Indústria Naufrágio dá força à Amorim na defesa da cortiça

Naufrágio dá força à Amorim na defesa da cortiça

Quando mergulhadores, em 2010, resgataram 162 garrafas de champanhe de um navio naufragado no fundo do Mar Báltico e provaram a bebida quando ela chegou à superfície, surpreenderam-se ao descobrir como o espumante tinha envelhecido bem após quase dois séculos debaixo de água.
Naufrágio dá força à Amorim na defesa da cortiça
Ricardo Meireles/Sábado
Bloomberg 01 de março de 2017 às 19:30

Como os rótulos haviam sido lavados há tempos, os especialistas tiveram que confiar nas gravuras das rolhas de cortiça para determinar que o champanhe de 170 anos de antiguidade foi produzido por fabricantes de França. Naturalmente, os responsáveis telefonaram para a Corticeira Amorim, a maior produtora de rolhas de cortiça do mundo, para substituir as rolhas.

 

Para António Rios Amorim, CEO da Corticeira Amorim, o facto de 79 garrafas ainda terem podido ser bebidas é mais uma prova das virtudes das rolhas de cortiça na preservação dos champanhes e vinhos mais finos do mundo. Uma das garrafas - um Veuve Clicquot – foi vendida posteriormente por 30.000 euros num leilão, o que representa um recorde.

 

Trata-se de uma questão que António Rios Amorim deseja enfatizar num momento em que está a tomar medidas para restaurar a fé no recurso natural, que perdeu parte de seu apelo nos anos 1990 e no início dos anos 2000 devido a uma contaminação de uma fracção de rolhas de cortiça que produz um gosto "de rolha" e que estraga uma minúscula percentagem dos vinhos engarrafados a cada ano, segundo a Cork Quality Council, uma organização sem fins lucrativos.

 

O advento das rolhas e tampas sintéticas desafiou produtoras como a Corticeira Amorim a melhorar os seus produtos e explorar novas fontes de receita.

 

Produto de exportação

"Isso prova que existe apenas um produto no mundo capaz de garantir a qualidade e a longevidade de vinhos e champanhes", disse António Rios Amorim, de 49 anos, em entrevista em Mozelos, no norte de Portugal, onde fica a sede da empresa fundada pelo seu tetravô em 1870. "Esse champanhe não teria sobrevivido com tampas de plástico ou de alumínio."

 

A cortiça é um dos principais produtos de exportação de Portugal, que fabrica cerca de metade da cortiça do mundo e exporta cerca de 940 milhões de euros por ano em produtos à base de cortiça, segundo a Associação Portuguesa da Cortiça, um consórcio de produtores e fabricantes de cortiça. As rolhas de cortiça para vinho e champanhe respondem pelo grosso dessas exportações.

 

A Corticeira Amorim também chegou a considerar optar por alternativas de plástico e metal antes de decidir permanecer com aquilo que conhece melhor. A companhia investiu cerca de 200 milhões de euros para encontrar uma forma de produzir rolhas de cortiça naturais sem contaminantes e para desenvolver outros produtos, como chinelos e soluções de revestimento leves para comboios de alta velocidade.

 

"A procura por produtos de luxo nos EUA e em outros mercados está a aumentar e os vinhos que usam rolhas de cortiça são considerados mais luxuosos que os demais", disse José Mota Freitas, analista da Caixa-Banco de Investimento. "A procura por tampas de rosca tem caído em parte devido ao lançamento de rolhas de cortiça de qualidade superior."

 

Aumento dos desafios

Com a procura de cortiça a aumentar, um dos maiores desafios da Amorim é encontrar uma oferta ampla de árvores. O sobreiro, uma árvore de lento crescimento e de onde é extraída a cortiça, demora cerca de 25 anos entre ser plantada até poder ser feita a primeira extracção. E depois demora mais duas campanhas, ou 18 anos, para se produzir cortiça com qualidade suficientemente boa para fabricar rolhas de cortiça.

 

"É muito difícil convencer os donos de terrenos a plantar estas árvores quando têm de esperar tanto tempo para começar a vender cortiça", explicou António Rios Amorim. "Se conseguirmos encurtar este ciclo há um incentivo extra para se plantar carvalhos em vez de oliveiras ou vinhas."

 

Testes levados a cabo por um agricultor na região do Alentejo tiveram sucesso na redução do tempo do primeiro ciclo de extracção da cortiça, através da utilização de fertilizantes e um novo sistema de irrigação.

 

A Corticeira Amorim está a trabalhar com especialistas para alargar esta experiência, plantando carvalhos numa terra com 400 hectares em Portugal e Espanha.

 

"Não há tempo a perder", salientou António Rios Amorim. "Esta empresa tem a responsabilidade de ser líder no sector da cortiça e se não liderarmos, duvido que alguém tenha essa capacidade."




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comentários mais recentes
Ciifrão 02.03.2017

Champanhe com 170 anos deve ser mesmo boa.

Jaime Cardoso 02.03.2017

Sem querer desculpar o redactor deste texto, para quem não saiba e tanto se ri nos comentários, o sobreiro é (mesmo) uma espécie de carvalho! Chama-se "QUERCUS SUBER"! E o carvalho, em geral, pode chamar-se "QUERCUS QUERCUS"! (https://pt.wikipedia.org/wiki/Sobreiro).

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