Publicado 31 Março 2009  12:03
Opinião
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Fernando Alexandre e Pedro Bação 
O ensino da economia e a crise económica


O debate sobre a crise financeira e económica em que vivemos apresenta várias facetas: quais as suas causas, qual a reacção adequada dos decisores de política económica, quais as medidas necessárias para evitar a repetição...

O debate sobre a crise financeira e económica em que vivemos apresenta várias facetas: quais as suas causas, qual a reacção adequada dos decisores de política económica, quais as medidas necessárias para evitar a repetição de crises deste tipo, etc. Neste momento, o aspecto mais debatido é, naturalmente, o das medidas dos governos e dos bancos centrais para evitar o agravamento da situação. Porém, saber o que causou a crise tem também sido motivo de grande controvérsia.

Ao longo da história, a ciência económica tem procurado explicações para as crises económicas. As explicações encontradas vão da (ridicularizada) teoria das manchas solares até à sofisticada teoria dos choques na produtividade, passando pelas teorias da destruição criadora, das vagas de confiança e de pessimismo que afectam o comportamento dos consumidores e empresas, ou dos efeitos de alterações nas políticas monetária e orçamental, entre outras. Muitas destas teorias desenvolveram-se na sequência de crises económicas profundas e prolongadas, como aconteceu com o "keynesianismo" durante a Grande Depressão. É possível que da actual crise resultem também novas teorias.

De facto, esta crise já gerou pelo menos uma nova teoria dos ciclos económicos: a teoria do ensino da economia. Esta teoria assenta na hipótese de que os actuais currículos dos cursos de economia e gestão terão contribuído para a gravidade da actual crise económica e financeira. Os defensores desta posição parecem considerar que o facto de nas cadeiras de microeconomia se colocarem hipóteses segundo as quais as pessoas são "racionais", isto é, tomam as decisões que têm como objectivo maximizar o seu bem-estar, transforma os alunos de economia e gestão em corretores gananciosos e em administradores socialmente irresponsáveis, que depois criam, pelo seu comportamento, bolhas especulativas nos mercados financeiros, as quais, quando rebentam, originam crises económicas como a actual. Segundo pudemos ler num artigo de opinião de Nuno Garoupa no Jornal de Negócios, há até uma universidade espanhola que já considera a possibilidade de alterar a estrutura curricular da sua licenciatura em economia em consequência daquela teoria.

Esta visão do papel do ensino da economia na actual crise é, quanto a nós, errada e perigosa. É errada, em primeiro lugar, porque é desmentida pelos factos: é refutada pelo registo histórico de crises anteriores a 1947 (ano da publicação do livro "Foundations of Economic Analysis", de Paul Samuelson, um "keynesiano" insuspeito), para não falar de crises anteriores a 1776. Segundo o jornal britânico "The Guardian", a primeira crise do "subprime" terá ocorrido em 88 AC. O livro (clássico) de Charles Kindleberger, "Manias, Panics and Crashes", contém várias descrições de comportamentos de tipo especulativo em crises de séculos passados que são facilmente reconhecíveis na crise actual.

Na nossa opinião, aquela posição quanto ao papel do ensino da economia na actual crise está igualmente errada (e adicionalmente torna-se perigosa) porque exagera a capacidade de moldar o comportamento dos alunos pela educação. Ou seja, esta visão tem na sua origem a ideia de que o ensino superior tem a capacidade de criar "homens novos" com as características desejadas pelos seus criadores, desde que estes lhes ensinem os comportamentos correctos. Pensamos que a história recente já contrariou de forma clara a hipótese de que é possível controlar a natureza humana pela educação.

Além disso, quem terá a clarividência necessária para decidir o que deve e o que não deve ser ensinado, de forma a criar seres humanos bem comportados? A Economia, enquanto ciência social, avança à medida que vai incorporando novas ideias que demonstram capacidade para explicar e prever os factos económicos. Voltando ao texto de Nuno Garoupa, ninguém "obrigou ninguém a abandonar outros paradigmas para aderir ao paradigma neoclássico". Há, de facto, hipóteses alternativas à da racionalidade pura e dura, e essas hipóteses têm sido usadas e discutidas por muitos economistas. Essas hipóteses alternativas serão, naturalmente, incorporadas nos livros básicos quando demonstrarem qualidades para isso, não só no que diz respeito à tal capacidade de explicação e previsão dos factos, mas também no que diz respeito à adequação do ponto de vista pedagógico do seu ensino. Até lá, essas hipóteses continuarão, como até aqui, a ser usadas apenas em textos de investigação, estudados apenas por alunos de cursos mais avançados.

Fernando Alexandre, Professor da Universidade do Minho
Pedro Bação, Professor da Universidade de Coimbra


 


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Comentários
  • ensino da economia
  • Para a próxima,saibam a lição..
  • Total de comentários: 2
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