Media Revolução digital em 20 anos nos media

Revolução digital em 20 anos nos media

Em 1997 havia pouco mais do que seis sites de informação. A partir de 2000, os media foram obrigados a estar no online, um desafio para o qual ainda estão a tentar encontrar uma solução.
Revolução digital em 20 anos nos media
Gabrielle Lurie/Reuters
Sara Ribeiro 23 de novembro de 2017 às 11:00

Há 20 anos nascia o primeiro órgão de comunicação social em Portugal exclusivamente online: o Canal de Negócios, que a partir de 2001 passou a designar-se negocios.pt. Na altura, havia pouco mais do que meia dúzia de sites de informação. E quase todos de âmbito generalista e associados à marca de algum jornal.

A expansão dos media portugueses à esfera digital começou dois anos antes, quando só 6,3% da população tinha acesso à internet. O Jornal de Notícias foi o primeiro diário generalista a lançar-se online, a 26 de Julho de 1995, seguido pelo Público dois meses depois. No final desse ano, o Diário de Notícias também arrancou com a sua edição online. A cronologia foi compilada por Hélder Bastos, professor da Universidade do Porto, no livro publicado em 2011 "Da implementação à estagnação: os primeiro doze anos de ciberjornalismo em Portugal".

"Os media portugueses foram-se adaptando como puderam à era digital, que sempre andou muito mais depressa do que eles nas duas últimas décadas."  Hélder Bastos
Professor na Universidade do Porto, doutorado em Ciências da Comunicação

Olhando para trás, "os media portugueses foram-se adaptando, como puderam, à era digital, que sempre andou muito mais depressa do que eles nas duas últimas décadas", disse ao Negócios Hélder Bastos, doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. "Em geral, a adaptação foi lenta e inadequada em termos de meios (sobretudo humanos e financeiros), de conteúdos e de linguagens", acrescentou.

No final de 1996, data em que também nasceu a TSF Online, "o mercado de trabalho na área dos novos media era ainda muito incipiente. A maior parte dos diários nem sequer tinha jornalistas a tempo inteiro nas suas edições electrónicas", relembra o professor no mesmo livro.

Aos poucos e poucos, os principais órgãos de comunicação social iam seguindo o caminho do digital, como foi o caso do Expresso em 1997 e do Correio da Manhã em 1998. Até porque já ia havendo "target" para esta aposta. "A utilização da internet não era como é hoje", recordou Pedro Santos Guerreiro, um dos fundadores do Canal de Negócios. Apesar de ainda não haver campanhas publicitárias direccionadas para o online, "já havia muitos leitores", apontou.

O "boom"
O virar do milénio foi marcado por uma fase de euforia com os grupos de media a mergulharem praticamente todos os títulos de informação na internet, mas também a lançarem novas ofertas digitais. O Diário Digital, publicação exclusivamente online lançada em Julho de 1999, é um dos exemplos.

"[O Diário Digital] nasceu antes do tempo. [...] A partir do momento em que os grandes grupos começaram a apostar no online, começou a haver dificuldades." Luís Delgado
Fundador do Diário Digital 


Na altura, Luís Delgado, director do projecto, anunciava o fim "do modelo tradicional de informação", com o lançamento de uma publicação em regime completamente aberto e com actualização de informação em permanência. O site esteve online durante 17 anos. O problema? "Nascemos antes do tempo", disse ao Negócios o empresário que está a negociar a compra das revistas da Impresa. "Os primeiros 10 a 12 anos correram muito bem, mas a partir do momento em que os grandes grupos de media começaram a apostar no online começou a haver dificuldades", nomeadamente na distribuição das receitas publicitárias. "O bolo começou a ser dividido por muitos", reforçou.

O "boom" da internet beneficiou as plataformas online dos media a nível global em termos de leitores. A actualização de notícias passou a ser imediata e em permanência. "Antes, as pessoas esperavam pela edição do jornal do dia seguinte. Hoje, a informação é instantânea", referiu Arons de Carvalho, actualmente membro do regulador dos media (ERC).

Com o foco no online, as vendas dos jornais foram caindo. As receitas publicitárias digitais não eram suficientes para sustentar todos os projectos que foram nascendo, o que levou a que a partir do ano 2000 as empresas começassem a reduzir o número de trabalhadores e, em alguns casos, a fechar.

Uma situação agravada nos últimos anos: "A deficiente resposta dos media aos gigantescos desafios colocados pela era digital foi, sobretudo na última década, agravada por diversos factores: crise da economia e precarização do emprego no sector; apropriação de grupos de comunicação social por grupos de interesses alheios à função social dos media; má gestão e erros de estratégia; mudanças no mercado dos média; e entrada em cena de fortíssimos novos protagonistas (como o Google Facebook)", bem como as "alterações nos hábitos de consumo", elencou Hélder Bastos.

A juntar à queda da venda de jornais, que tem acelerado, "ninguém paga por informação digital", sublinhou Luís Delgado. Isto apesar de o hábito de ler notícias no telemóvel ou tablet, por exemplo, ter quadruplicado nos últimos cinco anos. A solução? "Encontrar um modelo de equilíbrio" entre os dois meios. Já Arons de Carvalho, acrescenta que o "sector tem sido obrigado a adaptar-se ao digital. E é crucial que encontre auto-regulação". Tendo em conta o recente fenómeno da disseminação de notícias falsas, alerta ainda que "a regulação é cada vez mais necessária".





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