Prémio FLAD.EY BUZZ USA Moldiject: Nova fábrica de Alcobaça quer “injectar” nos carros americanos

Moldiject: Nova fábrica de Alcobaça quer “injectar” nos carros americanos

A produtora de moldes para esquentadores da Bosch e peças para a Porsche conta com a aposta industrial de Trump para entrar no sector automóvel dos Estados Unidos, que era o maior mercado externo nos anos 1980.
Moldiject: Nova fábrica de Alcobaça quer “injectar” nos carros americanos
Licenciada em Engenharia Química Industrial e pós-graduada em Engenharia e Ambiente, Salomé Trigo fez carreira na indústria do papel e na grande distribuição antes de fundar a Moldiject.
Paulo Duarte
António Larguesa 10 de maio de 2017 às 11:45
No lote 45 da Zona Industrial do Casal da Areia, na freguesia de Coz, há uma jovem e pequena empresa de moldes atenta à aposta industrial da administração liderada por Donald Trump. É que, se actualmente Portugal vende moldes para os mexicanos fabricaram os plásticos para o sector automóvel dos Estados Unidos, com a nova orientação política, a "grande esperança" da Moldiject é que as marcas americanas passem a produzir essas peças e a comprarem os moldes à indústria portuguesa.

Eliminar intermediários, melhorar preços de venda e condições de pagamento e "trabalhar com pessoas mais qualificadas tecnicamente e que têm o mesmo discurso de exigência" são algumas das vantagens apontadas por Salomé Trigo, que neste sonho americano também identifica os medicamentos, os dispositivos médicos e a cosmética como áreas de potencial. "Qualquer nicho nos EUA é um 'mercadão' para as indústrias portuguesas. Ainda mais para uma empresa como a minha", resume a sócia-gerente deste negócio fundado em 2013, que emprega 11 pessoas e no ano passado facturou 484 mil euros.


As vendas da Moldiject valem quase meio milhão de euros. Mais de metade das encomendas são estrangeiras.


Mais de metade é feita directamente no estrangeiro. E apesar de o Excel registar vendas a clientes comerciais em Espanha e nas Ilhas Virgens Britânicas, os destinos dos moldes são sobretudo os carros na Alemanha e as torneiras e os relógios na Suíça. O plano da empresária alentejana, 46 anos, é reduzir as dependências do sector automóvel, cujo peso ascende a 80% do total, e também dos mercados europeus. Já fez missões na Argélia e Marrocos e é neste plano de diversificação que se insere também o interesse na América, que nos anos 1980 era o principal cliente dos moldes portugueses, usados para fabricar carros, peças para desporto ou brinquedos.

Do garrafão à "tal peça"

Do portefólio da empresa instalada em Alcobaça fazem parte os moldes que serviram para fabricar um botão para o esquentador inteligente da Bosch ou uma peça para a Porsche. Mas com tantos (e bons e maiores) concorrentes, incluindo naquela região e na zona de Oliveira de Azeméis, as duas zonas mais fortes nesta indústria, a Moldiject "ainda está a tentar encontrar o produto diferenciador, a tal peça". Sabendo, desde já, que a sua especialidade são os moldes "de pequenas dimensões e muito precisos para fazer peças muito exactas", frisa a engenheira química de formação, que fez carreira a desenvolver produtos de marca própria para o Intermarché e para a Jerónimo Martins.

A entrada neste sector acabou por surgir na sequência de um pedido de ajuda para acabar de desenvolver e fazer o registo de uma pega de garrafão, que iria servir de base para a constituição de uma empresa de plásticos e de moldes. "Achei interessante e propus-me entrar no projecto", recorda Salomé Trigo.

A fábrica avançou com um investimento de 900 mil euros, co-financiado pelo QREN, dois dos parceiros saíram logo no arranque e tem como sócio Hugo Oliveira, um jovem engenheiro electrotécnico que está na Alemanha a fazer uma investigação sobre impressão 3D.

11
Trabalhadores
A Moldiject emprega actualmente 11 pessoas. A gestão queixa-se da escassez de mão-de-obra qualificada no sector.


80%
Peso do automóvel
Concentrado na Alemanha, o sector automóvel vale 80% do negócio. Torneiras e relógios suíços são outros clientes.



raio-x

Fazer "pontes" com plástico e fora da fábrica

A líder da Moldiject deixa pistas sobre caminhos a seguir por esta indústria, que teima em viver de costas voltadas a nível comercial.

Fórmulas para aumentar a rentabilidade
 Reduzir o poder do intermediário (comercial de moldes) e trabalhar directamente com o cliente estrangeiro "para ter mais rentabilidade no processo".
 Em vez de apenas fabricar o molde, entrar na injecção de plásticos e passar a fazer os testes e as primeiras séries das peças.

Fornecedores são muitos e de qualidade
 Dos aços às têmperas, passando pelos acessórios e parafusos, os fornecedores são "fundamentais" para garantir rapidez e qualidade.
 Nas duas áreas nucleares desta indústria (Oliveira de Azeméis e Marinha Grande) há "uma grande gama de fornecedores" aptos.

Parceria na indústria não chega às vendas
 A nível industrial, ainda que "de forma informal", trabalha-se em "cluster", subcontratando serviços umas às outras mediante os meios disponíveis nas várias fábricas.
 A cooperação a nível comercial, por outro lado, é inexistente. "Na grande distribuição, de onde vim, éramos todos meninos aos pés desta gente", brinca Salomé Trigo. 



Perguntas a Salomé Trigo
Sócia-gerente da Moldiject

Isto não funcionaria no Cartaxo ou Lisboa

Evolução tecnológica tem valido reconhecimento internacional à indústria de moldes.

Porque se apresentam como empresa tecnológica?
O reconhecimento que esta indústria tem a nível internacional é só pela evolução tecnológica que vem tendo. Retirámos clientes da China porque nos adaptámos tecnologicamente, fazemos moldes para peças que outros não conseguem e agora fazemos em dez semanas, como os chineses. Usamos programas e máquinas de última geração, e pessoas com experiência e que se adaptam a este conceito.

Pensamos ir mais para dentro da Marinha Grande. Temos muita dificuldade em encontrar pessoal qualificado e com experiência. 

Também por isso se instalaram nesta região?
Esta indústria precisa de mão-de-obra qualificada. Nunca uma empresa destas funcionaria no Cartaxo ou em Lisboa. Assenta muito na experiência, no saber-fazer dos moldes. Estamos aqui numa periferia e estamos a pensar ir mais para dentro da Marinha Grande porque temos tido muita dificuldade em encontrar pessoal qualificado e com experiência.

Inflaciona muito os salários?
É incomportável uma empresa como a nossa concorrer com outras muito maiores e mais sólidas, a pagar ordenados infinitos. Normalmente o operário mais bem remunerado é o oficial de bancada. Já tive cá uns cinco e agora tenho um profissional destes, que leva para casa mais de 3.000 euros por mês. 



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