Aviação CEO da Monarch atribui queda da empresa a guerra de preços em Portugal e Espanha

CEO da Monarch atribui queda da empresa a guerra de preços em Portugal e Espanha

A instabilidade política em destinos como a Turquia ou a Tunísia, associada aos riscos do terrorismo, precipitaram uma forte concorrência em destinos considerados seguros na Europa. Daí ao esmagamento de preços, foi um passo, explicou o líder da empresa.
CEO da Monarch atribui queda da empresa a guerra de preços em Portugal e Espanha
Reuters
Paulo Zacarias Gomes 03 de outubro de 2017 às 12:07

A guerra de preços entre as companhias aéreas para transporte de passageiros para destinos turísticos como Portugal ou Espanha foi, segundo o presidente da Monarch, uma das causas para a falência da quinta maior transportadora aérea britânica, anunciada esta segunda-feira.

Em entrevista esta terça-feira, 3 de Outubro, ao programa Today da BBC Radio, Andrew Swaffield recuou até ao período entre 2010 e 2012, em que a Primavera Árabe e os efeitos subsequentes afastaram milhares de turistas de países como a Turquia, Tunísia e Egipto, para explicar as origens da crise que derrubou a empresa com quase 60 anos de existência.

A essas circunstâncias, Swaffield acrescentou as ameaças terroristas, que em conjunto com a instabilidade política aumentaram a concorrência nos voos de curta distância entre as transportadoras, nomeadamente para destinos como Portugal e Espanha, pressionando os preços e reduzindo a rentabilidade da companhia. A juntar ainda, a depreciação da libra no pós-referendo do Brexit.

Segundo o site anna.aero, no início de Julho deste ano a concorrência em muitos dos destinos servidos pela Monarch era forte. A Thomson servia directamente 64 das 104 rotas daquela empresa, a easyJet tinha 46 ligações semelhantes, a Jet2.com servia 41 rotas iguais e a Thomas Cook 41. Já a Ryanair servia 33 rotas em sobreposição.

"Os voos estavam a ser encurtados para um menor número de destinos e a redução de 25% dos preços dos bilhetes nas nossas rotas criou um desafio económico massivo na nossa rede de curta distância," justificou o CEO esta manhã à rádio britânica. 

O aperto financeiro nos últimos dias era de tal ordem, reconheceu o CEO, que a Monarch se via a registar "bem mais" de 100 milhões de libras (112 milhões de euros à cotação actual) em prejuízos no ano que vem. Apesar de se rodear de consultores externos, o CEO não conseguiu encontrar forma de reduzir essas perdas, fosse vendendo parte da empresa ou reestruturando-a. 


"Tentámos tudo, mas não conseguimos encontrar solução e chegamos ao ‘fim da estrada’ no sábado à noite," concluiu.

Espanha com mais de metade dos voos


Dos 499 voos operados pela rede da Monarch na primeira semana de Agosto, 279 - ou seja, mais de metade - serviam aeroportos espanhóis. Os principais destinos abrangidos no país vizinho eram Palma de Maiorca (52 ligações) e Alicante (46).

Já em Portugal, os quatro aeroportos servidos (Lisboa, Porto, Faro e Funchal) geravam 78 voos semanais no mesmo período, segundo o site anna.aero. De acordo com a mesma fonte, em Portugal o aeroporto mais afectado pelo fim das operações será Faro, com 47 ligações semanais, seguido de Lisboa (14), Porto (9) e Funchal (8).

No aeroporto algarvio, de acordo com dados da ANAC, a Monarch Airlines tinha uma quota de 7% dos passageiros no segundo trimestre deste ano, sendo a quarta companhia mais importante, numa lista liderada pela Ryanair e easyJet. No Funchal, a Monarch ocupou a oitava posição, com uma quota de 4%.


Viagens de regresso serão grátis

O fim das operações de transporte aéreo da Monarch – que está, ao abrigo da lei britânica, automaticamente ligado à entrada em insolvência, o que não acontece em países como Alemanha ou Itália em que a Alitalia ou a Air Berlin continuaram a operar em situações semelhantes – deixou em terra 110 mil pessoas em férias no estrangeiro e que tinham as suas viagens de regresso pagas e agendadas.

Já ontem o governo liderado por Theresa May garantiu que suportaria financeiramente, através do regulador aeronáutico (CAA) o transporte desses cidadãos (será a maior operação de repatriação em tempo de paz) nas próximas duas semanas, o que deverá custar 60 milhões de libras.

Os voos serão grátis para os turistas retidos no estrangeiro e o Estado britânico tentará depois reaver o dinheiro através das empresas gestoras dos cartões de crédito dos clientes afectados ou dos operadores turísticos, explicou à BBC Radio a presidente da CAA, Deidre Hutton.

Na segunda-feira, 11.800 pessoas já foram transportadas de regresso a casa em 61 voos e até ao final desta semana o número de regressados deverá ser de 56.000, mais de metade dos quais localizados em ilhas espanholas. Há ainda 750 mil reservas feitas até segunda-feira para voos na empresa e que ficaram sem efeito, deixando também sem utilização os aviões que deveriam transportar estes passageiros.

Regulador britânico nega crise no transporte aéreo 

O fecho da companhia, que existe há quase 50 anos (foi criada em Abril de 1968), afectou quase 1.900 trabalhadores. Ontem a concorrente easyJet contactou os funcionários da Monarch, incentivando-os a concorrer a vagas de recrutamento na companhia, acenando com 500 lugares em Luton e Gatwick, aeroportos para onde a empresa insolvente voava.

Apesar da queda da Monarch e dos cancelamentos de voos da Ryanair anunciados nas últimas semanas alegadamente por erros na marcação de férias dos pilotos, a presidente do regulador CAA nega que o sector de transporte aéreo esteja em crise: "A indústria tem estado muito activa e ao longo deste ano o número de passageiros tem crescido, as companhias aéreas têm tido um desempenho muito bom e os aeroportos têm reportado números recorde de passageiros."

(Notícia actualizada às 12:32 com dados relativos à operação em Espanha)




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