Publicado 03 Novembro 2008  13:00
Opinião
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Álvaro Pires
Telecomunicações: a batalha pelo comando da televisão
Manager da Bain & Company


Poder-se-ia dizer que nenhuma indústria sofreu um processo transformador tão acelerado como a das telecomunicações, nestas ultimas duas décadas. Primeiro foi a consolidação de operadores estatais, depois ...

Primeiro foi a consolidação de operadores estatais, depois a liberalização do mercado e a consequente privatização por toda a Europa dos referidos monopólios, e finalmente a emergência de tecnologias que mudaram de forma dramática o mundo, casos das comunicações móveis e das comunicações de banda larga.

No entanto, a transformação parece não ter terminado e a indústria vive já o seu próximo desafio, sendo que agora o campo de batalha não é uma tecnologia inovadora ou novos progressos regulamentares, mas sim a integração de conteúdos, especialmente com a televisão e a convergência entre as diversas plataformas e serviços.

Convergência é uma palavra muito referida nos dias de hoje, com a multiplicidade de ofertas no mercado. "Triple play", "quadruple play" já são parte do vocabulário corrente. Mas será realmente convergência real que vemos ou apenas um "bundling" de oferta de distintos produtos a um preço mais barato?

Tendo em conta os quatro componentes das ofertas convergentes: telefone fixo, telefone móvel, Internet de banda larga e televisão, a real convergência existe com a integração de serviços oferecidos nas diversas plataformas. Por exemplo, convergência significa poder utilizar o telemóvel em casa como se fosse um telefone fixo com a respectiva tarifa, ou significa que os conteúdos que contratamos para a nossa televisão em casa se possam ver no nosso telemóvel ou no nosso computador, em qualquer lugar. Estes são alguns exemplos, e como o leitor já se deve ter apercebido, em termos de serviços e proposta de valor para o cliente, a convergência trará algumas aplicações e serviços interessantes, mas, e especialmente no curto prazo, não se vislumbra ainda uma verdadeira revolução. Os utilizadores continuam a ter necessidades por aplicações específicas nas distintas plataformas e não transversais às mesmas.

A convergência real existe sim para os fornecedores dos serviços, já que com uma única plataforma tecnológica (por exemplo, infra-estrutura de banda larga) podem agora oferecer os distintos serviços de televisão, telefone fixo e Internet de banda larga. De igual forma, podem também integrar as suas estruturas de suporte (por exemplo, "call centers" e serviços técnicos) e com isso beneficiar de poupanças acrescidas.

Não existindo convergência real e significativa do ponto de vista da oferta, existe sim um tema muito relevante de "bundling". Operadores que oferecem os quatro serviços podem também oferecer pacotes dos distintos serviços e cobrar um preço mais barato. Os clientes beneficiam por pagar menos, e por terem um único interlocutor para todos os seus serviços de telecomunicações. Os operadores vêem também benefícios importantes: i) protegem ou ganham receitas nos serviços mais básicos (telefone fixo); ii) atacam directamente operadores menos integrados; iii) aumentam a sua capacidade para "up-sell" e "cross sell" (por exemplo, vender televisão a quem já tem Internet de banda larga e telefone fixo) e iv) reduzem a taxa de perda de clientes (sair do serviço afecta mais componentes da vida de um utilizador).

Relevância do tema em Portugal

É neste contexto que a televisão tem e terá um papel tão importante e é igualmente neste contexto que se desenrola a actual férrea competição entre a Zon e a PT. Com a separação da PT Multimédia (agora Zon) da PT, criou-se uma situação única em Portugal, em que duas empresas actuando na área das telecomunicações e com factores diferenciadores opostos estão agora a competir pelos mesmos clientes e serviços. A PT possui uma grande infra-estrutura e base de clientes de telecomunicações (fixas, móveis e ADSL), áreas de negócio nas quais é líder de mercado; a Zon parte também sendo líder de mercado, mas na televisão por cabo.

A questão é que com a convergência de plataformas e "bundling" de oferta, ambas as empresas podem atacar-se mutuamente e facilmente complementar as suas ofertas. Hoje em dia, a penetração da televisão por cabo é de 40%, o que se por um lado são boas noticias para a PT, já que significa que 60% do potencial mercado ainda está por explorar nesta área de negócio; por outro lado, nestes 40% incluem-se grande parte dos clientes residenciais de alto valor e a Zon pode e já está a atacar a PT onde lhe dói mais: no telefone fixo e na Internet de banda larga destes clientes. Paralelamente, a Zon acaba de anunciar a criação do seu operador móvel virtual, por acordo com a Vodafone. A sua oferta de telecomunicações está completa, e maximizar o potencial dos seus clientes é o enfoque da empresa. A sua maior desvantagem reside na sua capacidade de capturar novos clientes, dado que o centro da sua oferta continua a ser a televisão por cabo, que tem apresentado um crescimento moderado e onde ganhar novos clientes é cada vez mais difícil.

A PT, por outro lado, necessita de incluir a televisão de forma sólida no seu portefólio para poder competir directamente com a Zon. Esta não é uma tarefa fácil para a PT, mas as recentes acções visando o crescimento exponencial da sua oferta de televisão (MEO), incluindo um renascimento da televisão por satélite devido às limitações actuais da rede PT, mais a aposta na gestão da televisão digital terrestre, mostra o quanto a empresa está enfocada em ganhar esta guerra.

Como irá finalizar esta batalha não esta claro, até porque outros "players" se posicionam para entrar na mesma, e temas críticos como a gestão de conteúdos (nomeadamente desportivos) podem mudar radicalmente a dinâmica competitiva. O que é certo é que o panorama das telecomunicações não será o mesmo em cinco anos e que ganhar a batalha da televisão nesta nova era de convergência será crítico para construir uma vantagem competitiva sustentável no futuro do mundo das telecomunicações em Portugal.

 


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Comentários
  • Algumas correcções....
  • O "bunding "é o cartel para nos lixar os preços..
  • Total de comentários: 2
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