Publicado 29 Julho 2008  14:00
Opinião
  Artigos deste autor
Vítor Bento
Falar verdade (II)


Para resolver o problema macroeconómico é necessário percebê-lo. Qualificando-se para o euro e entrando na UEM, a economia portuguesa sofreu duas importantes alterações estruturais, que foram politicamente mal geridas.

“Now that it’s gone too far to call for a halt, / I’ll blame it on the moon / ‘Cause it’s not my fault;”
Blame it on the moon, Katie Melua

Para resolver o problema macroeconómico é necessário percebê-lo. Qualificando-se para o euro e entrando na UEM, a economia portuguesa sofreu duas importantes alterações estruturais, que foram politicamente mal geridas.

Primeiro e com a abolição do prémio de risco, as taxas de juro desceram irreversivelmente para um patamar muito inferior ao que duas décadas nos haviam habituado. Isto aumentou substancialmente a capacidade de endividamento dos agentes económicos, para o mesmo rendimento, permitindo-lhes ajustar em alta o seu “stock” de bens e serviços. As empresas investiram e (sobretudo) as famílias compraram novas casas, carros, electrodomésticos, etc. e aumentaram o padrão de consumo, tudo traduzido num aumento de despesa interna.

Os efeitos deste “choque monetário” expansionista poderiam ter sido relativamente contidos se o Estado lhe tivesse contraposto – receita de manual – um choque fiscal de sentido oposto, reduzindo despesa e/ou aumentando impostos. Aconteceu precisamente o contrário. O Estado entrou em euforia despesista e acrescentou um choque expansionista da ordem dos 30% do PIB (considerando o aumento da dívida pública explícita e estimando por baixo as responsabilidades implícitas incorridas e as receitas de privatizações). A deslumbrada descoberta da engenharia financeira e contabilística – permitindo chutar a explicitação de custos para anos mais tarde – e a redução dos juros da dívida, ajudou a disfarçar a dimensão deste choque e alimentou uma perigosa venda de ilusões.

Segundo, a perda de moeda própria, e a prospectiva estabilidade de preços, eliminaram um importante elemento de flexibilidade do mercado de trabalho, que permitia, com desvalorizações, corrigir excessos de custos laborais, restabelecendo a competitividade e preservando um razoável nível de emprego.

Liberta a restrição financeira imediata e fantasiando contas, investiu-se muito, mas mal. Directamente pelo Estado, ou frequentemente sob a sua égide, directa ou indirecta, dirigiu-se o investimento sobretudo para o sector não transaccionável. Como resultado, a eficiência do investimento foi, no global, a mais baixa de toda a UE e pouca capacidade produtiva se acrescentou. A produtividade pouco cresceu, mas o ‘boom’ de procura artificial e o estímulo aos sectores protegidos fizeram com que os custos laborais crescessem muito mais do que ela, sacrificando a competitividade. Na ausência de instrumentos para a restabelecer (e com a pressão acrescida da globalização), o potencial de produção reduziu-se, dando origem a um crescimento anémico e levando o desemprego a crescer para além da média europeia.

Entretanto e apesar de a economia não ter satisfeito as expectativas de crescimento, a atitude do “copo meio cheio” ajudou as famílias a interiorizar, como permanente, um padrão de consumo que o seu rendimento não sustenta, continuando a recorrer a endividamento para além do que teria sido razoável e habituando-se a viver duradouramente acima das possibilidades. Tal como o Estado.

Os dois efeitos combinados – excesso de despesa e perda de competitividade da produção – e a ausência de reacção atempada, materializaram-se na acumulação da maior sucessão de défices externos de que temos memória, com os consequentes endividamento ao exterior, ‘vulnerabilização’ da economia e séria ameaça à autonomia económica.

As responsabilidades líquidas para com o exterior já excedem o valor do Rendimento Nacional e os encargos que por elas têm que ser pagos (5-6% do PIB) já fizeram entrar o défice num perigoso processo de auto-alimentação. Mantendo-se inalterada a situação e continuando a perder remessas de migrantes, o desequilíbrio externo ameaça tornar-se insustentável. E ainda estamos a beneficiar de transferências da UE...

Os choques da recente crise internacional apenas vieram tornar mais clara a insustentabilidade do modelo em que vivemos há uma década, e mais difícil e custosa a sua correcção. Importa saber se, na ausência de ajustamento em tempo oportuno, a crise não nos forçará a um “hard landing”. Por isso é cada vez mais indispensável empenharmo-nos em gerir uma aterragem suave...

 


Para comentar esta noticia deverá ser membro registado no Jornal de Negócios.

Se está registado no Jornal de Negócios faça login.
Caso contrário poderá registar-se gratuitamente.
Comentários
  • Copo meio rentável?
  • Venha o TGV...!
  • Ponham as máscaras e apertem os cintos, a turbulência chegou a aterragem vai doer!!
  • Total de comentários: 7
    Ver mais
    © MediaFin SA 2003

    © 2001-2008 - Bolsamania Tech Solutions

    Divisão de Web Financial Group, S.A.

    Todos os direitos reservados.