Empresas Trump trava negócios da Colep no México

Trump trava negócios da Colep no México

A empresa portuguesa de embalagens e enchimento de produtos comprou uma fábrica mexicana para deslocalizar produção dos Estados Unidos, que atravessa uma "indefinição" devido ao proteccionismo da nova administração.
Trump trava negócios da Colep no México
António Larguesa 15 de maio de 2018 às 17:29

A actividade industrial da Colep no México está numa fase de "indefinição" desde a eleição de Donald Trump. Em causa estão as políticas proteccionistas defendidas pela nova administração americana e que podem afectar este mercado vizinho, no qual a empresa portuguesa entrara por aquisição com o objectivo de iniciar operações na América Central e do Norte.

 

"Estávamos com negociações importantes para trazer negócio dos EUA para o México e as coisas parararam. Ninguém assume a decisão de tranferir para o México coisas que estão a ser produzidas nos EUA sem saber qual vai ser o regime legal que será seguido", admitiu o presidente executivo, Vítor Neves.

 

Foi no final de 2013, longe de imaginar que o milionário Trump iria chegar à Casa Branca "disponível para rasgar todos os tratados", que a empresa de embalagens de Vale de Cambra, pertencente ao grupo RAR, comprou a fabricante mexicana Aerosoles y Liquidos S.A, instalada na localidade de Santiago de Querétaro.

 

Durante uma conferência organizada pela principal associação do sector (AIMMAP), na Fundação de Serralves, o gestor nortenho recordou que a Colep entrou no México "para ser a plataforma de penetração nos EUA e, passados uns anos, há toda esta incerteza com Donald Trump". "Não sabemos o que vai acontecer a seguir, mas acho que vai ter grandes implicações. As coisas estão em indefinição. Veremos o que acontece e como teremos depois de actuar", acrescentou.

 

Com uma facturação global a rondar os 470 milhões de euros – 80% feita com clientes que são gigantes do grande consumo, como a Colgate, Unilever, Procter & Gamble ou Beiersdorf (Nívea) –, a empresa tem presença em Portugal, Brasil, Alemanha, México, Polónica, Espanha, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido, onde emprega cerca de 2.800 pessoas.

 

Fundada em 1965, começou a exportar nos anos 1980 e reclama actualmente a liderança no mercado mundial de embalagens e enchimento de produtos de higiene pessoal, cosmética, higiene do lar e de parafarmácia de venda livre. Detida até 1994 pelo seu empreendedor e depois até 2001 por uma "private equity" que ajudou na internacionalização, a Colep integra desde o início do século o conglomerado RAR, que Vítor Neves garantiu dar "uma grande liberdade em termos estratégicos e de gestão".

 

Cultura e mão-de-obra

 

Sem desvalorizar as competências técnicas necessárias ao crescimento das empresas, neste debate sobre "a nova globalização", o presidente executivo da Colep aludiu ao problema das "questões geo-políticas interferirem nos negócios" e considerou mesmo os aspectos ligados às diferenças culturais – "as formas de operar em cada mercado, como cada país está organizado e como actuar com as pessoas nos vários países" – como "o aspecto mais crítico" para a empresa, já que "os modelos de negócios estão consolidados".

 

Lembrando os vários modelos accionistas que a empresa teve nos últimos 30 anos – "já comprámos muitas coisas, mas tb já fui vendido três vezes e sobrevivi" –, Vítor Neves recordou que "parte significativa" do crescimento da empresa adveio de fusões e aquisições e reconheceu que "continuará a ser" este o modelo. E sem colocar as questões de capital nos desafios, com o argumento de que a empresa sempre conseguiu gerar fundos para remunerar os accionistas e para investir, elencou "o problema da mão-de-obra qualificada" que, mais do que em Portugal, se coloca na Alemanha onde também tem fábricas e onde "neste momento é terrível encontrar" trabalhadores.




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