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Publicado 10
Julho
2009 11:54 Opinião |
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A escolha que se nos propõe, entre o PS de José Sócrates e o PSD de Manuel Ferreira Leite, é extremamente redutora mas, na aparência, é o que há. Por enquanto. Penso que, mais tarde ou mais cedo, os portugueses, removidos preconceitos e dissolvidos...
A escolha que se nos propõe, entre o PS de José Sócrates e o PSD de Manuel Ferreira Leite, é extremamente redutora mas, na aparência, é o que há. Por enquanto. Penso que, mais tarde ou mais cedo, os portugueses, removidos preconceitos e dissolvidos muitos tabus, encontrarão outras alternativas. As actuais são alternâncias, com mais ou menos músculo. E, na hipótese de o PSD ganhar, a rearrumação do poder conduziria a iniquidades e injustiças ainda mais pesadas do que as que nos temos habituado.
Claro que a barafunda que vai no PS e no Governo não é de molde a tranquilizar-nos. Pondo de lado o episódio faceto de Manuel Pinho a emoldurar de cornos a sua irritação, esta última cena de recuar ao que estava decidido brada aos céus. Refiro-me, bem entendido, à recente proibição de candidatos duplos. O facto de ter sido tardia não obsta a uma certa carência de ética. Tanto do PS como dos indicados. Para mim é surpreendente, pelo menos pela parte de Ana Gomes, que estimo e considero, e cujas atitudes e comportamentos a diferenciavam, totalmente, dos seus camaradas. Limito-me a registar o facto. Não faço, nunca fiz, julgamentos morais. No entanto, creio que muitas resoluções das comissões políticas dos partidos deveriam ser criticadas e contestadas. Esta, dos duplos candidatos, é uma delas e, certamente, a mais gritante por grosseira. Pode-se estar no Parlamento Europeu e, simultaneamente (simultaneamente?) numa câmara municipal? Revela-se um manifesto desrespeito pelos munícipes, pelos eleitores e pela própria natureza da democracia. Apareceram declarações paliativas. Não passam de isso mesmo: de declarações paliativas, que não convencem ninguém. E agora? A direcção do PS deveria vir a público esclarecer os motivos que a levaram à primeira decisão e as circunstâncias que a conduziram à segunda. Nenhuma delas acertada, exactamente porque ambas atabalhoadas. Também não acho justas e equilibradas as explosões de ira das duas candidatas expostas contra Manuel Alegre. Ele pode ter inúmeros defeitos, mas o que disse comporta muito das virtudes republicanas. Estas decisões e contradecisões surgem sempre como malformações de carácter político, desvios da ética, estratagemas apressados, manigâncias, aldrabices, trapalhadas. Se me perguntassem, numa hipótese absurda, se gostaria mais de estar uns anos na Europa do que a dirigir uma câmara, não hesitaria. Perdoem-me a confissão. A minha presença "europeia" só seria precisa (e mesmo assim…) por dois ou três dias, e o resto da semana passá-lo-ia aqui, a ler e a escrever o que me desse no goto. Por fim, teria uma reforma reconfortante, porque o vencimento mensal europeu nada tem a ver com os ordenados normais portugueses. Estes remendos, estas ambiguidades, não só cansam os eleitores portugueses como, demonstradamente, amolgam a democracia e os seus conceitos. Mas, independentemente do desgosto, da fadiga e do desencanto que nos assola, como endemia, já admitimos estas poucas-vergonhas como banalidades. O surto das fábricas do sonho encontra nos telejornais o seu terreno mais fértil. Cristiano Ronaldo, os seus milhões, as suas namoradas, os jactos privados, as noitadas, o preço das camisolas, os automóveis abrem telejornais, "justificam" enviados especiais a Madrid, graves comentários de graves comentadores. A imbecilização caminha sob a justificativa de que Cristiano é "notícia." Há uma notória e insultuosa inversão de valores. O futebolista é o maior, o melhor e tudo, mas, pergunta a minha malvada curiosidade: o assunto justifica a dimensão que se lhe atribui? O mesmo ocorreu com a morte de Michael Jackson. O homem era um pedaço de tragédia humana, e, no meu entender deveria ter sido tratado com a compaixão e o respeito merecidos. Nada disso: durante mais de uma semana, as televisões, durante horas seguidas, forneceram um manancial de morbidez a "voyeurs" escabrosos. Sobre a ambiguidade sexual daquele ser disforme, que não era carne nem peixe, apenas um esgar humano, que suscitava piedade e angústia, exibiram-se entrevistas, documentos, depoimentos, bizarrias. O jornalismo no estado mais baixo da degradação. Tudo em nome das audiências. Evidentemente, estas escolhas editoriais não são pacíficas nem ingénuas. São, a um tempo, ignorantes e burras. A burrice, aliás, campeia impante por aqui e por acolá. Por vezes, essa burrice mascara-se de uma superioridade absurda, e essa ignorância adquire carta-de-alforria. O que está a acontecer, na nossa pobre terra, é um pouco de isso tudo, sem que ninguém consiga travar a onda. Os que se lhe opõem são marginalizados, chamados de "comunistas", suspeitos de quererem alguma coisa que não, somente, a expressão das suas indignações. Averiguadamente, há uma sanha revanchista, movida por grupos de pressão, contra alguns daqueles que não embarcam nestas aventuras desacreditantes. Basta ler os jornais, ver as televisões e escutar certas rádios. Ler quem escreve o que escreve; ver quem fala e quem está; escutar quem diz o que diz e como diz. |
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