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O ex-presidente da República, Ramalho Eanes, manifestou-se hoje preocupado por processos como o da Face Oculta, que considerou serem reveladores do mau funcionamento da justiça, um dos alicerces fundamentais da democracia.
"Preocupa-me fundamentalmente porque revela que um dos subsistemas fundamentais que é a justiça não está a funcionar na maneira rápida, pronta, legalmente justa", disse à Lusa em Madrid. "Há que tenta r melhorar todos os subsistemas, saúde, a educação, a justiça. Mas a justiça fundamentalmente porque o primeiro fim da institucionalização da sociedade política foi garantir a paz. E é difícil encontrar uma paz justa, se não houve uma justiça pronta", sublinde San Pablo, em Madrid e onde interveio para analisar o relacionamento entre a moral e a política. "A política não está a precisar de moral: a política é impossível sem ética", disse à Lusa. "É a ética que faz com que os políticos percebam claramente qual é a sua função, qual é o trabalho que devem prestar à comunidade, qual o serviço que devem permanente prestar a sociedade civil da qual naturalmente dependem", afirmou. Considerando que a corrupção "sempre existiu", o ex-Chefe de Estado admite que hoje o problema tenha "mais visibilidade" e que, por isso, haja mais consciência pública sobre a sua dimensão. "Como dizia Cícero a forma mais perversa da corrupção é a demagogia. ’ impossível corromper com dinheiro um homem honrado, mas é possível corrompê-lo com a oratória", afirmou. "Sempre houve corrupção. Hoje o que tem é maior visibilidade, é publicitada de uma maneira mais frequente e as pessoas têm a percepção de que é maior. Não creio que seja muito maior, apesar de estar a afectar todas as sociedades modernas, todas as democracias", disse ainda. Questionado sobre a forma como a sociedade civil vê a política e os políticos, Ramalho Eanes associa algum desencanto a problemas como a crise económica. "Na democracia, a unidade é conseguida pela esperança comum de que vivendo juntos vão ter um futuro melhor. Quando a situação é de crise e o futuro comum não parece vir a ser melhor, as pessoas frustram-se e têm algumas reticências em relação ao poder que acusam de não responder cabalmente a essas expectativas", disse. Apesar disso, considerou, é "indispensável" que "toda a sociedade civil e todos os cidadãos participem na actividade política". "A actividade política não é exclusiva dos líderes políticos, mas deve ser exercida por todos os cidadãos. É com a política e através da política que se escreve ou não se escreve um futuro justo", disse ainda. |
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