"Benefícios fiscais ajudam, mas não são o objectivo"
04 Agosto 2011, 10:01 por Alexandra Machado | amachado@negocios.pt
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Os benefícios fiscais para a actividade de "business angels" devem ser concentrados em investimentos em empresas na fase de arranque, que comportem riscos. Philippe Gluntz, investidor privado, garante que, no entanto, não investe por causa desses estímulos
Philippe Gluntz, 72 anos, é o presidente da associação francesa de "business angels", France Angels. Esteve em Portugal no Congresso VCIT, organizado pela Gesventures, e foi designado por Francisco Banha como o dinossauro dos "business angels". Philippe Gluntz criou, nos anos 70, a sua empresa, a GSI, onde passou a maior parte da sua vida profissional. A GSI estava ligada aos serviços de tecnologias e foi vendida, em 1995, à ADP. "Tornou-se uma grande empresa". Há cerca de nove anos reformou-se. E tornou-se "business angel". Tem hoje realizados 19 investimentos nesse âmbito. Assume ter tido uma vida activa "interessante". "Lembro-me dos bons momentos em que éramos pequenos. E, aí, aprendemos imenso a gerir empresas". Hoje, coloca esse conhecimento ao serviço das empresas onde investe que estão concentradas na região de Paris e no Sul de França e, sobretudo, na área das tecnologias.



Europa trata bem os "business angels"? A Comissão Europeia olha para esta actividade?
Não o suficiente. Os governos nacionais, em geral, sim. Vi isso em Portugal, com um secretário de estado dedicado ao empreendedorismo, o que é muito bom, vai na boa direcção. Na maior parte dos países, há o reconhecimento da importância dos "business angels" e há apoio, com benefícios fiscais ou subsídios. A nível europeu, não é muito claro, confunde-se 'venture capital' (VC) e investimento dos "anjos". Percebem melhor o capital de risco.

Porquê?
Penso que o mundo do VC é organizado, tem dinheiro suficiente para estar estruturado e tem organizações importantes, vão a reuniões com a União Europeia. No nosso caso, somos mais pequenos, menos poderosos, temos menos dinheiro e somos menos visíveis.

Em França os benefícios fiscais aos "business angels" originou o aparecimento de 70 mil investidores particulares. Isso teve prejuízo na imagem dos verdadeiros "business angels"? Como se previne o caso francês?
Temos de explicar e comunicar muito o que é um "business angels" e o que não é. Um "business angel" quer mesmo ajudar e apoiar um empreendedor e quer investir. É alguém que quer ajudar, mas que não investe apenas por causa dos benefícios fiscais. Estes podem ajudar a assumir maior risco, mas não é o objectivo. É realmente ajudar jovens empresas. Leva tempo a explicar, explicar, explicar e não podemos confundir com deduções fiscais e até com o "crowd funding", que não se querem envolver na companhia. Nós queremos envolver-nos e queremos ser o parceiro para o empreendedor. Leva tempo a explicar.

O que pode acontecer? Os benefícios fiscais acabarem?
Os benefícios fiscais, provavelmente, serão menores na maior parte dos países, porque há restrições orçamentais em todo o lado e tenta-se limitar os benefícios fiscais.

Em França, vão terminar?
No Senado há uma caça aos benefícios fiscais. Mas há uma diferença entre incentivos e benefícios fiscais. Se for para incentivar a investirem onde de outra forma não investiriam então é positivo, se for apenas pelos benefícios fiscais sem incentivo e retorno económico então deveriam terminar. Mas a diferença não é fácil perceber para alguns senadores.

Mas se fosse do Governo o que faria?
Certamente poria fim a alguns benefícios fiscais, como por exemplos os que temos quando se investe nas ex-colónias, nas Caraíbas, isso custa muito ao orçamento. Mas quando se trata de focalizar em tentar que as pessoas invistam em empresas muito inovadoras, na fase inicial, que é muito arriscado, então faz sentido. Reduzir em algumas áreas, e concentrar onde o risco é muito significativo e que de outra forma não investiriam.

Devia haver harmonização fiscal nas deduções desta actividade na Europa?
Não porque a base fiscal é diferente de país para país.... o que pode ser transferido é o sistema de co-investimento público. É uma boa solução, especialmente para as segunda e terceira rondas, onde é difícil para os "business angels" investirem e ainda é cedo para as "venture capital" . E é preciso tempo para as empresas crescerem. É aí que devem entrar os fundos de co-investimento. Aí "benchmarking" europeu é importante. Agora nos benefícios fiscais... O Reino Unido, que está a ter um problema orçamental e eliminou benefícios fiscais, aumentou os benefícios para as "start-ups". Podíamos usar isso como "benchmarking" internacional.

É difícil para um "business angel" ter investimentos em outros países?
O que é interessante é participar no desenvolvimento da empresa e para isso temos de estar disponíveis para visitá-los a qualquer momento e isso é difícil quando se está longe. Aí é um investimento e não uma acção de "business angel".

O que acha então de se estar a forçar mais investimento em outros países?
Não sou muito favoravelmente. É importante ser possível apoiar a organização quando quer ir para fora, mas isso é a mesma companhia. E aí co-investimento com um "business angel" local faz sentido. Mas investir numa empresa em Portugal, quando estou em Paris, para mim isso não é acção de "business angel". É investimento.

Como é que os "business angels" vão trabalhar nesta crise económica. Vai haver mais ou menos investimentos e mais ou menos investidores?
Não é muito claro. É difícil saber, porque temos mais anjos. O investimento total aumentou em 2010, mas o ambiente fiscal não mudou. Este ano temos a crise e o ambiente fiscal vai diminuir. A redução dos benefícios fiscais pode afectar. Não investirão tanto como anteriormente. Esperamos que haja uma redução. No ano passado tivemos 15% mais investimento. Continua a crescer e os novos "anjos" estão a investir mais do que os antigos.

Porquê?
No meu caso, por exemplo, já tenho 19 investimentos, por isso não ter mais é uma questão de tempo e não de dinheiro. Se se quer ser um "business angel" é preciso tempo para estar envolvido.

Qual é o perfil dos novos "anjos"?
Não tenho estudos, mas nos "business angels", que entram na minha rede, a média de idades está a cair. E só 40% são reformados. A maioria está activa, a trabalhar, e alguns são muito jovens.




Rapidez do crescimento é o essencial para saída

Philippe Gluntz já entrou em 19 empresas. E conseguiu vender a sua participação em cinco casos. Só que, revela ao Negócios, em dois casos vendeu perdendo dinheiro. "É uma má saída". Saídas boas teve duas e tem o acordo para vender uma terceira participação dentro de dois anos. São as boas.

Para motivar a entrada de novos "business angels" no apoio a empresas é importante o sucesso da saída. Mas Philippe Gluntz garante que não investe a pensar no retorno do seu investimento. Até porque, assume, ganhou dinheiro suficiente enquanto gestor para não ter preocupações dessas. E, por outro lado, revela que ganhar dinheiro surgiu como terceira motivação para investimentos de "business angels" realizado pela sua associação em França. A primeira motivação é ajudar a criar empresas e empreendedores e a segunda é ajudar a economia local e criar empregos. Só no terceiro lugar surgiu o dinheiro. "Fiz dinheiro suficiente e não é isso que procuro", garante, assumindo que o que o move é estar integrado no negócio das empresas e ajudar. É esse, aliás, que diz ser o papel do "business angel".

Ainda assim, ter retorno é importante, mas é difícil consegui-lo. "O problema da saída é muito grande". Assume como errado a estratégia de se tentar vender as participações dos "business angels" às capitais de risco. O investimento, diz, tem de ser conjunto, para se conseguir financiar as várias etapas de crescimento da empresa. E essencial, mesmo, é crescer rapidamente. "Tem de se chegar rapidamente aos dois ou três milhões de euros de facturação para então ser possível a compra por um grupo da indústria ou uma dispersão em bolsa". A internacionalização é a resposta para esse crescimento rápido.


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