O Negócios António da Silva Rodrigues: O humilde de Azeméis que “molda” automóveis

António da Silva Rodrigues: O humilde de Azeméis que “molda” automóveis

Nasceu numa família humilde de uma zona rural e construiu a partir de Oliveira de Azeméis – com ramificações em diversos países – um império empresarial na produção de moldes e da injecção de peças plásticas, que reclama a liderança no fornecimento à indústria automóvel.
António da Silva Rodrigues: O humilde de Azeméis que “molda” automóveis
Paulo Duarte
António Larguesa 30 de maio de 2018 às 10:00
Exemplar. Foi assim que o primeiro-ministro classificou o grupo Simoldes numa visita à fábrica de Lille, França, em Abril de 2018, admitindo que os políticos "[tendem] a falar mais da atracção do investimento directo estrangeiro para Portugal, mas é importante também que as empresas portuguesas não tenham medo de partir para o mundo". António Costa felicitou a "vontade" de prosseguir a operação em Oliveira de Azeméis, onde mantém um dos grandes centros mundiais de produção de moldes de alto valor acrescentado, e também "o programa muito ambicioso de investimento, um pouco por todo o mundo, para continuar a servir a indústria automóvel e a contribuir para desenvolvimento e crescimento da economia".

Líder mundial na fabricação de moldes para as construtoras automóveis, com 18 unidades industriais espalhadas por seis países que garantem a proximidade às diferentes marcas, a Simoldes é o resultado de uma vida inteira de trabalho duro, da tomada de risco e da ambição assumida por António da Silva Rodrigues. Nascido em 1942 na aldeia de Ul (onde está a sede de um grupo com volume de negócios global acima dos 600 milhões de euros), completou a quarta classe quando tinha dez anos e, ainda antes de se empregar numa serralharia, decisão que acabaria por marcar o destino desta indústria, ainda trabalhou no campo com os pais e os três irmãos.

Feito comendador por Jorge Sampaio, que em 2006, nos seus derradeiros dias na Presidência, o distinguiu com a Ordem de Mérito Industrial, o empresário nortenho foi considerado pela revista Exame o quinto homem mais rico de Portugal no ano passado, com uma fortuna avaliada em 1.038 milhões de euros. "O empreendedorismo hoje é mais qualificado. Na minha altura era um pouco à aventura. Há o factor sorte, mas a sorte também não passa por nós sem se arriscar", apontou Rodrigues num vídeo recente do projecto local "Tempo de Incluir, Mudar e Empreender". Nele assinala que "o sucesso maior passa por ter funcionários em condições", que devem ser "considerados como familiares ou um amigo", e que "o empresário tem de ter um bom relacionamento de base com os operários, senão não vai a lado nenhum".

Católico e proclamador do "olhar ao próximo como a nós mesmos", dá emprego a cerca de seis mil pessoas (3.600 em Portugal) e aconselha os jovens que estão a arrancar com empresas a trabalhar muito e a serem humildes. "Vai cometer muitos erros, não vai ser tudo fácil. Mas humildade acima de tudo", insiste o líder histórico da Simoldes, que tem o filho Rui Paulo Rodrigues na vice-presidência, e, em retrospectiva, reclama vitória nas fases de dificuldades que atravessou: "Foi na altura das crises que mais consegui crescer. Arriscando e investindo. E quando as crises passavam eu estava preparado já com novos equipamentos e com outras [perspectivas] para avançar. As crises levam-nos a repensar muitas coisas e temos de estar preparados para outros horizontes".

Sem línguas pelo mundo

Foi em 1955 que António Silva Rodrigues começou a trabalhar na Moldoplástico, tornando-se no primeiro empregado desta empresa em que o avô esteve dois anos como sócio e da qual acabou por ser dispensado quando começou a fazer dinheiro. Pouco tempo depois, o neto juntou-se ao avô e a um tio e abriram a sua própria oficina. A 30 de Janeiro de 1959 era assinada a escritura da Simoldes Aços, que começou a trabalhar com cinco pessoas debaixo de um prédio acabado de construir no centro de Oliveira de Azeméis e que nos primeiros anos se dedicou a fazer brinquedos pequenos para clientes no mercado interno. Outra data histórica? Quinze anos depois, a mudança da empresa para as novas e actuais instalações no dia… 25 de Abril de 1974.

CV

António da Silva Rodrigues nasceu em 1942 em Ul, Oliveira de Azeméis, onde criou a primeira empresa e está a sede do grupo. Completou a quarta classe, começou aos dez anos a trabalhar na agricultura e três anos depois entrou como operário numa fábrica. Com controlo total da Simoldes desde os anos 1980, o comendador que patrocina o hóquei da Oliveirense tem um fortuna de 1.038 milhões.


Muito antes da chegada da democracia, porém, já a Simoldes andava a vender pelo mundo. No livro "Indústria de moldes no Norte de Portugal: Protagonistas", editado em 2007 pelo centro tecnológico do sector e coordenado por Eduardo Beira, o empresário conta que foi a exportação que levou a evoluir da cópia para a produção a partir de desenho e que as primeiras vendas no estrangeiro foram para a Planosa, em Vigo, que trabalhava muito para a Citroën; e um molde de seis toneladas para a parte inferior de um painel de instrumentos para a sueca Bofors Plast.

O grupo é constituído actualmente por 34 empresas, sendo 14 da divisão de plásticos (injecção e produção de peças), iniciada nos anos 1980 e que teve o impulso da encomenda de peças para os aspiradores da Hoover e para os carros feitos em Setúbal pela Renault, obrigada a ter uma percentagem fixa de incorporação nacional. Embora varie consoante os anos, em média, exporta para mais de 20 países – destaque para França, Alemanha, Espanha, Suécia, Holanda, Reino Unido e EUA – e tem como clientes finais quase todas as marcas de automóveis, com destaque para a Renault, Peugeot/Citroën, grupo Volkswagen e BMW.

O homem que se estreou a andar de avião numa viagem de trabalho à Venezuela, em 1972, conheceu alguns dos maiores empresários do ramo, como Henrique Neto, nas missões do Fundo Fomento de Exportação. Assumindo desde cedo os negócios externos, contratava sempre um intérprete nessas viagens ao estrangeiro, já que não falava inglês ou francês. Orgulhoso da "mentalidade" que o ajudou a vencer na vida – "nunca fui pessoa de guardar os lucros. Tentei sempre investir na evolução e nunca fui muito gastador. Nem agora sou exibicionista" –, António da Silva Rodrigues, que antes da chegada da troika era um dos principais financiadores do PS, PSD e CDS, já fixou como objectivo quebrar a barreira dos mil milhões de euros de vendas no espaço de cinco anos. 

A minha mentalidade ajudou muito porque nunca fui pessoa de guardar os lucros. Tentei sempre investir na evolução e nunca fui muito gastador. Nem agora sou exibicionista. António da silva rodrigues



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