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Publicado 05
Março
2009 11:36 Opinião |
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Quis a sorte que o juiz decidisse um caso com oito anos precisamente na semana de novas suspeitas de concertação na Cimpor. O juiz decidiu: não há provas. Sai de cena a "velha" concertação com a Lafarge, entra a "nova" concertação contra a Lafarge.
Quis a sorte que o juiz decidisse um caso com oito anos precisamente na semana de novas suspeitas de concertação na Cimpor. O juiz decidiu: não há provas. Sai de cena a "velha" concertação com a Lafarge, entra a "nova" concertação contra a Lafarge. Podem arrolar os mesmos: Teixeira Duarte, BCP, Manuel Fino, e agora também a Caixa.
Primeiro, a "velha": Pedro Queiroz Pereira, que queria comprar a Cimpor em 2001, acusou em tribunal a Teixeira Duarte, o BCP, Fino e a Lafarge de dominarem encapotadamente a Cimpor, o que violaria a lei (teria de haver OPA). Segundo a acusação, Pedro Teixeira Duarte seria o condutor deste automóvel, com "financiamentos de favor" do BCP e da Caixa, e com Manuel Fino, "que não tinha dinheiro", a servir de "testa de ferro", detendo sociedades em "offshores" que canalizavam o dinheiro. Os franceses da Lafarge teriam sido angariados para equilibrar o corpo accionista que visava manter a Cimpor em mãos nacionais, como seria aliás desejo do Governo. Se o que relatou é falso, Pedro Queiroz Pereira ou é um mentiroso assolapado ou um delirante conspirador. Já Jardim Gonçalves testemunhou que não sabia de nada, não ouvira nada, não se lembrava de nada (o que o juiz considera "incompreensível"). Pedro Teixeira Duarte confirmou que o Governo queria manter a empresa em Portugal, assim como Jardim Gonçalves, e que "a Lafarge", de quem é sócio, "é o seu inimigo número 1 porque quer os activos da Cimpor". O que estava em causa na Cimpor era, portanto, a salvaguarda dos centros de decisão nacional. Aliás, segundo o juiz, Queiroz Pereira confessou que a cimenteira deixaria mesmo de ser nacional, quando "referiu que a aquisição da Cimpor pela Secil e pela Holderbank impunha o desmantelamento da empresa e a deslocalização do comando para o estrangeiro por causa das leis da concorrência". Agora, a "nova": fica evidente, que o negócio com as acções de Manuel Fino que o presidente da Caixa vai hoje explicar ao Parlamento tem tudo a ver com este jogo de poder em que a Cimpor se arrasta há quase uma década. Aliás, não só a Caixa assume literalmente a "posição de charneira" como o seu administrador Jorge Tomé assumiu no "Prós e Contras" que, se a Caixa não tivesse comprado, Manuel Fino poderia ter vendido "por um prémio muito superior" a 25% "a outros cimenteiros" (disse primeiro), "a Lafarge" (confirmou depois). Está na altura de pôr o assunto em pratos limpos: a Caixa fez o mau negócio porque receava que Manuel Fino vendesse as acções à Lafarge, o que seria entregar a maior multinacional portuguesa a mãos estrangeiras. Isto recoloca a discussão noutra escala: os centros de decisão nacional. O País quer protegê-los? A Caixa deve ser o instrumento para consegui-lo? Os deputados que criticam a Caixa pelo negócio criticá-la-iam se a Cimpor ficasse francesa? Esta discussão é determinante para o futuro do País, porque atrás do caso da Cimpor virão outros, gerados pelo excesso de dívida de muitos empresários portugueses. Eu sou contra os negócios proteccionistas que beneficiam accionistas portugueses em vez de consumidores portugueses ou contribuintes portugueses. Disse, repito e mantenho que isso são óptimas justificações para péssimos negócios. O proteccionismo é filho do medo, irmão do benefício individual e pai do prejuízo colectivo. Quem quiser pode discordar. Mas depois não pode criticar a Caixa pelo acordo que fez com Manuel Fino. |
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