Banca & Finanças Das notícias às descidas de "rating" e à fuga de depósitos se fez a queda do Banco Popular

Das notícias às descidas de "rating" e à fuga de depósitos se fez a queda do Banco Popular

O BCE divulgou os motivos pelos quais considerou que o Popular estava "em risco ou em situação de insolvência". Os dados sobre a sucursal não foram revelados. Certo é que nem a linha de liquidez de emergência poderia salvar o banco espanhol.
Das notícias às descidas de "rating" e à fuga de depósitos se fez a queda do Banco Popular
REUTERS
Diogo Cavaleiro 15 de agosto de 2017 às 12:55

Os depósitos iam sendo retirados do Banco Popular. O início do ano começara com notícias sobre possíveis alterações na gestão do banco. Falava-se na perda de rentabilidade e num eventual novo aumento de capital. Veio depois o prejuízo recorde. E a saída do histórico presidente. Começaram a ser reduzidos os "ratings" da instituição financeira. Mais depósitos iam saindo. A cobertura noticiosa continuava a ser negativa. Veio depois o pedido de emergência. Mas nem isso seria suficiente. O Popular haveria de cair. Foi vendido ao Santander por 1 euro no âmbito de uma intervenção administrativa.

 

O relato é feito pelo Banco Central Europeu, que publicou versões não confidenciais das avaliações feitas aquando da queda dos bancos. Foi a classificação do Popular como "em risco ou em situação de insolvência" ("failing or likely to fail") que determinou a sua resolução. E é isso que é descrito em seis páginas reveladas esta terça-feira, 15 de Agosto.

 

"Ao longo dos últimos meses, a entidade supervisionada [Banco Popular Español] tem experienciado uma deterioração significativa da sua posição de liquidez, sobretudo conduzida por uma considerável sangria de depósitos. A entidade supervisionada foi confrontada com saídas de dinheiros substanciais em todos os segmentos de clientes". É assim que começa a descrição, com a autoridade monetária sob o comando de Mario Draghi a indicar seis grandes motivos para essa fuga.

 

Especulação sobre a saída do presidente Ángel Ron (que aconteceu, sendo substituído por Emilio Saracho). Resultados negativos (foram prejuízos de 3.485 milhões de euros em 2016). Situação de solvência em dúvida. Necessidade de um aumento de capital ou da entrada de um investidor (uma venda que numa aconteceria no prazo de tempo pedido pelas autoridades). Incorrecções contabilísticas que obrigaram a uma republicação das contas de 2016. Elevado nível de activos não performantes.

 

A fuga de depósitos intensifica-se, com as auditorias que são divulgadas. Abril é marcado por reduções das classificações de risco atribuídas pela Moody’s e pela S&P à dívida do Popular. A pressão não saía de cima do banco. 

 

As notícias

 

"Saracho responsável pela venda urgente do Popular ao JPMorgan e Lazard". "O BCE inspecciona o Banco Popular durante dois meses em pleno processo de venda". Estes são dois títulos de notícias que mostram a "continuada cobertura noticiosa negativa" sobre o banco em Maio, notícias que falam numa pressão para a venda do banco, de modo a evitar o risco de ruptura.


"A perda de depósitos desde 31 de Maio é particularmente relevante, já que foi divulgado nos media que o banco poderia enfrentar uma liquidação caso o processo de venda em curso não fosse bem-sucedido no curto prazo", continua o relato que atribui à comunicação social um peso na queda da instituição financeira. 

 

Ao mesmo tempo, o banco vai proporcionando medidas para reforço da sua situação de liquidez. O Banco de Espanha pede o acesso à ELA, as linhas de emergência para a cedência de liquidez, para por exemplo permitir o pagamento de depósitos que os clientes queiram ver reembolsados. O conselho que junta os governadores da Zona Euro não se opõe. Mas era inútil. "Mesmo com o recurso à ELA, a actual situação de liquidez não basta para garantir a capacidade da entidade supervisionada de cumprir todas as responsabilidades devidas a 7 de Junho", indica o documento.

 

Veio assim a conclusão do próprio banco espanhol: estava em situação próxima insolvência. O BCE também assim decidiu. A 7 de Junho, o Conselho Único de Resolução determinou a venda por um euro do Popular ao Santander, numa medida de resolução, com perdas para accionistas e detentores de dívida subordinada. O banco do Popular em Portugal foi também alienado ao grupo espanhol. 

Aliás, no relato, é referido que o Banco Popular tem um banco em Portugal, o Banco Popular Portugal, sob supervisão do BCE. Contudo, não há mais informações. A "descrição da situação de financiamento do Banco Popular Portugal" não é divulgada, já que o banco cobre a "informação protegida por segredo profissional e por regras de confidencialidade". 




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