Publicado 30 Abril 2009  13:00
Opinião
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Helena  Garrido
O preconceito na avaliação do risco
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As três agências que avaliam o risco de crédito dizem que Portugal é mais arriscado que a Irlanda.

As três agências que avaliam o risco de crédito dizem que Portugal é mais arriscado que a Irlanda. Os investidores revelam exactamente o contrário, castigando bastante os irlandeses. Para eles, hoje até é menos arriscado emprestar aos gregos que aos irlandeses. Factos que alimentam acusações de assimetria na avaliação do risco das agências que determinam a taxa de juro que pagamos.

São três as empresas internacionais, todas de origem anglo-saxónica, que têm o enorme poder de dizer se um país, uma empresa ou um produto são mais ou menos arriscados. Hoje as "três grandes" estão a ser criticadas pelos ricos de terem sido incompetentes na avaliação dos produtos financeiros. E acusadas pelos menos ricos de estarem a tentar recuperar a sua credibilidade atacando os mais frágeis.

Standard & Poor's, Moody's e Fitch vivem naquele paraíso que todas as empresas sonham: controlam o mercado, não têm concorrência.

Os países sem poder no mundo e especialmente os que se situam no Sul da Europa, com uma história de indisciplina financeira, esforçaram-se nos últimos anos por agradar às três grandes, que funcionavam como o equivalente ao FMI nos velhos tempos em que aplicava o seu remédio de redução da dívida sem dó nem piedade a quem lhe solicitasse financiamento.

Os países sabiam - tal como aqueles que desenharam os produtos estruturados, pais desta crise - aquilo que as agências gostavam de ter e ouvir. Um país sem risco tem de ter estabilidade política, reformas estruturais dolorosas, como liberalização do mercado de trabalho, custos salariais moderados que garantam aumentos de competitividade, dívida e défices públicos reduzidos. Todos os países que não eram grandes nem do Norte da Europa seguiam - e seguem - essa carta para terem boas notas das agências, a porta de entrada para o crédito fácil e barato.

A crise financeira expôs a fragilidade dos modelos de avaliação das "três grandes". Elas, como muitos outros, não viram a bomba-relógio que estava a ser construída no sistema financeiro. E hoje são alvo de violentas críticas, transformadas quase em bodes expiatórios.

Os pequenos países especialmente do Sul da Europa foram os primeiros a sofrer. Pensando talvez mais na história que na realidade, as agências de rating apressaram-se a alertar que países como Portugal, Grécia e Itália estavam mais arriscados. E mais uma vez não repararam no caminho para o colapso da Islândia nem na quase falência da Irlanda.

A generalização dos CDS (Credit Default Swap) - uma espécie de seguro de crédito que estabelece diariamente um "preço" para o risco de crédito a países e algumas empresas - é a primeira grande ameaça à hegemonia das agências de rating.

A crítica que alguns países fazem às "três grandes" tem o apoio no facto objectivo de o mercado, teoricamente mais inteligente, ter através do preço que estabelece uma opinião diferente. É o que se verifica em Portugal. Para as agências de rating, a economia portuguesa é bastante mais arriscada que a irlandesa. Os investidores pelo contrário cobram quase três vezes mais que a Portugal para emprestar à Irlanda. A distância é demasiado elevada para ser explicada apenas por diferenças de método. As agências de rating vão ter de olhar um pouco mais para o mercado e ouvir um pouco menos as tradições ou preconceitos.

 
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