Indústria Fabricante de eólicas dá formação para resolver falta de operários

Fabricante de eólicas dá formação para resolver falta de operários

Oxicorte, calandragem, soldadura e serralharia são especialidades em que falta mão-de-obra qualificada. Com o Estado a falhar na formação profissional, as empresas do metal são forçadas a avançar com programas internos.
Fabricante de eólicas dá formação para resolver falta de operários
Direitos Reservados
António Larguesa 23 de outubro de 2017 às 15:58

"Ainda este ano abrimos uma nova unidade de produção, para a qual necessitaríamos de contratar 50 colaboradores, e só conseguimos contratar metade", desabafa Adelino Costa Matos. A falta de mão-de-obra não é uma ameaça exclusiva desta empresa ou do sector da metalurgia e metalomecânica em que actua; abrange várias indústrias, como o têxtil ou o calçado. Mas a solução está prestes a avançar dentro de portas, gratuita para os interessados.

 

Do lamento à acção, o presidente executivo da ASM Industries decidiu criar um programa interno para formar pessoal não qualificado que queira trabalhar na produção de torres eólicas, atacando desta forma a "enorme escassez de profissionais experientes, quer a nível nacional quer internacional", assim como a verbalizada dificuldade extrema em contratar funcionários para as unidades localizadas em Sever do Vouga, no distrito de Aveiro.

 

O primeiro curso arranca em Novembro e é dedicado às áreas de oxicorte, calandragem, soldadura e serralharia, apontadas como "essenciais" à actividade da ASM Industries. Caso completem a formação com nota positiva nos "exames [feitos] de acordo com normas internacionais", os formandos têm emprego garantido nesta que é uma das três unidades de negócio do grupo A. Silva Matos – fundado em 1980 por Adelino Silva Matos e pela mulher, Edite da Costa e Silva Matos –, constituído por mais de vinte empresas, que facturam cerca de 50 milhões de euros e onde trabalham 450 pessoas.

 

Prevendo avançar com novas edições a cada dois meses e formar perto de uma centena de pessoas em dois anos, o programa inclui 16 horas de formação teórica em sala, 160 horas de prática em bancada na escola de soldadura e outras 160 horas de prática em contexto real de trabalho. O director de operações, três engenheiros de soldadura e os supervisores de produção com três décadas de "chão de fábrica" asseguram a formação.

 

Quais as condições oferecidas no final da formação? "Um valor para início de contrato superior ao salário mínimo nacional, abrindo portas a uma carreira profissional com salários acima da média nacional, já que falamos de profissões onde existe uma grande carência de pessoal qualificado", sustenta Adelino Costa Matos, o mais novo dos três filhos do fundador, que em Janeiro de 2017 assumiu também a presidência da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE).

 

Metal com 20 mil operários em falta

 

A ASM Energia, a ASM Offshore e a ASM Marine, incluídas nesta sub-holding do grupo A. Silva Matos, são três das cerca de 15 mil empresas do sector da metalurgia e metalomecânica, que dá emprego a 200 mil pessoas e que lidera as exportações em Portugal. Nas vendas ao exterior, o crescimento homólogo de 12% registado até Agosto faz a associação dos industriais do sector (AIMMAP) perspectivar um valor recorde próximo de 16 mil milhões de euros no final deste ano.

 

No entanto, nos últimos meses têm soado vários alertas sobre a cada vez mais escassa disponibilidade de profissionais qualificados, que são precisamente um dos argumentos para que Portugal se esteja a consolidar como destino de investimento para empresas internacionais que fabricam desde peças para automóveis até sanitários em inox. O porta-voz da AIMMAP, Rafael Campos Pereira, já dramatizou que no final deste ano haverá 20 mil operários em falta nesta indústria, impedindo-a assim de crescer a um ritmo superior, protestando contra a falta de envolvimento do Governo na área da formação profissional.



É precisamente para discutir e alertar para este problema, que envolve a cativação de milhões de euros por parte do Estado a impedir o centro de formação do sector (Cenfim) de abrir novas turmas de primeiro ano, que a AIMMAP vai realizar na tarde desta quinta-feira, 26 de Outubro, uma conferência com o tema "Formação - Desafios de Competitividade". O auditório da Fundação Cupertino de Miranda, no Porto, vai receber alguns dos maiores empresários do sector, representantes de instituições de Ensino Superior e entidades de formação profissional, cabendo o encerramento ao secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita.




A sua opinião11
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Anónimo Há 3 semanas

Abram concursos internacionais. Os mercados de factores são globais.

comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Li a noticia através do Linkdin, o que me pareceu " uma barbaridade" não há falta destes profissionais altamente qualificados nestas área simplesmente há falta de ordenados qualificados. Por outro lado pedem requisitos profissionais que por vezes não passam pela cabeça de ninguém.

Anónimo Há 3 semanas

Os salários ou o custo do trabalho em Portugal são mais reduzidos do que noutras economias mais ricas e desenvolvidas do que a portuguesa, mas o que se passa é que aí as empresas gozam de economias de escala que as empresas portuguesas só atingiriam se se internacionalizassem. E o que é facto é que muito raramente isso acontece porque sindicatos e esquerda não deixam que se reúnam as condições para que tal aconteça. Por outro lado, e não menos importante, há que salientar que o sector empresarial dessas economias mais ricas e desenvolvidas tem uma muito maior alocação de capital com grande incorporação de tecnologia de ponta, económica e eficiente, que poupa enormemente em factor trabalho. Uma coisa é ter 200 assalariados a ganhar 1000 outra é ter 50 a ganhar 2000 para produzir o dobro do que se consegue produzir empregando os primeiros.

Anónimo Há 3 semanas

Sabem porque é que oxicorte, calandragem, soldadura e serralharia são especialidades em que falta mão-de-obra qualificada a nível industrial na economia portuguesa? Porque no Primeiríssimo Mundo, do qual Poortugal não faz parte por culpa de sindicalistas, corruptos e geringonceiros, oxicorte, calandragem, soldadura e serralharia industrial está a ser integralmente automatizada por obra e graça de talento e capital adequado, qualificado se assim desejarem denominá-lo, que foi devidamente alocado para esse fim. Logo, oxicorte, calandragem, soldadura e serralharia manual, são especialidades que se integram cada vez mais no conjunto de especialidades do passado, hoje tidas como obsoletas.

Anónimo Há 3 semanas

Abram concursos internacionais. Os mercados de factores são globais.

ver mais comentários
pub