Empresas Ex-auditora da KPMG mete as mãos no lixo

Ex-auditora da KPMG mete as mãos no lixo

Juliana Oliveira despediu-se da multinacional para tentar salvar a empresa do avô, viu a própria família chumbar o plano de crescimento do negócio e “roubou” um gestor à Unicer para criar a metalomecânica Olimec, na Maia.
Ex-auditora da KPMG mete as mãos no lixo
Paulo Duarte/Negócios
António Larguesa 19 de setembro de 2016 às 21:00
"Não me perdoava se não tentasse fazer algo por aquela empresa fundada pelo meu avô. Nasci no meio de ferro velho e do óleo, essa realidade não me metia confusão. Se não fosse capaz, pelo menos não morria com esse peso". Em Agosto de 2013, a menos de meio ano do limite esboçado para fechar a Joaquim de Oliveira Lda., Juliana saiu da KPMG, onde fazia auditoria financeira, para travar o que o pai, já "totalmente derrotado", dava como inevitável. Acabou por sê-lo, mas por outras razões. Três anos depois, lidera uma start-up pouco comum na metalomecânica, especializada na reparação e manutenção de equipamentos do sector dos resíduos.

Contra a vontade da família e face ao espanto dos amigos, a jovem maiata de 28 anos ficou sem ordenado e depois com o de um estágio profissional, em que ganhava três vez menos do que na consultora. Formada em Economia na Católica, encontrou dois funcionários e um único cliente, da construção civil, que baixava todos os meses o preço da mão-de-obra. Passou as primeiras semanas a "lamber facturas", repetia as análises que estava habituada a fazer na KPMG. Não tardou a perceber que tinha antes de melhorar a habilidade comercial e usar o saber acumulado dos operários com 30 anos de casa.

Até que se lembrou do cheiro a lixo, sentido pela menina de oito anos quando o avô operava quase a 100% com os camiões da Câmara da Maia. Pelo histórico e proximidade das instalações, começou por recuperar a Maiambiente, agora empresa municipal. "Passámos o Dezembro crítico e no segundo ano já trabalhávamos com várias autarquias e quase todas as empresas de resíduos", recuou Juliana Oliveira, dando o exemplo da Ferrovial, SUMA, Recolte, EGEO, Lipor ou EGF. Ganhou visibilidade no sector, sobretudo a Norte, e os empregados dos concorrentes começaram a ligar-lhe a pedir emprego.

O Ferrari num Punto

No Verão passado não conseguiu adiar mais o auxílio na gestão. Desafiou Luís Tavares, que conhecera na KPMG, acabara de ser promovido no controlo de gestão da Unicer e ganhava "uma fortuna". Despediu-se um mês depois e começaram a traçar um plano para expandir o negócio – "não tinha contratado um Ferrari para conduzir um Punto", ilustrou. Apresentou o plano à família na condição de se tornar sócia maioritária com entrada de capital, mas foi rejeitado com o argumento de que o avô não quereria seguir esse caminho.

Avançou com Tavares como sócio e esse plano adaptado para criar a Olimec, em Janeiro. Sem poder ficar à espera do empréstimo da banca, investiram do próprio bolso mais de 90 mil euros no "necessário" para arrancar a operação de raiz. Só um stock de parafusos custa 3.000 euros.

Trocou o fato de executiva por calças largas e botas que deixam pegadas de lixo quando vai arranjar as unhas à cabeleireira. Ainda não se arrependeu. Emprega dez pessoas na zona industrial, conta facturar meio milhão de euros no final do ano e tem o primeiro projecto internacional à espera de aprovação na Costa do Marfim.


tome nota Inovação em PDF e estigma sem uma "app" A CEO da Olimec, Juliana Oliveira, reconhece que lidera uma jovem empresa que "não é de todo convencional" no universo das start-ups e que tem uma forma de inovar que só os clientes entendem.

Preconceito no mundo das start-ups
Juliana Oliveira diz que sente "algum preconceito e estigma" por liderar uma start-up no sector da metalomecânica. Além de não ser um negócio "feminino" (como uma loja de decoração ou um blogue sobre viagens, ironiza) também não precisa, por exemplo, de ter… uma "app".

Inovar coisas simples num sector maduro
"Operar num sector tradicional e dar que falar pela excelência do serviço prestado, isso não é inovador?", questiona a jovem empresária, sustentando que chegou a ter um cliente a dizer-lhe que "nunca ninguém lhe tinha enviado um orçamento no próprio dia, com duas versões, em formato PDF e por e-mail". "Toda a gente nos agradece isso", nota.

Serralheiros em vez de engenheiros
Além da questão da inovação, que tem dificuldade em encaixar nos parâmetros das candidaturas ao Portugal 2020, por exemplo, perguntam-lhe se não vão contratar mão-de-obra dita qualificada. "Não vamos contratar engenheiros mecânicos quando temos é necessidade de ter mais mecânicos e serralheiros", desabafa.

Parceria com Lipor na Costa do Marfim
Há meses esteve em Moçambique para contactos, até porque quase todas as clientes estão nos PALOP. "Não deu em nada" e o primeiro projecto internacional a avançar, a aguardar aprovação na Costa do Marfim, foi apresentado em parceria com a Lipor, prevendo a gestão global de resíduos, desde contentorização, recolha, manutenção, formação e sensibilização.



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mais votado ricardoreis4 19.09.2016

Parabéns Juliana, começar uma empresa do zero não é fácil.
Mas resumindo o artigo, que mal se consegue entender, a Juliana saiu da KPMG para ajudar a empresa que o avô fundou, mas acabou por criar uma empresa concorrente? Acabou por ajudar a piorar o negócio da família.

Metendo os negócios num lugar e a família num outro, sem duvida que viu uma oportunidade e decidiu aproveitar. Boa sorte com o futuro.

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Parabéns JOliveira

Elisiário AB 25.09.2016

Mulher valente!

T.pires 21.09.2016

Aprendemos nisto que as empresas de consultoria são o cancro e as sanguessugas de uma economia que deveria era de crescer criando serviços de valor e produtos como esta empresa.

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