Automóvel Fim do diesel melhorará qualidade do ar mas não chega, dizem especialistas

Fim do diesel melhorará qualidade do ar mas não chega, dizem especialistas

O fim de carros a gasóleo trará benefícios para a saúde das cidades, mas só haverá ganhos em termos de alterações climáticas se o mundo se virar para as energias renováveis de vez, segundo especialistas ouvidos pela Lusa.
Fim do diesel melhorará qualidade do ar mas não chega, dizem especialistas
Miguel Baltazar/Negócios
Lusa 25 de outubro de 2017 às 09:06
O investigador Filipe Duarte Santos, da Universidade de Lisboa, e presidente do Conselho Nacional para o Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, disse à Lusa que o fim do diesel trará melhorias na qualidade do ar, mas só haverá efeito se "diminuir a tendência para a utilização de combustíveis fósseis".

O "carbono negro", ou a fuligem provocada pela combustão de diesel, também contribui para o aquecimento global, quando, por força dos ventos, vai parar aos picos gélidos "dos Himalaias ou dos Alpes, por hipótese", escurecendo-os, fazendo aumentar a radiação e a temperatura.

O presidente da associação ambientalista Quercus, João Branco, disse à Agência Lusa que o fim do diesel trará "uma melhoria enorme para a qualidade do ar nas cidades".

Passar do diesel para energias limpas, como os carros eléctricos, vai diminuir a presença no ar de "partículas sólidas que se acumulam nos pulmões", mas o impacto do fim do diesel a nível global "vai depender da velocidade a que se muda da produção de energia a partir de fontes fósseis para fontes renováveis", considerou.

Filipe Duarte Santos explicou que a combustão do diesel liberta "partículas finíssimas" para a atmosfera e que quando estas se depositam em zonas de glaciares, ficam a absorver radiação e a gerar calor que os derrete.

Em Setembro deste ano, investigadores noruegueses, austríacos e suíços publicaram um estudo em que identificavam o excesso de emissões do cancerígeno óxido de nitrogénio dos motores de veículos a gasóleo como responsável por dez mil mortes prematuras por ano na União Europeia, Noruega e Suíça.

Metade dessas mortes, de doenças respiratórias e cardiovasculares, decorria do desrespeito das marcas pelos limites do óxido de nitrogénio permitidos.

Com cem milhões de carros a gasóleo em circulação só na Europa, a proporção é o dobro do resto do mundo, concluíram os investigadores.

Filipe Duarte Santos lembrou que "80% das fontes de energia primária vêm do carvão, petróleo e gás natural", a mais poluente das quais é o carvão.

João Branco salientou que na progressão dos carros de combustão interna para carros eléctricos tem que ser acautelada a produção de energia eléctrica, que ainda depende de fontes altamente poluentes, como o carvão.

"As energias renováveis, exceptuando a solar, hoje ainda não são competitivas em termos de valor de mercado, se desse lucro produzir energias renováveis já ninguém queimava carvão", apontou.

"Se amanhã fossem proibidos os carros de combustão interna e todos passassem a ser eléctricos, a qualidade do ar nos centros urbanos ia melhorar mas não há um sistema energético preparado, não haveria capacidade de fornecer energia eléctrica a todos esses carros", ilustrou.

Portugal revela posição sobre carros a diesel após conclusão do roteiro para a neutralidade carbónica

A posição de Portugal sobre circulação de veículos ligeiros movidos a gasóleo, cuja proibição foi decretada por várias cidades europeias até 2025, será conhecida após a conclusão do roteiro para a neutralidade carbónica.

Em resposta a uma questão da agência Lusa, o Ministério do Ambiente referiu que a posição nacional será conhecida depois da conclusão do roteiro, elaborado no âmbito da meta para atingir a neutralidade carbónica em 2050, ou seja, reduzir as emissões de dióxido de carbono e conseguir "anular" as restantes.

No passado dia 11, o primeiro-ministro, António Costa, afirmou que o Governo vai iniciar, no próximo ano, a revisão da fiscalidade sobre os combustíveis, visando internalizar os impactos ambientais, e revitalizará a taxa de carbono com o estabelecimento de preços mínimos.

Na sessão de lançamento da iniciativa "Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050", o primeiro-ministro considerou "fundamental alinhar o sistema fiscal com o objectiva de descarbonização, eliminando os sinais errados dados à economia, pelos incentivos aos combustíveis fósseis que ainda persistem".

Deste modo, de acordo com o líder do executivo, em 2018 iniciar-se-á "uma análise aprofundada da fiscalidade sobre os combustíveis, de forma a serem devidamente internalizados os impactos ambientais associados à sua utilização".

"Em paralelo, iremos revitalizar a taxa de carbono e estabelecer preços mínimos a adoptar nos próximos anos, à semelhança do que outros países europeus fizeram e reconhecendo que só com um preço de carbono forte se operará esta transição", advertiu.

Na mesma ocasião, o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, reconheceu que o objectivo da neutralidade carbónica até 2050 é um desafio "ambicioso", mas frisou que Portugal "tem de estar na linha da frente".

Em 12 de Outubro, o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, informou à Lusa que Lisboa e Vale do Tejo terá até ao final do ano um plano para situações de poluição do ar, estando a ser ponderadas medidas como inibição de entrada de veículos na capital.

Entre as medidas previstas está a possibilidade de "inibir os veículos de irem para determinadas zonas da cidade, inibir mesmo a sua entrada, reduzir o número de veículos através das matrículas ou através do combustível que consomem", explicou o governante.

"O plano está em vias de ser aprovado e passar a ser uma referência para a política do ar em Portugal, esperamos que essas medidas possam ser levadas a outras cidades", num desafio em conjugação com os municípios, acrescentou.

No final de Agosto, o Diário de Notícias fez um balanço de anúncios de proibições na Europa sobre viaturas ligeiras com motor movido a gasóleo e referiu haver, até ao momento, 11 cidades, incluindo Madrid e Paris, que se comprometeram a barrar a entrada até 2025.

"E, ainda antes disso, só será permitida a circulação dos modelos mais recentes e mais amigos do ambiente. Ou seja, posteriores a 2014", segundo o trabalho do jornal diário.



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comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Vamos acabar com o diesel e por toda a gente a comprar a gasolina para reduzir o nível de Nox nas cidades.
Ah, mas espera... com o aumento dos carros a gasolina voltam a subir os níveis de CO2.

Anónimo Há 3 semanas

E por toda a gente a andar a pe. Assim a qualidade do ar aumenta com o cheiro a sovaco

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