Empresas Amancio Ortega: o homem que jurou que a família nunca mais passaria fome

Amancio Ortega: o homem que jurou que a família nunca mais passaria fome

É apaixonado por cavalos, automóveis e pintura. A qualidade que mais aprecia é a honradez e o que menos suporta é a mentira. O têxtil fez-lhe a fortuna.
Amancio Ortega: o homem que jurou que a família nunca mais passaria fome
Reuters
Carla Pedro 14 de dezembro de 2017 às 00:19

Amancio Ortega Gaona, dono da espanhola Inditex – proprietária de marcas como a Zara, Massimo Dutti, Oysho, Stradivarius, Bershka e Pull & Bear –, deixou todos os cargos que ainda ocupava no grupo, avançou esta quarta-feira o Expansión. Segundo o jornal espanhol, a sua saída das 53 filiais da Inditex foi mais um passo no processo de sucessão iniciado em 2011, quando deixou de ter funções executivas no grupo e cedeu a liderança a Pablo Isla.

 

Este discreto empresário de 81 anos é um dos homens mais ricos do mundo. No "ranking" diário da Forbes, ocupa actualmente a 4.ª posição a nível mundial, com uma fortuna avaliada em 78,9 mil milhões de dólares. 

 

Mas o património deste bem sucedido empresário espanhol não lhe caiu no colo. Bem pelo contrário.


Nascido a 28 de Março de 1936 em Busdongo de Arbás (León), aos 12 anos mudou-se para a Galiza, para onde o seu pai, ferroviário, tinha sido transferido. O salário da mãe, empregada doméstica, pouco ajudava a compor o rendimento familiar e as dificuldades faziam-se sentir. Por isso, cedo começou a trabalhar.


Teve de largar os estudos aos 13 anos devido ao aperto financeiro familiar – tinha mais dois irmãos, Josefa (Pepita, para os mais chegados) e Antonio (já falecido) – e jurou que a sua família nunca mais voltaria a passar fome. Uma promessa nascida da impotência que sentiu ao ouvir dizerem à sua mãe, na mercearia local, que não podiam continuar a vender-lhe fiado, contam o El País e a Executive Excellence.


Aos 14 anos estava já empregado como estafeta da camisaria Gala, na Corunha, tendo aos 17 passado a operar como comercial na empresa de confecções La Maja, onde também trabalhavam os seus dois irmãos. Mas a sua natureza empreendedora depressa o conduziu a destinos com rédea própria.


Em 1963, graças a um pequeno empréstimo, Amancio Ortega, Rosalía Mera (que havia de tornar-se a sua primeira mulher), Antonio Ortega, Pepita e José Caramelo (fundador da empresa Caramelo e um dos poucos amigos que Amancio tem no sector têxtil) saem da La Maja para criarem a GOA Confecciones – o princípio de tudo, conta o website Orlando Cotado.


A GOA (as iniciais de Amancio Ortega Gaona, na ordem inversa) começou por se dedicar ao fabrico de roupões de banho [azuis e cor-de-rosa], tornando-se a base do seu império têxtil, conforme relata a Busca Biografías.


O negócio vai crescendo e a 15 de Maio de 1975 abre a primeira loja Zara, na Corunha. Com o aumento do volume de actividade da sua empresa, cria em 1985 o grupo Inditex (Industrias de Diseño Textil).


Em 1988, com a abertura de uma Zara no Porto, o grupo galego inicia a sua expansão internacional, estando hoje presente em mais de 80 países, por toda a Europa, Américas, Ásia, Médio Oriente e Norte de África.


Em 2001 a Inditex entra em bolsa, sendo actualmente conhecida como o maior grupo têxtil do mundo. Literalmente. Só a sua sede, na Corunha, tem uma extensão equivalente a 47 campos de futebol, sem contar com os 30 mil metros quadrados de novas edificações, sublinha o El Mundo.


Além da área têxtil, diversificou a sua iniciativa empresarial para outros sectores, como o imobiliário, financeiro, concessionárias automóveis e gestão de fundos de investimento, escreve a Biografías y Vidas.


Em Janeiro de 2011 deixou a presidência da Inditex – da qual é ainda o maior accionista, detendo actualmente 59,2% –, passando o testemunho a Pablo Isla, da Zara.


Através da sua Fundação Amancio Ortega – instituição privada sem fins lucrativos que promove todo o tipo de actividades no domínio da investigação, educação e ciência – doou, em 2012, 20 milhões de euros à Cáritas.


Teve dois filhos, Sandra e Marcos, com a primeira mulher, Rosalía Mera. Em 2001 casou-se com Flora Pérez Marcote, com quem teve a filha Marta.


É um homem discreto e reservado, que durante muitos anos não deu entrevistas e que tinha uma única fotografia autorizada. E só em 1999 é que essa foto surgiu, ao ser publicada na primeira memória oficial da Inditex. Até então, o rosto do homem que criou o império têxtil que o tornou um dos mais ricos do mundo era do desconhecimento público. Com a sua Fundação, Ortega abriu-se um pouco mais, mas continua a preferir o recato.


Apaixonado por cavalos, automóveis e pintura, é no entanto um homem de hábitos simples, sem grandes extravagâncias. A qualidade que mais aprecia numa pessoa é a honradez e o que menos suporta é a mentira.


A humildade é também uma característica de Ortega. "O meu sucesso é o de todos os que colaboram e colaboraram comigo. Ninguém consegue ser inteligente, poderoso ou prepotente o suficiente para construir sozinho uma empresa deste calibre", diz o homem que não resiste a ovos fritos com batatas fritas e chouriço. E cujo maior sonho seria ver um mundo sem fome.




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mais votado Ciifrão 14.12.2017

Espantoso como em tão pouco tempo, desde uma região periférica, se consegue construir uma empresa tão grande, suponho seja devido a uma boa ideia seguida com convicção. A Zara nasceu voltada para seguir os desejos dos consumidores, não a vaidade dos acionistas. O resultado está à vista.

comentários mais recentes
Criador de Touros 14.12.2017

Em Portugal também aconteceram coisas do arco da velha. No topo. Nas últimas décadas. Recordo-me de dois casos. Um conhecido, o outro também, mais de meandros de oportunidades de negócio. Não sou admirador de coisas destas, pelo contrário.

Criador de Touros 14.12.2017

Não estou muito convencido. As histórias galegas dos anos 80, 90, não deixam.Sou muito céptico em muita coisa. Sou difícil de convencer.As juras podem ser desculpas para muita coisa. Como é que se ultrapassa pela direita o El Corte Inglês já estabelecido ? Só com muita propulsão... A cultura permissiva de Espanha deu a tal propulsão...

Ciifrão 14.12.2017

Espantoso como em tão pouco tempo, desde uma região periférica, se consegue construir uma empresa tão grande, suponho seja devido a uma boa ideia seguida com convicção. A Zara nasceu voltada para seguir os desejos dos consumidores, não a vaidade dos acionistas. O resultado está à vista.

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