Media E se a compra da dona da TVI falhar? Altice "não vai mudar estratégia"

E se a compra da dona da TVI falhar? Altice "não vai mudar estratégia"

O CEO da Altice Media garante que a aposta na convergência entre media e telecomunicações é para avançar. A criação de um novo campus, novos canais e conteúdos são as apostas para França, o laboratório do grupo para os media.
E se a compra da dona da TVI falhar? Altice "não vai mudar estratégia"
Mafalda Santos
Sara Ribeiro 07 de novembro de 2017 às 18:00

Caso a compra da Media Capital não seja aprovada pela Autoridade da Concorrência (AdC), a estratégia da Altice em apostar na convergência entre media e telecomunicações nos mercados onde marca presença "não vai mudar". A garantia foi dada por Alain Weill, presidente executivo da Altice Media, (na foto) durante um encontro em Paris, França, com alguns jornalistas portugueses.

 

Uma hipótese que o responsável acredita que não vai estar em cima da mesa, uma vez que está "optimista" na operação, juntado-se, assim, ao coro de vozes da Altice que tem manifestado total confiança na concretização do negócio. 

 

A compra de outros activos de media em Portugal "não é o problema do momento". "Mas porque não?", referiu. Caso a venda não avance, "a nossa estratégia não vai mudar. A convergência entre activos de media e de telecomunicações é positiva para o grupo e vai continuar", sublinhou.

 

O responsável admitiu que a Altice esteve a olhar para outros grupos de media portugueses antes de ter decidido avançar com uma proposta de 440 milhões de euros pela dona da TVI, que é "líder de mercado", acrescentou, para justificar a escolha pela Media Capital. Alain Weill não detalhou, contudo, as empresas de media com quem a Altice esteve em conversações.

 

Questionado sobre a pressão que a Altice tem enfrentado dos rivais, o CEO da Altice Media comentou que é algo normal neste tipo de operações.

 

"Estou optimista" com desfecho da compra da Media Capital, liderada por Rosa Cullell, com quem Alain Weill se reuniu uma vez, até ao momento, e que do que depender da Altice permanecerá nos comandos da empresa. "Esta operação é positiva para todos os envolvidos e para Portugal", apontou.

 

A nova casa da Altice

 

O encontro com o CEO da Altice Media decorreu na actual sede da NextRadio TV, empresa de media fundada por Alain Weill e comprada pelo grupo de Patrick Drahi em 2015.

 

Ao percorrer os corredores do edifício, é visível o acesso à tecnologia de vanguarda pelos canais de rádio e televisão da empresa, entre os quais a BFM TV, SFR Sports ou a RMC Radio. 

 

Desde que a Altice adquiriu a empresa de media, que tem a rádio na sua génese, foram lançados mais sete canais de televisão, a maioria com a chancela SFR - marca da operadora da Altice em França que vai passar a operar com o nome do grupo, no âmbito da estratégia global já anunciada. Estes passos levaram a um impacto negativo de 20 milhões de euros nas contas da empresa, mas também à criação de 200 postos de trabalho.

 

Aliás, a casa da NextRadio Tv já é pequena para as actuais operações e número de trabalhadores, que rondam os 1.200. Em breve, dentro de seis a oito meses, vão mudar-se para o Altice Campus, que se situa a 15 minutos a pé da actual sede e vai agregar todas as empresas e trabalhadores da Altice. 

 

A nova sede da Altice, que ainda está em construção, deverá estar pronta para receber os cerca de 5 mil trabalhadores da NextRadio TV e da SFR até 2019. A Meo, por exemplo, tem cerca de 9.600 funcionários.

 

O laboratório de media da Altice

 

Como Alain Weill sublinhou por mais de uma vez, a compra da Media Capital, e a respectiva estratégia, é semelhante à da NextRadio TV.

 

Novos canais - entre os quais regionais -, produção de mais conteúdos como filmes e séries e o reforço no digital são algumas das apostas na área dos media que têm sido feitas pela Altice em França. No universo online, as soluções da plataforma de publicidade online Teads, comprada este ano pelo grupo, também já estão a ser testadas, através de um projecto piloto, no mercado francês.

 

O lançamento de três novos canais nacionais e cinco a 10 novos canais regionais - em Lyon, Toulouse, Nice e Marselha - também está nos planos do grupo para o mercado de origem. Em Portugal, caso avancem com a compra da Media Capital, estão previsto lançar pelo menos dois: Lisboa e Porto.

 

Em França, a aposta é em maior escala e já arrancou há um ano com o BFM Paris, canal que no mês de Setembro contou com dois milhões de telespectadores ao longo do mês. Já a BFM TV, que emprega 350 pessoas, tem um share de 2,5%, 10 milhões de seguidores diários. A RMC Radio, por sua vez, conta com 150 trabalhadores e 4,2 milhões de ouvintes diariamente.

 

Apesar do interesse da Altice em reforçar a aposta na produção de séries e filmes - a criação de um hub na Plural (da Media Capital) faz parte das intenções do grupo - os conteúdos desportivos continuam a ser os que representam a mais despesa. "São os conteúdos mais caros", disse François Pesenti, director geral da SFR Sports, que à semelhança da Sport TV, tem cinco canais de desporto "premium", vendidos em pacote.

 

O responsável adiantou que depois da Altice ter garantido os direitos da liga inglesa para França, a partir do próximo ano vai começar a transmitir os jogos da Liga dos Campeões - considerada a prova rainha. Além disso, estão sempre em constantes negociações para tentarem aumentar a sua oferta que vai desde o futebol, basquetebol até ao rugby.

 

Os jogos do campeonato de futebol português também passam no canal desde o ano passado. Quais são os jogos mais vistos? "Os do Benfica claro", comentou o responsável do canal que conta com cerca de 200 jornalistas.

 

A expansão do canal económico BFM Business TV a outros mercados, como África, também não é excluída pela empresa, apesar de não estar nada decidido. Este canal conta com 1 milhão de ouvintes e telespectadores por dia. Tal

como os outros canais, tem transmissão em simultâneo para a rádio. 

 

A crise da imprensa

 

Antes de adquirir a NextRadio TV, a Altice tinha investido na área de imprensa através da revista semanal L’Express e do jornal diário Libération.

 

Os jornalistas destes títulos foram os primeiros a estrear o novo Altice Campus. "Mudámo-nos há uma semana", contou Guillaume Duboi, director da L’Express, na  nova redacção onde ainda se sente o cheiro das recentes obras.

 

A revista, a mais antiga do país, "infelizmente" já não é líder, e "tal como a imprensa em quase todo o mundo, damos prejuízo", lamentou. Hoje, a revista conta com 120 jornalistas, mas já sofreu uma reestruturação que levou à saída de 50 a 100 pessoas, já depois da Altice ter comprado o título que actualmente vende 300 mil exemplares por edição.

 

Continuando a percorrer o novo edifício, que ainda tem partes em construção, continua-se a sentir o cheiro de paredes acabadas de pintar. Mais à frente, está hospedada a redacção do Libération.

 

Apesar do cheiro a fresco, os problemas sentidos neste espaço são antigos e transversais à indústria: como aumentar as receitas das publicações, principalmente no online. 

 

Sentado na cabeceira da mesa onde eram realizadas as reuniões do jornal satírico Charlie Hebdo - que durante um ano foi acolhido na antiga redacção do Libération depois do ataque terrorista - o director da publicação contou que vão começar a fechar o acesso a alguns conteúdos online para aumentar os subscritores.

 

Laurent Joffrin contou que o jornal gera 40 milhões de receitas e tem 2,5 milhões de visitantes online, "mas não chega. É preciso mais".

 

Uma estratégia que também será seguida pela L’Express, que segundo o seu director, apesar de estarem no mesmo espaço físico, "não tem contacto com o Libération". Aliás, apesar do objectivo ser reforçar a aposta dos vídeos online, Guillaume Duboi é contra a criação de sinergias entre os títulos do grupo, incluindo com canais de TV, por se poder perder a identidade de cada meio.

 

Questionados sobre a influência da Altice nas questões editoriais, todos os responsáveis dos títulos responderam prontamente que não havia qualquer intervenção. "É uma contra-partida que está no contrato desde o início", como apontou o director do Libération.




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