O Negócios Paulo Azevedo: CEO atípico mostra o que o "professor" Belmiro ensinou

Paulo Azevedo: CEO atípico mostra o que o "professor" Belmiro ensinou

Paulo Azevedo chegou ao mais alto patamar da Sonae, o maior empregador de Portugal. O grupo está lançado e prepara mais uma operação no mercado de capitais. Quando as saídas de bolsa se acumulam, a Sonae vai colocar o seu principal negócio disponível à negociação. Paulo Azevedo partilha a liderança executiva na Sonae com Paupério. Mas foi o filho que Belmiro escolheu para sucessor.
Paulo Azevedo: CEO atípico mostra o que o "professor" Belmiro ensinou
Alexandra Machado 30 de maio de 2018 às 07:00
O nome Azevedo não bastou para ter o passaporte de ascensão à liderança do grupo Sonae. Passou por todas as áreas, mas foi nas telecomunicações que traçou, em definitivo, o seu futuro. Há 15 anos, Paulo Azevedo encontrava-se na Optimus, que lançara em 1998 para ser o terceiro operador móvel em Portugal, concorrendo com a poderosa PT (que tinha a TMN) e com a Telecel (entretanto convertida em Vodafone). Lançou a Optimus, lançou a operação fixa, com a qual queria concorrer com a maior empresa do sector (PT), mas as dificuldades levaram-no a lançar o arrojado projecto de tentar comprar a incumbente. A oferta pública de aquisição (OPA) da "pequena" Sonaecom sobre a "gigante" PT tinha todos os ingredientes: desafiava o BES, a gestão-estrela de Zeinal Bava, e o poderio daquela que outrora fora do Estado e que se tornou pouso de ex-governantes e de muitos interesses.

A compra não foi conseguida, mas a Sonae esteve sempre do lado vencedor. Ficou com o que mais lhe interessava: uma das redes de telecomunicações que estava nas mãos da PT. Não bastou a OPA. Teve de lutar mais por ela. Conseguiu-o através de uma fusão da "sua" Optimus com a convertida Zon (até 2007 foi PT Multimédia, com a rede de televisão por cabo), estabelecendo uma parceria com a empresária angolana Isabel dos Santos. Mesmo não tendo sido bem-sucedido numa aliança com a mesma responsável para a distribuição em Angola.

Nas telecomunicações, porém, conseguiu muitos anos depois o que não tinha conseguido até então. É líder na televisão por subscrição, e disputa taco a taco o resto do negócio com o arqui-rival, com a "sua" Nos, empresa que teve em 2017 um volume de negócios de 1,56 mil milhões de euros (a Sonae só consolida cerca de 25%, já que é detentora de metade do capital da Zopt, empresa que detém 52% da operadora) e lucros de 124 milhões de euros. A Sonaecom, o braço do grupo Sonae para as tecnologias, media e telecomunicações, que foi para a bolsa no ano 2000, já a bolha das "dotcom" estava a rebentar, teve os primeiros lucros em 2004, sob comando de Paulo Azevedo. O sector vivia os primeiros anos da liberalização, e desafiava o poder instalado. Fez queixas à recém-criada (2003) Autoridade da Concorrência e até a Bruxelas. Nada serviu. O plano B foi lançado em Fevereiro de 2006: a OPA. Que mudou a Sonaecom. Que mudou o sector. Que mudou Portugal. E que é um dos negócios que motivou uma das acusações ao ex-primeiro-ministro José Sócrates, no âmbito da Operação Marquês, processo no qual também os ex-presidentes da PT, Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, são arguidos e acusados pelo Ministério Público.

Nunca tivemos medo de ter muitas empresas cotadas, de estarmos sujeitos a críticas e avaliações
Paulo Azevedo


Foram vários os embates da Sonae com os diversos governos. Belmiro de Azevedo era mais crítico em relação a essas dificuldades. Paulo Azevedo sempre tentou ser mais apaziguador. E menos polémico. Até aconselhava o pai a fazer o mesmo, a suavizar o discurso.

Em 2003, Paulo Azevedo estava na Sonaecom, em 2007 foi escolhido para sucessor de Belmiro na liderança executiva da Sonae. Tinha acabado de perder a OPA, travada contra poderosos. Paulo já estava destinado à liderança, mas o desfecho da operação acelerou o processo. Mesmo que uns dias antes do lançamento da OPA em 2006 a Visão o tenha questionado sobre a preparação para suceder a Belmiro no grupo. A resposta: "Hhhuuuummm. Não sei se sou a pessoa que está mais bem preparada."

Era mesmo. E o seu reinado à frente da Sonae, discreto, já tem a sua marca. A Sonae, hoje, envolve-se em poucos negócios que tenham de passar pelo Estado, mas também não o confronta tanto. E reforçou a sua história. A Sonae é um grupo de distribuição, com presença nos centros comerciais e nas telecomunicações em parceria. A Sonae, hoje em dia, prefere assumir que já não é a empresa que não gosta de ter capital sem mando. Mas mesmo nos casos em que não tem a totalidade do capital, tem sempre um forte mando. É da sua natureza.

Como é da natureza do grupo nortenho aproveitar as oportunidades que o mercado de capitais abre. Está, por estes dias, a preparar a dispersão de capital do negócio de retalho alimentar (incluindo a unidade que tem os imóveis associado a este comércio). Em 2006, a Sonae tinha retirado de bolsa a Modelo Continente, que começou a ser cotada em 1987, quando Belmiro de Azevedo colocou, de uma assentada, sete empresas em bolsa, usufruindo, então, de benefícios fiscais pela forma como o fez, operação que ficou para a história como as "sete OPV" e que ainda lhe valeu um processo, entretanto arquivado.

Belmiro de Azevedo defendeu sempre esta "ousadia" da Sonae, sempre, realçou, de acordo com a lei. Em 1987, ainda Ângelo Paupério não estava na Sonae. Entrou dois anos depois para, juntamente com Paulo Azevedo, avançar no projecto de televisão do grupo, tendo conseguido uma posição de relevo na TVI, colocando José Eduardo Moniz à frente da estação. Perdeu a TVI para a Media Capital, então de Pais do Amaral, mas não perdeu dinheiro.

Essa é, aliás, outra das características que ao longo de todos estes anos caracterizou a Sonae: não perder dinheiro, e ir à luta, até à justiça, dure os anos que durar. Foi também ela uma empresa endividada. Quando assumiu a presidência executiva Paulo Azevedo "apanhou" uma empresa com uma dívida acima dos 2 mil milhões de euros. Ainda passou, nesses primeiros anos, a fasquia dos 3 mil milhões. Mas foi estancada e actualmente está em cerca de 1,2 mil milhões. Em 10 anos de Paulo Azevedo, o volume de negócios da Sonae aumentou mil milhões de euros: passou dos 4,63 mil milhões de euros em 2007 para os 5,71 mil milhões em 2017. A Sonae estará preparada para outros voos, mas fá-lo cada vez mais discretamente. E já sem a presença do "professor" Belmiro (morreu no ano passado). Paulo Azevedo até a liderança executiva resolveu partilhar com o seu braço-direito, Ângelo Paupério. "Não tenho ambição pessoal. Tenho muita ambição pela empresa, mas não pessoal", declarou em 2016, quando se descreveu como líder atípico.

CV

Paulo azevedo nasceu no Porto em 1965. No último dia do ano. Licenciou-se em Engenharia Química na Suíça. Fez o percurso dentro da Sonae, passando por todos os negócios no grupo. A entrada da TVI foi um dos seus primeiros projectos. E a OPA sobre a PT considerado o mais ousado. No seguimento dessa oferta, ascendeu à liderança do grupo.   




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