Aviação Embraer enfrenta rota turbulenta para acordo com a Boeing

Embraer enfrenta rota turbulenta para acordo com a Boeing

Tida como uma das mais prestigiadas empresas brasileiras, com ligações próximas ao sistema de defesa e de vigilância das fronteiras, dificilmente Michel Temer quererá deixar os comandos da Embraer, sujeita a uma "golden share" do Estado brasileiro.
Embraer enfrenta rota turbulenta para acordo com a Boeing
REUTERS/Ueslei Marcelino
Bloomberg 22 de dezembro de 2017 às 17:39
Os investidores da Embraer comemoram uma possível parceria com a Boeing, mas só há um accionista que realmente importa.

O governo do Brasil possui uma "golden share", que lhe concede poder de veto sobre uma venda, e o presidente Michel Temer pode hesitar em entregar o controlo da principal empresa de defesa do país a uma entidade estrangeira. As acções da Embraer chegaram a subir 39% em São Paulo esta quinta-feira, 21 de Dezembro, devido à notícia de que a fabricante de aeronaves estava a negociar uma possível venda à Boeing e o Wall Street Journal informou que um acordo implicaria um prémio substancial.

"Se acontecer, é com certeza bom, porque dá para um gringo pagar caro nisso sim. Mas a chance de sair me parece baixa, a Embraer tem área estratégica de defesa, não é trivial um estrangeiro comprá-la", afirmou à Bloomberg Marcos Peixoto, director na XP Investimentos.

As vendas ao governo brasileiro de produtos relacionados com a defesa representaram 9,3% da receita total da Embraer no ano passado. A Embraer fornece aviões projectados para ataque ligeiro e deve começar a entregar ao ministério no próximo ano o mais recente avião de transporte militar, o KC-390. A empresa também fornece tecnologia e serviço ao governo para controlar as fronteiras do país e operar satélites.

Temer não permitirá que o controle da Embraer mude de mãos, garantiram o ministro da Defesa, Raul Jungmann, e o comandante da Força Aérea, Nivaldo Rossato, numa reunião esta quinta-feira, de acordo com o jornal Folha de São Paulo. A publicação acrescentou que o governo foi surpreendido pela notícia do Wall Street Journal sobre as negociações.

"Como deixar que uma empresa dos EUA seja dona de uma importante empresa de defesa no Brasil?", afirmou George Ferguson, analista sénior de transporte aéreo da Bloomberg Intelligence. "Ela é campeã nacional do espaço aéreo no Brasil. Deixar isso aos EUA seria muito confuso."

O Ministério da Defesa e o Itamaraty [sede do ministério dos Negócios Estrangeiros] reencaminharam para o Ministério da Fazenda e para a Presidência os pedidos de comentários feitos pela Bloomberg. O Palácio do Planalto [sede da presidência] preferiu não comentar. Embora o governo seja o principal investidor nos programas de desenvolvimento de defesa da Embraer, a empresa vende aviões de combate e outros produtos para vários países, incluindo os EUA, que compraram seis jactos Super Tucano em Outubro para enviar para o Afeganistão.

Além da sua importância para a defesa do Brasil, a Embraer tem sido muitas vezes apresentada pelo governo como um exemplo brilhante do engenho e do profissionalismo do País. Essa reputação foi abalada nos últimos anos por causa dos escândalos de corrupção, mas a empresa, criada em 1969 pelo governo brasileiro e privatizada em 1994, continua a ser uma das marcas globais mais famosas do Brasil e motivo de orgulho nacional.

"Isto é algo que eu não esperava desde que comecei a acompanhar a Embraer", afirmou Peter Skibitski, analista da Drexel Hamilton em Atlanta. Skibitski escreve sobre a Embraer desde, pelo menos, 2012. "A noção da golden share do governo representava a ideia de que a empresa nunca seria vendida."



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