Publicado 16 Junho 2008  14:59
Opinião
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Luis Nazaré 
Ceder ou não ceder


Há um par de anos, poucos se atreveriam a antecipar que o tema da intervenção do Estado na economia pudesse vir a dominar a agenda num sentido totalmente oposto ao que se supunha.

1. Há um par de anos, poucos se atreveriam a antecipar que o tema da intervenção do Estado na economia pudesse vir a dominar a agenda num sentido totalmente oposto ao que se supunha.

Com maior ou menor motivação política, maior ou menor ritmo, a influência do Estado na vida económica parecia tender para uma inexorável redução. Mas eis que chegam as crises do subprime e do petróleo, e o sistema subitamente abala. Dos mais inesperados quadrantes chovem pedidos de auxílio e exigências de intervenção estatal. Por cá, as frentes dos transportadores e dos armadores parecem ter sido ultrapassadas, com sensatez e eficácia. As próximas terão de ser vencidas com igual empenho, num difícil equilíbrio entre a autoridade e a negociação.

Um dos poucos dados certos de que dispomos é que a extensão e profundidade da actual crise são impossíveis de prever. São más notícias. Outro dado certo é que em breve teremos um novo inquilino na Casa Branca e, seja ele quem for, as coisas só podem melhorar na política norte-americana. Boas notícias, portanto. É neste quadro de incertezas (onde também cabem cenários optimistas ou menos pessimistas) que os governos terão de se haver com os descontentamentos que continuarão a lavrar por todo o tecido social, pelo menos num horizonte de curto prazo.

Ora, estes movimentos reivindicativos, por inconvenientes que sejam, não podem deixar de ser vistos como um canal de escape legítimo para o sentimento de emagrecimento da carteira. A questão da maior ou menor representatividade dos dirigentes de rua é tão destituída de senso quanto as declarações bombásticas sobre a autoridade do Estado a todo o custo e sem contemplações. Só quem está desatento não se apercebe do cuidado com que, desde sempre, as autoridades espanholas, francesas, inglesas, alemãs ou italianas lidam com situações de bloqueio – geralmente bem mais problemáticas e extensas do que a agora vivida no nosso rectângulo. Nestas situações, fácil é ceder à tentação autoritária, tanto quanto à obsessão pelo diálogo. Difícil é exercer a autoridade democrática sem cortar os canais de comunicação com os grupos de interesses.

2. Não há memória de uma campanha sobre um tema comunitário tão marcada por argumentos do populismo mais rasteiro e desonesto quanto a do referendo irlandês ao tratado de Lisboa. É espantoso verificar-se que a gente do país que supostamente melhor uso fez dos fundos comunitários, o tal da aposta ganha na educação, case-study mundial, exiba razões tão primárias e ignaras quanto as que ouvimos (nos canais internacionais) durante a campanha irlandesa. “Não percebo o texto”, “Não quero o aborto”, “Voto contra porque a vida está difícil” ou “Lisboa é má para os negócios” são tudo menos motivações esclarecidas. O pastor mais recôndito do nosso Portugal iletrado não saberia desenvolver raciocínio mais burgesso.

Os agentes económicos do “não”, com especial destaque para um raider pouco recomendável denominado Declan Ganley, investiram milhões na ignorância popular e no desassossego dos tempos. Foram eles os vencedores deste round, ao manipularem, fina e friamente, a consciência popular dos irlandeses com astúcias de marketing ao melhor estilo sul-americano. As nossas luminárias anti-europeias devem estar exultantes. Das euro-cépticas inconsequentes às leninistas, estou certo que todas se revêem no discurso do democrata Declan Ganley e do seu movimento Libertas. Apesar delas, a Europa não pode ceder, tem de seguir em frente.

Umas vírgulas mais no tratado, se necessário for, para aliviar orgulhos e expectativas frustradas, e os irlandeses ultrapassarão o seu próprio embaraço, como já aconteceu com o tratado de Nice. Se assim não for, paciência. Joyce e Beckett não deixarão de fazer parte do património europeu.

 
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Comentários
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  • os irlandeses são ignorantes?
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