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Publicado 10
Outubro
2008 13:00 Opinião |
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Não é a primeira vez que me tentam silenciar. A penúltima foi há poucos meses, com um processo de intimidação, movido por Alberto João Jardim, que deu em nada. Há pouco mais de dez dias, e quase sem parar, uma campanha contra mim tem atingido aspectos demenciais. O motivo não é só ridículo: é incongruente. Sou inquilino da Câmara Municipal de Lisboa vai para doze anos. Pago mensalmente renda, que aumenta segundo a inflação. Tudo é legal, nada é moralmente reprovável.
Contei o caso inúmeras vezes. Por aí tem sido impresso que a Câmara "deu-me" uma casa. Mentira como é facilmente demonstrável. O caso tem sido politicamente aproveitado.
No tempo do fascismo, as ameaças eram constantes – e perigosíssimas. "A Voz", o "Diário da Manhã", "Agora", "Tempo Presente", publicações do regime, transformaram a denúncia numa actividade torpe, porém requintada. Eu assinava crónicas de cinema no semanário "O Século Ilustrado", que obtinham grande repercussão, sobretudo entre os estudantes universitários, os quais chegavam a afixá-las nas paredes dos corredores das faculdades. Admito que os textos constituíam muito mais intervenções políticas e ideológicas, e incidiam menormente nos aspectos puramente cinematográficos dos filmes que comentava. Uma tribuna de intervenção. A época era sombria, eu estava na casa dos 20 anos e tinha de fazer o que tinha de ser feito. Alguns desses comentários foram publicados em dois livros, cujos títulos revelam, creio, as orientações do autor: "O Cinema na Polémica do Tempo" e "O Filme e o Realismo." Os artigos podem ser recuperados e lidos na Hemeroteca. Documentam, parcialmente, uma época e não me pertencem em sistema de exclusividade: fazem parte da batalha da minha geração. Envolvi-me em tudo o que era necessário a fim de ajudar o meu país a ser livre. Não vou, aqui, narrar façanhas que não existem, nem heroicidades gloriosas. Tudo se enquadra numa época, num tempo e na questão fulcral: a da liberdade. Fui traído por um jornalista monárquico, procurador à Câmara Corporativa, redactor de "A Voz" e chefe de Redacção de "O Debate." Conhecia-me desde miúdo, dizia-se amigo de meu pai, conversava amenamente comigo, fins de tarde, na Brasileira do Chiado. Chamava-se António Morais de Carvalho, informava a PIDE daquilo que pensava serem as minhas actividades políticas. Recebia, em troco, 200 escudos, o correspondente, hoje, a 1 euros. Nunca deixei de pensar como pensava e penso. Sempre actuei impelido pela consciência. Biltres sempre os houve. Delatores, são uma fieira histórica, sem intermitências. Jornalistas a soldo e a saldo não é pecha de agora. Criaturas de voz grossa, cheias de telhados de vidro, de esquemas e de arrogância displicente – costumo ferrá-las em público. Anda por aí uma que, em breve, terei de, novamente, escarmentar. Actuei clandestinamente e militei partidariamente. Sem estardalhaço, discreto e tranquilo, abandonei quando entendi, sem jamais me licenciar. O percurso comum aos homens da minha geração portuguesa. É uma atoarda quase ininterrupta, com um objectivo cada vez mais claro: confundir a atribuição de casas municipais a funcionários políticos, ou na prática de nepotismo ou de favorecimento, com o arrendamento, legal e claríssimo, de um apartamento a um locatário. A circunstância de me servir das palavras com veemência e sem amo; o facto de nunca me ter vendido e de não escolher a Direita ou a Esquerda entre os objectos das minhas críticas – é complicado para quem possui da democracia um conceito de estrebaria moral. O que se passa é isso mesmo: uma atmosfera de estrebaria moral, sem limite, com regras sujas, sem respeito nem grandeza. Não vou convocar, para esta conversa, os emails, cartas, telefonemas, sms que tenho recebido: são numerosos. Nem os artigos em minha defesa que têm sido publicados. Claro que, aproveitando a onda, há quem (sem perceber nada do que se passa, desconhecendo a manipulação e o compadrio subjacentes a todo este imbróglio, ou percebendo muito bem e agitando a confusão) utilize o insulto. Nada me atinge, nada me enlameia, nada me demove. É fácil, porém, verificar a natureza sistemática da campanha. Porquê eu? Porquê a insistência numa tónica "moral" e num registo "ético"? Porque, segundo o realejo, tenho "zurzido os outros", julgando-me acima dos céus e dos infernos. O verbo "zurzir" foi, aliás, mal aplicado por um comentador de televisão, que nunca tomei a sério porque, na verdade, não dispõe de ideias de seu. Este pessoal medíocre, de baixo estofo moral, que escreve samarra com cê de cedilha, e polícia com U, que tem dado cabo da pátria, que tem organizado a vidinha – aproveitou a oportunidade para se vingar. Dá para rir, não fosse a mágoa que esta sórdida expedição punitiva, apoiada, miseravelmente, por "jornalistas" avençados, causa nos meus íntimos. Eu tenho a pele coriácea e estou aqui para o que der e vier. Nunca ninguém me assustou, me intimidou ou me impediu de pensar como penso, de agir como ajo, de escrever o que escrevo. De uma vez por todas que estas afirmações fiquem bem claras. Remato com um apelo à inteligência e à honestidade de quem me lê: com problemas tão graves como os que nos tocam, com as ameaças de estoiro financeiro generalizado, com a ausência de perspectivas e o esmagamento de todas as esperanças – este caso, um não-caso, esta notícia, uma não-notícia que ressurge agora que sentido oculta? E digo ressurge porque um pesado e mal-escrito semanário já me interpelara, há anos, sobre; e eu próprio, em amenas crónicas me tenho intitulado "inquilino camarário." Não há segredo, nem mistério, nem ilegalidade. A indignidade mora onde isto foi criado. E eu sei onde, porquê e por quem. Podem chatear-me um pouco; mas eu vou chateá-los infinitamente. |
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