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Publicado 15
Julho
2009 12:01 Opinião |
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Considero que Portugal tem essencialmente dois desafios económicos: o mais importante é retomar a convergência com a UE (um objectivo mais ambicioso do que apenas o pleno emprego); o mais urgente é estancar o crescimento do...
Considero que Portugal tem essencialmente dois desafios económicos: o mais importante é retomar a convergência com a UE (um objectivo mais ambicioso do que apenas o pleno emprego); o mais urgente é estancar o crescimento do endividamento externo. Felizmente, e ao contrário do que é habitual, a resposta a ambos passa basicamente pelo mesmo: pela recuperação da competitividade.
Assim sendo, revejo-me largamente no primeiro manifesto (chamemos-lhe A) de ex-ministros das Finanças e académicos, que apelam à reavaliação dos grandes investimentos públicos. Daria talvez um pouco mais de destaque ao problema do financiamento dos projectos, como uma das componentes mais débeis das decisões passadas. Gostaria de acrescentar que a mudança de localização do aeroporto, da Ota para Alcochete, nos revelou uma verdade importantíssima: em Portugal, muitas decisões de grandes investimentos são tomadas com base num conjunto de estudos de uma impressionante fragilidade. O manifesto seguinte (B), subscrito por um conjunto de académicos e políticos de esquerda mais ou menos radical, em nenhum momento fala da nossa divergência estrutural com a UE. Como é possível passar por cima de um dos maiores (se não o maior) problemas económicos? Isto é quase como ir ao médico e este pôr-se a falar da perna partida e ignorar o cancro. O manifesto B diz que "o combate ao desemprego tem de ser o objectivo central da política económica". Só que se esquece que os empregos criados têm que ser sustentáveis, sob pena de nos estarmos a endividar para obter resultados de curto prazo, rapidamente revertidos e com elevados juros, a médio prazo. Depois de expor um conjunto questionável de investimentos (não falam explicitamente no TGV), esperam que daí decorra um "território mais coeso e competitivo". Mas como? Eles têm consciência do problema da competitividade (vá lá), mas parece que esperam que ela se resolva por milagre, sobretudo porque não consideram que o problema seja prioritário. Este manifesto também revela uma desagradável tendência para a desonestidade intelectual. Acusa o manifesto A de querem impor soluções, quando A só pretende que se discutam as soluções, enquanto B já sabe todas as respostas. O manifesto C, de gestores públicos e empresários com fortes relações com o Estado, reconhece os nossos dois graves problemas económicos, embora numa formulação um pouco confusa. Mas defende explicitamente o TGV e o novo aeroporto (este menos contestável do que aquele), na base de que já se fizeram muitos estudos (lembrem-se da Ota!). Eles têm a certeza de que estes investimentos vão tornar "Portugal melhor e mais competitivo". Ora, pelo menos o TGV não é um investimento competitivo. Se o preço dos bilhetes do TGV tivesse que reflectir o verdadeiro custo (mesmo descontando as ajudas da UE), ninguém andaria de TGV (talvez apenas aqueles que têm medo de andar de avião). Como é que um país que investe em projectos que não são competitivos se torna, por essa via, mais competitivo? Há a possibilidade teórica de haver potentes externalidades positivas, mas nem essa possibilidade é óbvia nem a extrema intensidade das mesmas o é. A demonstração de tal improbabilidade, não sendo teoricamente impossível, exige um grande trabalho, que, manifestamente, ainda não foi feito. Em resumo, o manifesto A veio propor que se parasse para reflectir e estudar, inclusive outros projectos que não estão sequer em cima da mesa. Os manifestos B e C respondem dogmaticamente que não é preciso estudar nada, que eles já sabem as respostas todas e estão tão seguros de serem donos da verdade, que nem sequer precisam de a demonstrar. Lembrem-se da Ota! Economista Assina esta coluna mensalmente à quarta-feira |
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