão a ser resolvidos".

Quanto ao tempo despendido pelos directores com questões editoriais, a maioria dos presentes admitiu que é menos do que gostaria, por terem de lidar com outros departamentos como de publicidade e marketing.




A sua opinião4
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Anónimo 13.01.2017

No tempo de Socrates? Que descaramento! Caro senhor, a promiscuidade entre poder politico e jornalistas sempre existiu. Já vem do tempo dos "Afonsinhos". Com Salazar foi assim e com a maioria dos governos pós 25 Abril também. A "propaganda" é tentadora para qq governo. Seja correcto!

jose 13.01.2017

Queriam o quê? Ganhar olimpicamente, como muitos ainda fazem, e "venderem" as notícias que os patrões mandam vender? Não. Vendem um produto sério, e terão compradores.

Anónimo 13.01.2017

Foi vergonhoso o que alguns jornais fizeram no tempo do Sócrates e não só, submeterem-se ao Poder politico. Tudo isso conta para a sua descredibilização e respectivas consequências. Isto é que devia ser debatido, mas sempre se procura passar uma esponja. Depois vem o ai ai ai!

Anónimo 13.01.2017

Claro que é difícil reconhecer a "analfabetização digital" de várias gerações, do que não terão culpa nenhuma, estando a mesma nos sucessivos governantes. Já agora, porque é que os jornalistas e os fazedores de opinião, nunca questionaram a eliminação das disciplinas de política e educação social ??

pub