Trading Monet é melhor que a bolsa? A arte como investimento

Monet é melhor que a bolsa? A arte como investimento

Toda a gente adora histórias sobre coleccionadores que compraram obras de arte por tostões e as venderam por milhões. Muito raramente, isto acontece. No entanto, paisagens e retratos de impressionistas como Monet, Renoir e Degas muitas vezes foram considerados investimentos mesmo antes de a tinta ter secado.
Monet é melhor que a bolsa? A arte como investimento
Les Arceaux de Roses é uma pintura a óleo de roseiras em arcos com 94 centímetros de largura, de 1913
Bloomberg 22 de outubro de 2017 às 15:00

Na década de 1920, o investimento em quadros do Movimento Impressionista era tão disseminado que a correspondente da revista New Yorker em Paris, Janet Flanner, escreveu em 1926 que "com as moedas e activos industriais na Europa a flutuar destrutivamente, a arte moderna importante, quando comprada de modo antecipado e modesto e não tarde e de forma cara, ainda é o investimento mais vistoso daqui".

 

Se continua a ser frutuoso não é claro. Em termos absolutos em dólares, os preços pagos pelas pinturas nos anos 20 não são nada comparado com o que valem hoje. Mas como se comparam a investimentos mais tradicionais, como as acções mais líquidas da bolsa de valores?

 

Para fazer esta análise, usámos duas obras que serão leiloadas em Nova Iorque em Novembro e comparámos os seus preços ao longo do tempo com o índice Dow Jones.

 

Graças a compilações conhecidas como catálogos "raisonnés", todas as obras feitas por Monet são conhecidas. O que não se sabe é por quanto e com que frequência todos os quadros foram vendidos. Muitas transacções no mercado de arte são conduzidas a portas fechadas.

 

Também são desconhecidas as circunstâncias dessas transacções no passado. A arte vale tanto quanto o comprador está disposto a pagar. Se um quadro foi colocado à venda num período de volatilidade económica ou vendido numa situação de dificuldade (divórcio, morte ou endividamento) por um valor abaixo do preço de mercado.

 

Também é preciso levar em conta a qualidade do trabalho: se uma pintura é considerada feia ou não reflecte perfeitamente o estilo do artista, é injusto fazer uma extrapolação do seu desempenho individual para o mercado daquele artista.

 

Factores externos afectam sempre o preço e o desempenho de uma obra de arte. Para quem pagou 65.000 dólares por um quadro em 1962, não importa se isso aconteceu sob circunstâncias favoráveis ou tristes, se é "bom" ou "mau". O que ainda importa, 55 anos depois, é se a compra foi um acto visionário ou uma extravagância perdulária.

 

Os quadros

Na nossa avaliação, considerámos os dois Monet mais valiosos oferecidos pela Sotheby’s na venda de arte Moderna e Impressionista, marcada para 14 de Novembro. O primeiro, Les Arceaux de Roses, Giverny, é uma pintura a óleo de roseiras em arcos com 94 centímetros de largura, de 1913, que o próprio pintor ofereceu para ser leiloada com fins de caridade em Maio de 1917.

 

O primeiro registro de venda surge 45 anos depois, na Sotheby’s, por 65.000 dólares. Aquele comprador vendeu a obra no mesmo ano, em 1962, na Christie’s, em Londres. O quadro permaneceu numa colecção privada durante mais 45 anos e foi vendido na Christie’s novamente, em 2007, por 17,8 milhões dólares. A obra será oferecida em Novembro por um valor entre 20 milhões de dólares e 30 milhões de dólares.

 

A segunda tela, Les Glaçons, Bennecourt, que mostra um rio congelado, é maior e foi pintada antes, em 1893. O quadro foi comprado e vendido por cinco pessoas num período de quatro anos e terminou nas mãos da família Havemeyer, de Nova Iorque, em 1897. Ficou na família até 1983, quando foi vendido por 605.000 dólares na Sotheby’s, na mesma cidade. Depois foi vendido em carácter privado duas vezes e agora voltou a leilão, com valor estimado entre 18 milhões e 25 milhões de dólares.

 

Os cálculos

A tela Les Arceaux foi vendida diversas vezes, mas o primeiro registo é de 1962, quando saiu por 65.000 de dólares.

 

Em termos de preço, o Dow avançou 3.097% desde então. Aplicando este percentual de ganho aos 65.000 dólares, o investimento rondaria os 2 milhões de dólares. Porém, este cálculo inicial não contempla dividendos. Segundo o retorno total calculado pela Bloomberg (o valor de 65.000 dólares com todos os dividendos reinvestidos), o ganho chega a 20.419% e, se aplicado aos 65.000, chegaria a 13,3 milhões de dólares. Mesmo assim, se Les Arceaux realmente for vendido por um montante entre 20 milhões a 30 milhões de dólares, será um investimento melhor do que a bolsa.

 

O segundo ponto de dados é a venda realizada em 2007. Desde então, o Dow subiu 84,29%. O investimento feito na altura de quase 18 milhões de dólares resultaria em 32,8 milhões de dólares actualmente. Aplicando o retorno total, o valor aumenta para 40 milhões de dólares. Ou seja, o actual proprietário perdeu pelo menos 10 milhões de dólares ao manter o quadro em vez de aplicar o valor num fundo do índice.

 

Para o Les Glaçons, o único registo é a venda por 605.000 dólares, em 1983. De lá para cá, o Dow teve uma subida de 1.797%, o que deixaria o investimento com um valor equivalente a 11,5 milhões de dólares agora. Incluindo o reinvestimento de dividendos, o retorno total passa para 4.852% ou 30 milhões de dólares — 5 milhões de dólares acima da estimativa máxima para a obra de arte no leilão de Novembro.

 

A conclusão

Na simulação, para quem comprou em 1962, o quadro teria sido um bom investimento. Para quem comprou após a década de 80, o retorno seria decepcionante se comparado ao Dow Jones.

 

Mas falta pelo menos um aspecto crucial: é impossível pendurar na sala e admirar um índice de acções.

(Título original: Does Monet Beat the Dow? How Artworks Perform as an Investment)




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