Publicado 27 Julho 2009  12:02
Opinião
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João Borges de Assunção 
Moderação durante as crises
jba@fcee.ucp.pt


Uma das ideias mais aceites na sociedade é a de que as crises económicas se resolvem com mais despesa pública ou com défices mais elevados. Se as coisas fossem tão simples nenhum país alguma vez sofreria qualquer crise...

Uma das ideias mais aceites na sociedade é a de que as crises económicas se resolvem com mais despesa pública ou com défices mais elevados. Se as coisas fossem tão simples nenhum país alguma vez sofreria qualquer crise económica.

Esta ideia aparece por vezes na forma de variantes como a de que se consegue aumentar o crescimento da economia através de maior despesa e défice públicos. Mais uma vez, todos os países cresceriam às taxas dos países emergentes se fosse tão simples aplicar esta receita.

Porque é que esta ideia, que não tem suporte empírico inequivocamente suficiente, tem tantos adeptos? Antes de mais porque é uma ideia muito mais simpática de executar do que a sua oposta. Por exemplo, é muito mais difícil governar, como a história portuguesa ilustra, gastando pouco e tendo as contas pública em ordem do que gastando muito e aumentando as dívidas.

Parece-me por isso normal que a maioria dos governantes seja apologista de teorias que advogam a expansão do papel do Estado. Acresce que se analisarmos as consequências das decisões durante poucos períodos (por exemplo alguns trimestres) pode acontecer que o acréscimo de despesa pública aumente um pouco a actividade económica observada no curto prazo.

Por exemplo, se o Estado decidir começar a comprar torradeiras, sem abdicar das suas compras de frigoríficos e fogões, parece normal que a produção de torradeiras aumente sem prejuízo aparente dos outros sectores de actividade. Assim, os sectores de actividade beneficiários deste acréscimo de despesa verão também de forma favorável estas iniciativas, aumentando a sua actividade sem prejuízo de ninguém.

Porém, este argumento é falacioso em geral já que o acréscimo de despesa terá de ser pago pelo resto da sociedade mais cedo ou mais tarde, a não ser que as torradeiras sejam tão rentáveis para o Estado (por exemplo se o valor de mercado das torradas produzidas for elevado), que se paguem a si próprias.

Claro que se se pensar que a despesa total do Estado num período longo (por exemplo 10 anos) será mais ou menos um dado, seria preferível distribui-la no tempo de forma a gastar um pouco mais nos anos em que a actividade económica é inferior à média e um pouco menos quando a actividade económica é superior à média. Porém, nesta última perspectiva, o benefício da variação da despesa pública não é tanto a de induzir crescimento económico sustentado, mas sim, apenas alisar a normal flutuação económica. Um argumento muito diferente do anterior.

As crises, com as dificuldades que trazem para muitos cidadãos, criam um terreno fértil para encontrar culpados e propor soluções miraculosas. Muitos aproveitam as crises para justificar a aplicação dos programas que sempre defenderam ou para julgar como culpados aqueles que sempre perseguiram. Nesse sentido as crises são momentos perigosos, em que as vozes moderadas tendem a ser engolidas pela aparente razão das vozes mais extremistas com teorias simplistas sobre o funcionamento do mundo.

Uma forma de defender a sociedade deste extremismo seria aumentar o grau de exigência sobre a justificação das decisões do Estado. Este resultado é difícil de obter já que a crise legitima a adopção de mais medidas, tomadas de forma mais célere e menos analisadas e escrutinadas. A mera gravidade da situação impele os decisores para a acção, mesmo que seja para tomar decisões incorrectas.

Quando as entidades internacionais alertam para os riscos proteccionistas é deste fenómeno que estão a falar. A protecção dos sectores e empresas nacionais é geralmente bem aceite pela imprensa e as organizações associativas. Durante as crises e perante as dificuldades é muito mais difícil travar esta tendência natural das sociedades, mas como a maioria dos consumidores portugueses bem percebe a nossa qualidade de vida seria bem inferior se fossemos condenados a fazer a escolha daquilo que consumimos apenas entre os produtores nacionais.

As crises financeiras e económicas, como a actual, criam enormes tensões na sociedade. O Estado é chamado a dirimir mais dessas tensões e a tentação de fazer tábua rasa do passado e criar um admirável mundo novo ganha grande espaço mediático.

É por isso que valorizo tanto a moderação no pensamento e na acção demonstrada pelos líderes em períodos de crise.


Professor da Universidade Católica Portuguesa
jba@fcee.ucp.pt
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Comentários
  • O quê?A Mota -Engil também produz torradeiras?
  • Total de comentários: 1
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