Publicado 01 Outubro 2009  11:42
Opinião
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Pedro Santos Guerreiro
Portugal, Estado de alma
psg@negocios.pt


Se o génio da lâmpada aparecesse aos portugueses, na sala onde Cavaco Silva receberá hoje José Sócrates estariam dez milhões de moscas. Não apenas por "voyeurismo", mas por interesse: não é a relação entre dois homens que está em causa, é a...

Se o génio da lâmpada aparecesse aos portugueses, na sala onde Cavaco Silva receberá hoje José Sócrates estariam dez milhões de moscas. Não apenas por "voyeurismo", mas por interesse: não é a relação entre dois homens que está em causa, é a estabilidade do Estado.

A primeira e a terceira figuras de Estado encontram-se depois de uma agressão recíproca em directo nas televisões e antes de um empossar o outro. Quase cem anos depois da República, só as ruas estão mais calmas. Mas perplexas.

Dificilmente Cavaco Silva sairia bem de uma comunicação ao País. Não saiu. Mas fez, como escreve Marina Costa Lobo a páginas 31, controlo de danos. Se não convenceu nos argumentos, convenceu na vontade de usar o seu poder. O Presidente não capitulou.

Quem ouve Cavaco acusar o PS de orquestrar uma manobra de manipulação grotesca da opinião pública (e da opinião publicada), ou entende que está paranóico e deve ser internado num sanatório ou tem de admitir que a história não está toda contada. Mesmo censurando-o por não ter falado antes, em Agosto, quando tinha a obrigação institucional e o dever moral de dissolver a inominável suspeita de escutas a Belém. Os silêncios do Presidente tornaram a conspiração credível, num País onde outro Presidente já teve os seus telefonemas num processo de pedofilia, onde um procurador-geral foi mesmo escutado e outro, o actual, ouve "barulhinhos esquisitos" no telemóvel.

O Presidente tem muitos defeitos, que aqui foram assinalados ao longo de meses, incluindo o da presunção de que não pode ser criticado. Assim foi no caso BPN, não apenas por inexplicavelmente ter-se constituído como escudo humano de Dias Loureiro mas por ter explicado mal uma relação accionista. Mas um defeito ninguém atribui a Cavaco: o de ser mentiroso.

Essa pretensa "santidade" foi todavia sendo respeitada (aliás, exageradamente) por colunistas e analistas ao longo de todo o mandato. Num ápice, Cavaco esbanjou esse capital, passou de bestial a besta e não pode vitimizar-se: os erros são seus. Quem sempre o odiou teve um pretexto, quem sempre o amou sentiu-se traído.

Não é por isso surpreendente que, ontem, o Presidente tenha sido apedrejado em praça pública por comentadores oficiais, por políticos encartados e por populares nos programas radiofónicos. Mas é espantoso ver que nem uma pessoa saiu em sua defesa. Nem uma. Cavaco tem razão: o seu cargo é unipessoal. Mas nunca foi tão isolado. Onde estão os cavaquistas? Pendurados na vinha das infidelidades que o próprio Cavaco já cultivou.

Todos os cenários sobre a mesa, razoáveis ou mirabolantes (incluindo a tolice impossível de o PS não ser chamado a constituir Governo), esbarram neste isolamento do Presidente. Cavaco não tem aliados. Nem nos corredores nem na rua. E não pode activar as duas bombas de desfragmentação de que dispõe (a indigitação agora do Governo e a dissolução da Assembleia seis meses depois) sem esse apoio popular. O que o resigna a, no máximo, emperrar o Governo com devoluções de diplomas e vetos de gaveta.

O programa do PS é chachada suficiente para não fazer rupturas legislativas. A não ser que queira: com a família, por exemplo. Sócrates precisa poucas vezes de Cavaco mas a maioria é-lhe dispersa: o próprio Parlamento vai ter de tomar uma posição para não ser atingindo pelo "fogo amigo".

Os políticos podem ter estados de alma. Mas não podem fazer de Portugal um Estado de almas. Porque o Estado não são eles, somos nós.


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  • Brilhante Dr PSG: "Quem ouve Cavaco acusar o PS de orquestrar uma manobra de manipulação grotesca da opinião pública (e da opinião publicada), ou entende que está paranóico e deve ser internado num sanatório..."
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