Publicado 27 Abril 2009  12:00
Opinião
  Artigos deste autor
Helena  Garrido
Melhorar o futuro não é uma estrada
Helenagarrido@negocios.pt


Não precisamos de mais auto-estradas. Já não eram necessárias no passado recente. Ainda são mais irracionais hoje, face às dívidas que já temos de pagar no futuro. Muitos portugueses já têm consciência que a política do betão...

Não precisamos de mais auto-estradas. Já não eram necessárias no passado recente. Ainda são mais irracionais hoje, face às dívidas que já temos de pagar no futuro. Muitos portugueses já têm consciência que a política do betão traz hoje mais custos que benefícios.

O líder da bancada social-democrata escolheu como tema para o seu discurso do 25 de Abril o o investimento público, manifestando preocupações com o futuro e criando o lema "Libertar o Futuro". Nem todo o investimento público tem mais custos que benefícios e há intervenções que são muito importantes para o país. Mas Paulo Rangel tem razão se alerta para o desperdício, de recursos financeiros hoje muito escassos, que constitui o investimento em mais auto-estradas.

É preciso ter coragem de dizer que Trás-os-Montes não precisa de uma auto-estrada. Não se pode justificar a construção de uma estrada com os custos que tem uma auto-estrada só questionando: Acha justo que Trás-os Montes seja a única região que não tem uma auto-estrada? Trá-os-Montes como o Alentejo e outras regiões não possuem também muitas outras infra-estruturas exactamente porque não se justifica que as tenham.

O que Trás-os-Montes e muitas regiões do país precisam é que se melhorem a qualidade e segurança rodoviárias do que já têm. E que se melhorem as ligações entre pequenas cidades, vilas e aldeias usadas todos os dias pelas pessoas, em vez de gastar rios de dinheiro para meia dúzia de carros andarem mais depressa. E ainda que se reforce em quantidade e qualidade a rede de transportes públicos, a começar, quando existe, o caminho de ferro.

Quando hoje se anda pelo País tomamos consciência da marca de novo-riquismo do investimento público em auto-estradas. Ao lado de vias rápidas, com uma sofisticação que por vezes não encontramos nos países ricos, estão estradas que ligam centros urbanos completamente esburacadas e sem os sinais mínimos de segurança.

São as estradas que já temos que é preciso melhorar, como aquilo que se está a fazer no Algarve.

Claro que é mais fácil para um Governo lançar um grande projecto, do que organizar intervenções em estradas em que estão envolvidos múltiplos responsáveis. Claro que o sector da construção prefere um grande projecto, que continue a garantir o seu sobredimensionamento. Mas estas escolhas fáceis e com visão de curto prazo ameaçam seriamente o nosso futuro colectivo.

O Primeiro-Ministro não referiu as estradas na lista de investimentos estratégicos que citou na entrevista à RTP. Esperemos que não tenha sido um esquecimento mas sim uma reorientação política, nem que seja justificada pelos novos condicionalismos que o país enfrenta com esta crise.

O que hoje se consegue prever é um futuro em que todos vamos ter de reduzir o nosso nível de vida, um futuro que não sabemos quão longo será. Tem actualmente condições para durar muito mais tempo do que a crise internacional. E uns vão viver bastante pior que outros. Todos, com especial relevo para o Estado, têm de se adaptar às novas circunstâncias e devem preparar-se para elas.

Preparar um futuro melhor hoje é cortar em quase tudo o que signifique pagar mais tarde o que se constrói ou compra hoje. Os investimentos públicos que não podem ser pagos hoje têm de garantir, sem qualquer margem para dúvida, mais rendimento no futuro.

Educação, que melhore a qualidade do ensino, e energia, que reduza o consumo de petróleo, são os projectos prioritários que garantem um futuro melhor. É preciso "libertar o futuro", diz Paulo Rangel. É preciso, ao mesmo tempo, melhorar o futuro.
 
28 Jan  Seremos assim tão incapazes?
25 Jan  O Orçamento encenado
18 Jan  Bodo aos pobres pago pelos pobres
12 Jan  A Venezuela não é uma ilha


Para comentar esta noticia deverá ser membro registado no Jornal de Negócios.

Se está registado no Jornal de Negócios faça login.
Caso contrário poderá registar-se gratuitamente.
Comentários
  • A MENTIRA DA VERDADE
  • A VERDADE da MENTIRA
  • É fácil de perceber!
  • Total de comentários: 17
    Ver mais
    © MediaFin SA 2003

    © 2001-2008 - Bolsamania Tech Solutions

    Divisão de Web Financial Group, S.A.

    Todos os direitos reservados.