Aviação Como o "rei dos aviões" roubou a ribalta no Dubai

Como o "rei dos aviões" roubou a ribalta no Dubai

Aos 80 anos, o auto-proclamado pai do modelo das companhias aéreas de ultra-baixo custo promete dar luta, roubando este ano o protagonismo no Dubai Air Show, com a maior encomenda alguma vez feita de aviões comerciais da Airbus SE.
Como o "rei dos aviões" roubou a ribalta no Dubai
Reuters
Bloomberg 18 de novembro de 2017 às 15:00
William Augustus Franke, co-fundador e sócio-gerente da empresa de "private equity" Indigo Partners, anunciou na quarta-feira com a Airbus a compra de 430 aviões, num valor de quase 50 mil milhões de dólares [42,3 mil milhões de euros à cotação actual]. A operação vai estimular o crescimento do império aeronáutico de Franke, onde dedicou a última parte da sua carreira a evitar aquilo que chama "o caminho para o inferno" de uma companhia: a escalada dos custos.

"Somos crentes no modelo de ultra-baixo-custo," afirmou Franke aos jornalistas no Dubai. "No fim de contas, num ambiente competitivo, quanto mais baixo o custo, mais baixos os preços dos bilhetes - é uma estratégia vencedora."

Os aviões Airbus que a Indigo encomendou serão distribuídos entre quatro transportadoras que vendem bilhetes a baixíssimo custo, com direito a um assento no avião e pouco mais. As entregas dos aviões começarão em 2021 às companhias Frontier Airlines, nos EUA, a mexicana Volaris, o operador do Leste europeu Wizz Air Holdings Plc e a chilena JetSmart, que começou a operar este ano.

Ao contrário da história volátil das companhias de serviço completo, Franke diz que tem tido um "percurso notável" com as companhias que fazem parde da carteira de investimentos da Indigo. "As nossas transportadoras aéreas são muito rentáveis, todas dão dinheiro."

A encomenda vai sustentar o crescimento das quatro empresas, numa altura em que as companhias de baixo custo crescem a um ritmo mais acelerado que as grandes rivais, refere George Ferguson, analista da Bloomberg Intelligence. Será necessária uma taxa anual de crescimento de 20% para que a Frontier use as suas actuais encomendas de 68 Airbus, a que se juntam os 134 com que ficará, em 2024, ao abrigo do acordo assinado na quarta-feira, considera. Os números dizem respeito a crescimento orgânico, sem substituir os aviões que já fazem parte da frota.

"Olho para a Wizz e para a Frontier e penso que elas não estão a abrandar" em termos de crescimento, entende Ferguson. "Se não crescerem tão rápido quanto esperado, podem pedir à Airbus para adiar algum aumento", prorrogando a entrega de aviões.

Franke usou a sua credibilidade na indústria e o seu historial de sucesso no desenvolvimento de companhias ultra-baixo-custo para desenhar esta encomenda e, provavelmente, beneficiou de grandes descontos no preço final, diz Samuel Engel, da consultora de aviação ICF.

Do Texas até ao Paraguai

Franke co-fundou a Indigo Partners no Arizona em 2002 depois de abandonar um ano antes o cargo de presidente executivo da America West Holdings Corp. Hoje, segundo Franke, a Indigo gere cerca de 8 mil milhões de dólares [6.800 milhões de euros à cotação actual].

O investidor nasceu em Bryan, no Texas, e mudou-se ainda jovem para a América do Sul devido ao trabalho do pai no Departamento de Estado dos EUA. Cresceu no Paraguai, na Argentina e no Brasil, onde concluiu o ensino secundário.

Franke fez um acordo com dois amigos próximos da escola secundária segundo o qual todos frequentariam a mesma universidade norte-americana. E o trio deitou uma moeda ao ar para escolher entre Stanford ou Yale, confessou em 2012 num discurso a alunos da escola de negócios com o seu nome, na Northern Arizona University. Obteve o seu grau de "bachelor" em Stanford e formou-se em Direito com 22 anos, antes de ir para a tropa.

A carreira nos negócios

Era presidente da cadeia de lojas de conveniência Circle K em 1992 quando foi escolhido pelo governador do Arizona, Fife Symington, para tomar conta da America West, apesar da sua falta de experiência na indústria. Angariou 15 milhões de dólares em financiamento para ajudar a salvar a companhia aérea na bancarrota. E tornou-se presidente executivo em 1993, retirando a empresa da insolvência no ano seguinte.

Franke preparou Doug Parker, então com 39 anos, para seu sucessor na America West, depois de o contratar como administrador financeiro. Juntos, esboçaram um programa para ajudar a melhorar o desempenho financeiro e operacional da companhia. Parker é actualmente o CEO do American Airlines Group Inc., a maior companhia aérea do mundo.

Franke entrou a pés juntos no mundo do low-cost em 2004 quando foi nomeado chairman da Tiger Airways em Singapore, uma posição que manteve durante cinco anos. Também investiu na irlandesa Ryanair antes da sua entrada em bolsa.

O empresário aeronáutico desenvolveu uma disciplina férrea ao longo dos anos, ao impedir uma subida dos custos. Faz pare da natureza humana gostar de ver os negócios e as despesas a crescer, afirmou Franke na conferência de imprensa de quarta-feira passada.

‘Caminho para o inferno’

"Às vezes vemos o que acontece quando algumas grandes companhias, que têm quotas de mercado significativas enquanto low-cost, e decidem acrescentar coisas como clubes ou programas de passageiro frequente, ou melhorar o serviço e as ofertas a bordo," afirmou. "Tudo isso cria um caminho para o inferno."

Franke ajudou a transformar a Spirit Airlines Inc. numa companhia de ultra-baixo-custo antes de sair da empresa como presidente não executivo em 2013, quando a Indigo vendeu os 17% que detinha na companhia aérea Miramar, sediada na Florida. A mudança permitiu à empresa de Franke comprar a Frontier, tirá-la da bancarrota e convertê-la numa ultra-low-cost. Hoje é chairman da Frontier, empresa que no início deste ano adiou os planos para entrada em bolsa.

Demorou meses a concluir o mais recente acordo de compra com a Airbus, revelou Franke. Alguns dos aviões irão para as quatro companhias, mas Franke pode usar outros para apoiar uma nova companhia de baixo custo, considera o consultor da ICF. Outra opção pode passar por revender alguns dos aviões a um banco ou a um locador e depois voltar a alugá-los, permitindo à companhia aérea reinvestir a mais-valia feita sobre o preço de compra original, argumenta.

A Indigo acredita que o modelo low-cost "tem oportunidades para crescer que ainda estão inexploradas nos EUA," afirma Engel. "Já não são operadores marginais como a Spirit costumava ser. Eles comprovaram o modelo."

O mega-negócio também ajuda a firmar o legado do director de vendas da Airbus, John Leahy, de 67 anos, que se reformará nos próximos meses. O valor da encomenda está baseado nos preços de tabela dos aviões, embora as companhias normalmente consigam descontos com grandes encomendas.

"O objectivo deles é vender aviões ao preço mais alto possível," disse Franke aos jornalistas no Dubai. "O nosso objectivo é comprar aviões ao mais baixo preço possível. Conheço o sr. Leahy há 25 anos. Umas vezes ganha ele, outras vezes ganho eu."

E quem é que ganhou desta vez? "Essa é uma boa pergunta," respondeu com um sorriso.

*Versão traduzida do texto publicado no dia 15 de Novembro pela Bloomberg com o título "Investor Who Skirted ‘Path to Hell’ Lands a $50 Billion Jet Deal".





A sua opinião1
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
antonio Há 3 semanas

Lamentável, de tradução pouco tem, nem em português do brasil está.
E tao pouco e uma versão traduzida do que escreve a Bloomberg.
Retirem isto, a sério...

Saber mais e Alertas
pub